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Sabe-se que os homens criativamente repensam seus esquemas convencionais. É nesses termos que a cultura é alterada historicamente na ação. Poderíamos até falar de transformação estrutural, pois a alteração de alguns sentidos muda a relação de posição entre as categorias culturais, havendo assim uma “mudança sistêmica” (SAHLINS, 2003, p. 08).

A dança do trança fitas, característica marcante do Marinheiro de São Benedito, é um dos belos momentos que podemos ver na congada. Por meio de uma coreografia complexa, envolvendo diversas congadeiras(os), o Marinheiro de São Benedito apresenta, no trançar das fitas, o “balanço do mar”. De acordo com Selma, a madrinha do Terno, é uma dança que requer muita concentração e assiduidade nos ensaios, se não é perigoso errar.

Mas a nossa dança de fitas aqui é uma invenção, uma intuição que veio na cabeça. O meu irmão, ele estudou, bolou, ensaiou, deu certo. É onde nós temos a trança de fitas de homens por dentro e mulheres por fora; mulher por dentro e homem por fora...

É por isso que tem que ter ensaio, ensaio, ensaio... E para dançar a trança de fitas tem que saber o apito, marcar o apito. A pessoa precisa estar concentrada naquilo ali que ela está fazendo; se ela estiver concentrada, ela não vai errar (Selma, roda de conversa, setembro de 2009).

Neste capítulo, convido a leitora e o leitor a trançarem as fitas sobre cultura e cultura popular. Nesse trançar, abordaremos a relação entre cultura e história, sabendo que “a forma humana não pré-existe à história como uma idéia eterna que esta reflete e deforma” (FIORI, 1986, p. 07). A cultura se altera historicamente, e a história, por meio da ação humana, também se altera culturalmente.

É importante lembrar que a cultura e a história são frutos da ação de mulheres e homens e que:

os atores são participantes das relações sociais, étnico raciais, econômicas, culturais, políticas e históricas, o que permite que se apropriem dos valores e comportamentos de seu tempo e lugar, lutando pela sua existência. Não são, portanto, essas pessoas, meros receptáculos das situações que ocorrem na sociedade na qual vivem (OLIVEIRA et al., 2009, p. 06).

Para tecer as teias que constituirão este capítulo, reportar-nos-emos primeiramente ao conceito de cultura apresentado por Geertz, que a define justamente como “uma rede de significados que os homens elaboram socialmente” (GEERTZ, 1973, p. 15).

Nessa rede de significados que constitui a congada em Uberlândia, podemos perceber a diversidade de cores, sons, músicas que compõem esse ritual no qual os ternos cantam e dançam em louvor a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Essas diferenças fazem com que, em um ambiente comum a esses dançadores devotos, cada Terno leve para a rua suas características

particulares.

Além de ter as regras na irmandade, cada Terno tem as suas regras, tem o seu regulamento, além da irmandade. O marinheiro aqui tem a hierarquia do marinheiro, que é seguida aqui mesmo, que já é a tradição... (Selma, roda de conversa, setembro de 2009).

Cada Terno apresenta suas características e regras específicas que compõem a tradição na diversidade. As cores, as bandeiras, os estandartes, o ritmo, as músicas, os adereços, as capas, os bastões e o nome os diferenciam dentro de uma mesma nação. A afirmação que cantadoras(es) trazem nos versos, de pertencerem a determinado Terno, é carregada de um sentimento de fidelidade, certeza e construção de identidade: “nas ondas do mar eu vim, nas ondas do mar eu virei/cheguei na Igreja do Rosário, marinheiro pra sempre eu serei25”.

25 Música composta pelo capitão Elias Silva, durante a caminhada até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Segundo

Elias, ele nunca havia feito música; foi a primeira vez. Ele chorou, emocionado, ao cantá-la na porta da igreja. Capitão Elias cantando para a passagem do Marinheiro na porta

Mas é possível observar também a transitoriedade de congadeiras(os) pelos ternos que compõem a congada na cidade, ou seja, participar, em diferentes momentos, de diversos ternos não desqualifica ou diminui a afirmação da identidade congadeira.

Por exemplo, José Pedro começou dançando congo no Terno de Sainha e hoje é capitão do Terno de Congado Marinheiro de São Benedito e, se necessário for, desloca-se para outro Terno para ajudar a estruturá-lo e depois volta para o Marinheiro.

