KAPITTEL 5 HVORDAN HÅNDTERES STRØKSSERVITUTTER AV OFFENTLIGE INSTANSER?
5.3 D OMSTOLENE
A problemática entre a essência e a existência é complexa. O próprio Tillich defende a ideia básica de que toda doutrina teológica do ser humano deveria possuir duas partes principais: a doutrina da liberdade humana e a doutrina da servidão humana (TILLICH, 2010, p. 230). Isto é, as doutrinas da natureza essencial e da natureza existencial do ser humano. Segundo Tillich, as principais razões pelas quais se defende uma dualidade da doutrina do ser humano estão fundadas na possibilidade de que a liberdade humana possa negar ela mesma a sua própria natureza essencial (TILLICH, 2010, p. 230). E esta possibilidade é real. Nesse sentido, sua saga deve percorrer a história da filosofia de Platão a Sartre. Tanto na filosofia como também na teologia sempre se estabeleceu uma distinção entre o ser essencial e o ser existencial. Sobre a essência, Tillich demonstra que a palavra deve pelo menos possuir seis grandes significados que são: (1) a natureza de uma coisa sem qualquer valoração da mesma; (2) os universais que versão e caracterizam as coisas; (3) as ideias de que participam as
coisas existentes; (4) norma pela qual uma coisa deve ser julgada; (5) a bondade original de tudo aquilo que é criado; (6) os modelos de todas as coisas na mente divina (TILLICH, 2005,
p. 211). Todas essas definições estão envoltas por uma ambiguidade básica. A mesma reside na oscilação entre o sentido empírico e o valorativo (TILLICH, 2006, 2011). Portanto, na perspectiva tillichiana, o respectivo conceito deve ser pensando da seguinte forma:
[...] Essência como natureza de uma coisa, ou como qualidade da qual participa uma coisa, ou como universal, significa uma coisa. Essência como aquilo da qual o ser “caiu”, como a natureza verdadeira e não distorcida das coisas, significa outra coisa. No segundo caso, a essência é à base dos juízos de valor, enquanto, no primeiro caso, a essência é o ideal lógico a ser alcançado mediante abstração ou intuição sem interferência de valorações (TILLICH, 2005, p. 2011).
Já sobre o conceito de existência, Tillich procurou deixar claro, que o mesmo também é usado de várias maneiras tais como: (1) a possibilidade de encontrar uma coisa dentro da
totalidade do ser; (2) a efetivação daquilo que é potencial no domínio das essências; (3) o “mundo caído”; (4) um tipo de pensamento que está consciente de suas condições existenciais (5) um tipo de pensamento que rejeita inteiramente sua essência (TILLICH,
2005, p. 2011). Sobre esses aspectos, Tillich demonstra ambiguidade e contradição da seguinte forma:
[...] A essência dá poder e julga aquilo que existe. Ela lhe dá seu poder de ser e, ao mesmo tempo, se opõe a ele como lei imperativa. Onde essência e existência estão unidas, não existe nem lei nem juízo. Mas a existência não está unida à essência; por isso, há lei em tudo, e o juízo se expressa em autodestruição. Também a palavra “existência” é usada em vários sentidos [...] De novo, uma ambiguidade inevitável justifica o uso desta palavra em diferentes sentidos. Tudo que existe, isto é, tudo quanto “está fora” da mera potencialidade, é mais do que é no estado de pura potencialidade e menos do que poderia ser no poder de sua natureza essencial (TILLICH, 2005, p. 2011).
Todavia, em que sentido é possível afirmar a defesa que Tillich faz de que o processo de transição da essência à existência possui pressupostos para o estabelecimento relacional como o seu conceito de alienação? A resposta a esses e a outros questionamentos correlatos, vai ser apresentada por Tillich primeiro por uma perspectiva filosófica e posteriormente de maneira teológica. O epicentro desse diálogo é o símbolo da queda. 45 Do ponto de vista filosófico, Tillich utiliza inicialmente as propostas de Platão (TILLICH, 2005, p. 325). Para o filósofo grego, o respectivo problema é pensado dentro de sua doutrina da imortalidade da alma. Em Platão, a descrição da transição da essência para a existência está posta a partir de uma perspectiva mitológica onde a ideia é falar sobre a “queda da alma”. Isto é, para ele, a existência não é uma questão de necessidade essencial, mas um fato e, por isso, a “queda da alma” é um relato a ser expresso em símbolo mítico (TILLICH, 2005, 325). Portanto, Platão não entende a existência como uma implicação lógica da essência. Para Tillich, é justamente
45 Em diversos de seus trabalhos Tillich estabeleceu uma profunda convicção sobre a importância da
hermenêutica dos símbolos para melhor compreender os conceitos teológicos. Em se tratando do respectivo símbolo da queda, Tillich procede à recepção parcial do mesmo através da chamada “semidesmitologização” (CARVALHO, 2007, p. 167). Sobre pesquisas nessa temática temos: O conflito das Interpretações (P. Ricoeur);
A concepção de símbolo e religião em Freud, Cassirer e Tillich (R. Josgrilberg); A dança dos símbolos no cenário da hermenêutica (F. P. Pires); entre outros.
