Na abordagem individual ou intrapessoal incluem-se uma série de modelos que apresentam como denominador comum o ênfase dado às variáveis e processos pessoais na explicação do burnout. O trabalho de Freudenberger (1974) marca o início desta tradição de estudo do burnout, muito embora não se constitua como um modelo explicativo coerente mas antes como uma série de princípios relativamente dispersos, ilustrados pela descrição de casos acompanhados no exercício clínico da psiquiatria. O seu ponto de vista intrapessoal é bem patente na caracterização do perfil típico do indivíduo que entra em burnout, dominado por uma auto- imagem idealizada, por expectativas e ambições pessoais demasiado elevadas e por um envolvimento e dedicação desajustados: considera-se super competente, dinâmico, inesgotável e tenta agir activamente como tal, mesmo quando os resultados esperados não são alcançados, num processo de progressivo desgaste de energia e de recursos emocionais.
Na sequência dos trabalhos de Freudeberger (1974), Edlwich e Brodsky (1980)
foram pioneiros na formulação de um modelo processual do burnout, o qual apresentamos de seguida de forma a caracterizar a abordagem individual de estudo do burnout.
De acordo com a proposta destes autores, o burnout é entendido como um processo
dinâmico de desilusão progressiva, resultante do desajustamento entre as expectativas iniciais dos
profissionais de ajuda e a realidade nua e crua das suas vidas profissionais:
"… Burn-out é um terapeuta de problemas de toxicodependência a trabalhar em excesso e mal remunerado … que bebe no trabalho até ter de se demitir por causa do seu problema de alcoolismo. Burn-out são os professores do secundário no intervalo das aulas a falar com desprezo e malevolência sobre os seus alunos … Podemos usar o termo ´burn-out` para designar uma perda gradual de idealismo, energia e objectivo experienciada pelos profissionais de ajuda como resultado de … diversas fontes de frustração …" (Edlwich & Brodsky, 1980, p. 14-15).
As sementes do burnout estão, no entender de Edlwich e Brodsky (1980, p. 16), na convicção tida por muitos profissionais de ajuda de que o mundo profissional real se harmoniza com os seus nobres, e por vezes desmedidos, sonhos e aspirações de ajuda. Quanto às fontes de frustração próprias do contexto profissional, os autores destacam factores como: a ausência de critérios de eficácia profissional; as baixas condições remuneratórias independentemente do nível educacional, de competência ou de responsabilidade assumida; as perspectivas de progressão na carreira que pela via administrativa distanciam o profissional da prática de ajuda no terreno; o sexismo dominante nesta área profissional; entre outros. Edlwich e Brodsky (1980, p. 25-27) sugerem ainda que o burnout não afecta apenas indivíduos isolados mas que se contagia, como se de uma doença infecciosa se tratasse, através de um processo de socialização, dos clientes ao pessoal, de um membro do pessoal aos outros membros, e destes aos clientes novamente.
O processo de burnout descrito por Edlwich e Brodsky (1980) compreende quatro
fases de desilusão gradual, em que predominam vivências afectivas:
. entusiasmo inicial: período marcado pela ingenuidade relativamente à realidade
profissional e pelas elevadas expectativas, esperanças e energias dedicadas ao trabalho, "porque o trabalho promete ser tudo o que se quiser" (Edlwich & Brodsky, 1980, p. 28);
. estagnação: a apreensão da realidade profissional leva a um ajustamento das
expectativas e envolvimento iniciais – o profissional continua a fazer o seu trabalho mas começa a valorizar a satisfação de necessidades pessoais como "algum dinheiro para gastar, um carro, alguns amigos, um (a) amante, uma família, uma casa" (Edlwich & Brodsky, 1980, p. 28);
. frustração: como nem as expectativas idealizadas nem as necessidades pessoais
são satisfeitas, nesta fase a pessoa questiona não só a sua eficácia profissional como também o próprio valor do trabalho e começa a manifestar sintomas de disfunção diversos, físicos, emocionais e comportamentais;
. apatia: a apatia ou distância física e mental desenvolve-se como um mecanismo
de defesa natural contra a frustração crónica, e envolve manifestações como cinismo, negativismo, absentismo, isolamento social, entre outras.
Como salientam os autores, a progressão do profissional ao longo destas fases não é linear mas sim cíclica, isto é, pode repetir-se variadíssimas vezes em diferentes trabalhos ou até no mesmo trabalho (Edlwich & Brodsky, 1980).