Então o marinheiro tem esta tradição, tem essa raiz. Estamos aí. As minhas histórias são assim idas e vindas, salva um, salva o outro... (José Pedro, roda de conversa, setembro de 2009).

Essa transitoriedade permite mudar de Terno e demonstrar a mesma fidelidade ao Terno do qual participa naquele momento. Ariel conta que conheceu Luizão, capitão do Marinheiro de São Benedito, um dos fundadores do Terno, junto com dona Gessy, Selma e suas outras irmãs, no Congo Branco.

Depois Luizão fundou o Terno de Congado Beira Mar, que se apresenta em maio na Igreja de São Benedito. A presença de Luizão em diferentes grupos, como no Congo Branco, no Marinheiro de São Benedito e no Beira Mar, não impede que ele demonstre sua fidelidade a todos eles.

Quando eu entrei no congo lá, eu não sabia. Eu aprendi com o Luiz, que fundou aqui o Marinheiro. Nesse ano ele estava ajudando o Congo Branco do Osmarão, e eu conheci ele lá. Ele me ensinou os apitos, me ensinou a tocar, me ensinou a pular com a caixa [...] (Ariel, roda de conversa, setembro de 2009).

Fazer parte de um Terno significa ser pertencente ao movimento da congada, e isso faz com que homens e mulheres cantem e afirmem sua identidade congadeira. A multiplicidade do universo congadeiro passa pela afirmação de identidade dentro dos ternos, pela religiosidade complexa, que, ao mesmo tempo, homenageia os santos católicos e os orixás, e pela apropriação de expressões da indústria cultural, as quais envolvem músicas, enfeites, óculos, etc. Durante a festa, é possível ouvir refrões como: “não é mole não, Rosário Santo26, é sucesso no povão” e ver adereços de bandas

como Restart27 compondo as fardas dos congadeiros.

Aqui, para a compreensão de cultura e cultura popular, fundamentar-nos-emos nesse trançar de universos, nesse transitar que modifica, transforma e ensina. As percepções tanto sobre cultura quanto sobre congada são múltiplas, e é nessa multiplicidade que seguiremos por esses nossos caminhos.

Segundo Stuart Hall (2003), o que vem ocorrendo com relação às transformações dos processos culturais é a rápida destruição de estilos de vida e a transformação em algo novo, levando a apropriações e expropriações de valores diferenciados. Nesse âmbito, a cultura popular se transforma, ressignifica, apropria, expropria, incorpora, para se manter viva no contexto no qual está inserida. É preciso pensar a cultura popular em sua dinamicidade, e não interpretá-la como algo estático, em um tradicionalismo que acaba sendo interpretado como conservador, anacrônico e retrógrado.

cidade, como pessoas do hip-hop e de outros ternos de congada.

27 Restart é uma banda de emocore criada em São Paulo, Brasil, em agosto de 2008. Entre suas principais características,

consta o visual colorido, com diversos adereços, como grandes óculos, pulseiras, etc.

Ariel segurando o repilique, instrumento tocado por ele no Marinheiro, ao lado direito seu pai Sérgio e seu primo integrante da Banda G7 e do lado esquerdo outro componente do terno.

[...] as transformações situam-se no centro do estudo da cultura popular. Quero dizer com isso o trabalho ativo sobre as tradições e atividades existentes e sua reconfiguração para que estas possam sair diferentes. Elas parecem persistirem; contudo de um período a outro, acabam mantendo diferentes relações com as formas de vida dos trabalhadores e com as definições que estes conferem às relações estabelecidas uns com os outros, com seus outros e com suas próprias condições de vida. A transformação é a chave de um longo processo de moralização das classes trabalhadoras, de desmoralização dos pobres e de reeducação do povo (HALL, 2003, p. 248).

A prática social da congada se constitui como uma rede de símbolos, significados, relações, formas e sensações que se entrelaçam para manter e transformar o fazer cultural que estrutura a vida das pessoas, o que as faz existir. Cabe, então, a nós a compreensão e interpretação dessa prática cultural, respeitando, ouvindo, vendo e percebendo a diversidade presente na congada de Uberlândia.