por ser um fenômeno criado, e não uma consequência necessária da natureza essencial do ser humano que faz como que o processo de transição seja comparado ao problema teológico. Do ponto de vista teológico, a transição da essência para existência serve para representar o símbolo da “queda (TILLICH, 2005, p. 325). Nesse sentido, quando a teologia diz que a existência está separada da essência, ela simplesmente está tomando emprestado conceitos ontológicos, convertendo-os em conteúdos teológicos (TILLICH, 2006, p. 326). Assim, o estado de inocência sonhadora conduz para além de si mesmo. A possibilidade da transição da essência para existência é experimentada como tentação (TILLICH, 2005, p. 329). No entanto, para que a liberdade se efetue de fato, tal evento é ontologicamente inevitável.
Contrariando a perspectiva dos teólogos ortodoxos, Tillich descreve esse fenômeno da queda ou da alienação existencial da seguinte forma:
A tentação é inevitável, porque o estado de inocência sonhadora não é provado nem decidido. Não é perfeição. Os teólogos ortodoxos acumularam perfeição sobre perfeição no Adão anterior à queda, equiparando-o à figura do Cristo. Esse procedimento não só é absurdo, mas também torna completamente incompreensível a queda. Mera potencialidade ou inocência sonhadora não é perfeição. Só a união consciente de existência e essência é perfeição: Deus é perfeito, porque transcende essência e existência. O símbolo “Adão antes da queda” deve ser entendido, pois, como a inocência sonhadora de potencialidades indecididas. Se perguntarmos o que é que conduz à inocência sonhadora para além de si mesma, devemos continuar nossa análise do conceito de liberdade finita [...] A proibição divina pressupõe uma espécie de ruptura entre o criador e a criatura, uma ruptura que torna necessário o mandamento, mesmo que seja dado apenas para pôr à a obediência da criatura. Essa ruptura é o ponto mais importante na interpretação da queda, pois pressupõe um pecado que ainda não é pecado, mas que também já não é mais inocência. É o desejo de pecar. No estado de inocência sonhadora, a liberdade e o destino estão em harmonia, mas nenhum deles se encontra efetivado [...] A tensão ocorre no momento em que a liberdade finita se torna consciente de si mesmo e tende a se tornar efetiva. A isso poderíamos chamar de momento da liberdade despertada (TILLICH, 2005, p. 329-330).
Bernard Martin (1963) em seu livro The Existentialist Theology of Paul Tillich afirma que é justamente por isso a questão da transição da essência à existência deve ser fundamentalmente pensada, com tema central da antropologia tillichiana (MARTIN, 1963, p. 112). Para esse autor, a problemática da transição é entendida como uma espécie de distanciamento existencial do homem de sua essência ontológica, consequentemente um processo de alienação (MARTIN, 1963, p. 121). Isto é, a realidade básica do estado existencial do homem é a sua alienação, tanto de si mesmo, como também do ser de Deus (MARTIN, 1963, p. 121). Por outro lado, paradoxalmente Tillich continua defendendo que a essência e existência se encontram interligadas, ou seja, mesmo estando em conflito, destino e
Grosso modo, para Tillich, esse processo de transição da essência a existência determinado de alienação, deixa de fato exposto que existência humana marcada pela presença da finitude é composta por diversos traumas tais como: a angústia e desespero (TILLICH, 2005, p. 331); a existência como trágica (TILLICH, 2005, p. 338); morte e culpa (TILLICH, 2005, p. 360); sofrimento e solidão (TILLICH, 2005, p. 363); dúvida e falta de
sentido (TILLICH, 2005, p. 365).