Os restantes modelos incluídos na abordagem individual e que a seguir se referem, baseiam-se em sólidas perspectivas e teorias da psicologia: é o caso do modelo de Meier (1983) que conceptualiza o burnout, de acordo com a tradição comportamentalcognitivista da aprendizagem, como resultado de expectativas individuais desajustadas face à realidade profissional; ou do modelo desenvolvido por Garden (1987, 1989 e 1991), com base na teoria psicodinâmica de Jung, e que atribui o burnout a um desequilíbrio entre o funcionamento psíquico consciente e inconsciente; ou ainda do modelo proposto por Pines (1993), com claras marcas da psicologia existencialista, em que o burnout decorre do insucesso na procura de sentido existencial no trabalho.
Meier (1983) considera que o burnout é resultado de um desajustamento entre as
expectativas de reforço, de resultado e de eficácia pessoal, construídas pelo indivíduo e a situação de trabalho real: quando as expectativas de reforço associadas ao trabalho desenvolvido não são satisfeitas, é provável que a pessoa entre em burnout; por seu lado, as expectativas quanto ao resultado do comportamento adoptado no trabalho uma vez frustradas podem conduzir a sentimentos de learned helplessness, semelhantes ao burnout; finalmente, o desajustamento das expectativas de eficácia pessoal pode gerar sentimentos de perda de realização pessoal no trabalho, os quais constituem um dos componentes fundamentais do síndroma de burnout. Desta forma, o burnout é definido como um estado em que os indivíduos "… esperam pouca recompensa e considerável punição do trabalho dada a falta de reforços válidos, de resultados controláveis ou de um sentido de competência pessoal …" (Meier, 1983, p. 899).
Quanto ao modelo de Garden (1991), o seu pressuposto base é o de que em cada pessoa coexistem dois tipos opostos de personalidade - o tipo "sentimento" (feeling type) orientado
pela sensibilidade e preocupação com os outros, e o tipo "pensamento" (thinking type) orientado para a realização e sucesso pessoais - e que o burnout ocorre quando há um ajustamento entre o tipo de personalidade do individuo e as características do seu trabalho e não na situação inversa como habitualmente é defendido – "… o resultado mais intrigante e contra-intuitivo refere-se ao facto de o desgaste de energia apresentar uma associação mais forte com as formas de exigência com que cada tipo é naturalmente capaz de lidar …" (Garden, 1989, p. 231). A explicação dada por Garden (1991) é a de que quando nos apoiamos excessivamente nas nossas funções conscientes, por exigência da nossa actividade profissional, se gera um desequilíbrio psíquico, o qual é compensado, por auto- regulação, pelo aumento das funções inconscientes opostas, processo este que consome a nossa energia psíquica e nos conduz ao burnout (Garden, 1991).
Finalmente, Pines (1993; 1994) considera que o burnout surge em indivíduos que esperam satisfazer no trabalho a sua busca existencial de significado e que, desta forma, se revelam muito motivados e empenhados - "… in order to burn out, one has first to be ´on fire`…" (Pines, 1993, p. 41). Num contexto profissional de prolongada exposição ao stress, em que os objectivos e expectativas existenciais não são satisfeitos, gera-se um processo gradual de desilusão, cujo resultado final é então o burnout, caracterizado por exaustão física, emocional e mental.
A principal limitação dos modelos apresentados decorre da inspiração essencialmente clínica que adoptam no estudo do fenómeno, posto que os estudos de caso em que a maioria se baseia – como o modelo de Edlwich e Brodsky (1980) - não constituem prova empírica das tentativas de explicação do burnout propostas. Efectivamente, entre os modelos enunciados só se encontram preocupações empíricas nas propostas de Garden (1987 e 1989) e sobretudo no modelo de Pines (1993), o qual conduziu ao desenvolvimento do BM - Burnout Measure. Embora seja a segunda medida de burnout mais utilizada e apresente bons índices de precisão e de validade de constructo (Schaufeli et al 1993a), os estudos sobre a validade factorial do BM têm no entanto posto em causa a definição de burnout proposta pelos autores como um conceito tridimensional de exaustão física, emocional e mental - "… parecem existir três dimensões diferentes … que não coincidem com as que são incluidas na definição de burnout pelos autores do teste…" (Schaufeli & Enzmann, 1998, p. 49-50).
Em síntese, os diversos modelos individuais apresentados sublinham a importância
de factores pessoais como as motivações e expectativas desajustadas do indivíduo que o conduzem a vivências de stress e a falta ou inadequação dos seus recursos de
coping, na etiologia do burnout.