De acordo com Bosi (1994, p. 319), cultura é “um conjunto de modos de ser, viver, pensar e falar de uma dada formação social”. Apontar aqui caminhos para o entendimento sobre o conceito de cultura e cultura popular não significa desconsiderar outras diversas formas de se compreender esses universos. Fazemos isso no sentido de guiar a leitora e o leitor para que os caminhos deste texto possam nos levar às reflexões acerca dos processos educativos presentes na congada.

Aqui a definição de cultura popular que nos interessa para uma educação transformadora e para a análise de uma cultura urbana e contemporânea, como a congada de Uberlândia, está em Hall (2003, p. 248), quando diz que “a cultura popular não é, num sentido puro, nem as tradições populares de resistência a esses processos, nem as formas que as sobrepõem. É o terreno sobre o qual as transformações são operadas”.

Desse modo, não podemos, a partir de nosso saber acadêmico, colocar-nos na função simples, rasa e desrespeitosa de buscar provar leis forjadas à luz desse conhecimento elitizado. É importante olharmos para o terreno em que ocorrem as transformações sociais e buscar compreendê-las em seu contexto. Digo isso porque os conceitos com os quais trabalhamos para estruturar as pesquisas realizadas dentro das universidades são elaborados e pensados sob o viés acadêmico, alheios à realidade das congadeiras e dos congadeiros.

Então, tentar compreender a história da congada requer cuidado para não buscarmos enquadrá-la em caixas e conceitos preconcebidos. Para isso buscaremos, nas falas das(dos) colaboradoras(es), as definições que elas próprias dão à congada, como manifestação da cultura popular local.

Eu e meu pai, a gente que confecciona nosso chapéu. Não é só mulher que borda, não. Cada um tem seu jeito particular de colocar seus enfeites, mas nunca sai do padrão, né? Tem um padrão, né? Então, no chapéu a gente pode colocar fita, pode colocar cordão de São Francisco, lantejoula, o máximo que a gente puder aperfeiçoar pra ficar bonito a gente vai fazer. Cada um borda o seu.

Aqui dentro do Congo Marinheiro tem gente que faz chapéu. A Tiana faz as faixas, porque tem faixas que são aquelas que amarram. As da Tiana já é só pregar, aí vai modernizando e aqui mesmo a gente faz... (Ariel, roda de conversa, setembro de 2009).

Modernizar, transformar, recriar, aperfeiçoar, incrementar faz parte dos processos de transformação das culturas populares. Além de modernizar o chapéu, modernizam-se também as fardas, as músicas, e todas essas transformações são feitas ali dentro do quartel, dentro do Terno, pelas pessoas que o compõe.

As transformações vão além dos adereços, e as músicas perpassam também pela forma de compreender e ressignificar a tradição. Contam que antigamente, para carregar a bandeira do Terno, era preciso ser uma menina virgem. Hoje, pouquíssimos grupos mantêm essa determinação. Outro exemplo é a preparação de um “remédio” feito à base de ervas e vinho. Esse preparado deve ser tomado antes de sair à rua no dia da festa. De acordo com as madrinhas e os capitães, é um preparado para a proteção carnal e espiritual. Mais à frente falarei melhor sobre isso.

Antigamente, essa mistura era feita à base de cachaça. Hoje, muitos terreiros e grupos de congada o preparam à base de vinho, em razão dos problemas relacionados à ingestão da cachaça.

A manutenção da tradição do Congado em Uberlândia, de origem rural como se viu, é feita nas últimas décadas do século XX, com diversas mudanças nas relações institucionais, na organização da população congadeira e na atualização da expressão dos ternos em evidência durante a festa. São transformações inerentes às mudanças do contexto. É um processo pelo qual a tradição absorve referências do cenário e da época em que acontece (MEIRA, 2007, p. 52).

A cultura popular se transforma para se manter viva, reorganiza-se, cria estratégias, e isso se configura também como uma forma de luta contra a dominação cultural. A congada luta, por meio de suas artimanhas, contra o “colonialismo escravocrata, o imperialismo americano e os poderes econômico, tecnológico e cultural, [que] são processos de dominação” (MEIRA, 2007, p. 64).

A cultura dominante assimila para desenraizar, desqualificar, tornar outra coisa. Nesse caso, a transformação não é para a manutenção, e sim para assimilar e servir à cultura de mercado. Por isso, várias manifestações da cultura popular, como a congada, vivem momentos de tensão, quando seus participantes são levados a cumprir regras forjadas pela cultura dominante, para que, sendo

mais frágil, possa o movimento ser assimilado e tornado cultura de mercado.

Em Dussel (s/d) encontramos reflexões sobre a dominação cultural e como essa dominação cria a noção de uma única cultura, uma cultura global, deixando de lado todas as particularidades e a alteridade. De acordo com o autor:

Aceita-se como evidente que a cultura européia é a cultura universal. Este universalismo não é mais do que o universalismo abstrato de uma particularidade que abusivamente se arroga a universalidade, e que com isso nega todos os outros particularismos e exterioridade das outras culturas. Surge assim o mecanismo pedagógico da dominação cultural. No centro está a cultura que se pode chamar imperial, no sentido mais forte: aquele que impõe, por seu intermédio e vontade, o que é seu. Logo aparecerá uma cultura colonial; esta cultura colonial vai se desdobrar, porque nela haverá uma elite cultural ilustrada e um povo. (DUSSEL, s/d, p. 263).

Ainda segundo Dussel (s/d), é importante sabermos fazer a crítica no sentido de não nos pautarmos apenas pela ciência, pelo conhecimento acadêmico, para compreendermos práticas sociais e processos educativos.

A ciência é o mais sutil instrumento de dominação, sobretudo quando pretende ser “universal”. Não há em seu sentido real, humano, histórico, uma ciência “universal”. As opções pré científicas são essenciais para as ciências e estas são políticas, sociais, culturais (DUSSEL, s/d, p. 270).

A congada não precisa de pesquisadoras(es) para se manter viva e com sentido para sua comunidade. O contrário já não pode ser dito, porque nós necessitamos estar em contato com os ensinamentos e aprendizados adquiridos por meio da cultura popular para que possamos aprender sobre nossas culturas e histórias.

Se o congado sair um pouco da cultura, também sai, qualquer um pode morrer a qualquer hora, o congado não. Se Deus quiser, vai viver para sempre, vai passando de um em um, do pequeno para o maior, do maior para o pequeno e, se um dia chegar na minha mão, vou ficar muito feliz (Lethicya, roda de conversa, novembro de 2009).

inferioriza e nega a cultura popular, precisamos nos aproximar dos grupos mantenedores das tradições, como a congada, para compreendermos coletivamente esse processo de dominação e juntos buscarmos essa transformação.

Assim, a congada, como uma prática social constituída por uma rede de símbolos que envolve modos de vida, saberes diversos de homens, mulheres e crianças, memórias, histórias de vida, de resistência e de fé, é também uma maneira de estar no mundo, pois, a partir dela, podemos compreender a história de pessoas e grupos envolvidos nessa manifestação.

Por isso, buscando trazer para esta reflexão os processos históricos pelos quais passam as práticas sociais, não podemos negar que:

a cultura se diversifica e se determina pela forma particular de vida de um grupo humano, no qual se reconstitui a forma do homem – sua forma histórica. Se o respectivo grupo humano deve ser o sujeito de seu próprio processo histórico-cultural então a ele cabe o risco e a responsabilidade de auto-configurar sua forma particular de vida. Isto quer dizer que o homem desta cultura tem o direito de autovalorizar-se, segundo seus próprios valores. O sentido do processo de constituição do homem pela cultura contém, pois, uma exigência de autonomia. Cultura sem autonomia é anti-cultura porque como vimos em tal hipótese, a objetivação da subjetividade, ao invés de libertar o sujeito, o coisifica como objeto de dominação (FIORI, 1986, p. 08).

A diversidade cultural é gerada pelas particularidades existentes em cada grupo de pessoas, por suas histórias, modos de viver, de se relacionar e pela autonomia descrita por Fiori (1986). Para isso, é preciso “pôr sentido no mundo e em si mesmo” (SILVA, 2003b, p. 192). Para contribuir com esse entendimento da autonomia, é importante dizer: “para edificar a nós mesmos (a pessoa, os parentes, a ‘raça’, a comunidade) é preciso aprender a usar as estruturas cognitivas da cultura do seu povo, de sua comunidade, da sua ‘raça’ no dizer de brasileiros, para interpretar o ouvido, o visto e o vivido” (SILVA, 2003b, p. 192).

A autora nos aponta, a partir da perspectiva de afrodescendentes e africanos, dimensões do educar-se em contato com nossa cultura, nossa comunidade, nossas crenças, pondo sentido em nossa vida.

Assim, não é possível, muito menos viável ou aceitável, objetivar a subjetividade desses grupos e sujeitos se queremos de fato compreender e respeitar a congada como maneira de estar no mundo, aprendendo, ensinando e se relacionando. Ir ao encontro da coerência, então, é fato árduo e extremamente necessário para nós estudiosas(os) que, sob a lente acadêmica e sob conceitos forjados à luz de conhecimentos científicos, nos colocamos a querer compreender e estudar as

práticas sociais e os processos educativos disso decorrentes em grupos e comunidades.

Tratar a cultura popular como algo romântico, inferior, distante, puro, folclórico faz com que nos distanciemos fatalmente dos caminhos que são necessários percorrer para que compreendamos – ou pelo menos nos aproximemos disso – esse emaranhado que forma as culturas.

Ao classificar e analisar conforme nossa visão de mundo, podemos cair no grave erro de querer objetivar a subjetividade de homens e mulheres que vivem a congada em seu cotidiano.

Uma das características da contemporaneidade é a coexistência de períodos históricos presentes nessa latinidade, nessa brasilidade, nessa mineirice. Se, às vezes, os fatos passados são revisitados, é para esclarecimentos, para compreensão mais densa do contexto contemporâneo, sem privilegiar apenas a perspectiva histórica, de fatos encarrilhados sequencialmente. O importante é a visão panorâmica de simultaneidade, a coexistência de diferentes tempos históricos, as diversas maneiras de interação cultural (MEIRA, 2007, p. 61).

Ser congadeira e congadeiro é ser e estar no mundo dessa maneira, por isso, querer objetivar, tornar óbvio, palpável, mensurável, classificável é coisificar e tornar nossos colaboradores e colaboradoras sujeitos de dominação, quando o que buscamos aqui é justamente o contrário.

Por isso, de acordo com Fiori (1986), entendemos que homens e mulheres são sujeitos em formação e de transformação constante. Desse modo, consideramos que, na vivência e na convivência em sociedade e em grupos culturalmente constituídos por uma rede de símbolos, como na congada, as histórias de vida dos sujeitos se imbricam com a história dessa manifestação. Trata- se de uma multiplicidade de acontecimentos lineares ou contraditórios que, juntamente, formam congadeiros e congadeiras e a história da congada na cidade de Uberlândia. Por meio da congada, esses homens e mulheres constroem o sentido da vida.

As práticas sociais nos encaminham para a criação de nossas identidades. Estão presentes em toda a história da humanidade, inseridas em culturas e se concretizam em relações que estruturam as organizações das sociedades. Permitem, elas, que os indivíduos, a coletividade a construam. Delas, participam, por escolha ou não, pessoas de diferentes gêneros, crenças, culturas, raças/etnias, necessidades especiais, escolaridades, classes sociais, faixas etárias e orientações sexuais (OLIVEIRA et al., 2009, p. 06).

Os grupos de congada de Uberlândia são múltiplos e diversos, cada um com suas características próprias, suas músicas, seus passos de dança, instrumentos musicais, diferentes

maneiras de ensinar e aprender, diferentes maneiras de contar a história da congada na cidade. Cada um é um em sua individualidade, mas, a partir desta, compõe-se o todo.

Durante os festejos da congada, podemos observar quando há o encontro de dois ou mais ternos. Eles se cumprimentam, cantam, pedem a benção, desafiam-se e, ao mesmo tempo, fortalecem os laços de amizade e de reconhecimento de uns com os outros.

Essa história não vem totalmente só do congo Marinheiro de São Benedito, esta história vem dos meus bisavós, lá na frente, que eles também tinham congado. Essa tradição vem confraternizando a hierarquia, como meus pais, minha mãe participava, o pai dela era dono de um congo, dono de congado lá em Patrocínio, então, veio dela, veio da minha mãe essa