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nele; é um conjunto de causas, não um conjunto de sintomas …” (Symonds, 1947, citado por Bartlett 1998, p. 5) - geradores de tensão, e na concepção de que é esta reacção de tensão que, por sua vez, conduz a alterações no estatuto de saúde-doença dos indivíduos. Neste caso, o stress é perspectivado como uma característica do ambiente, exterior ao indivíduo – que o poderá levar a fazer referência ao stress da vida na cidade ou da sua actividade profissional, por exemplo.

Uma importante linha de investigação que se insere nesta abordagem foi lançada por Holmes e Rahe (1967) e procura identificar grandes acontecimentos de vida (life events) que funcionam como estímulos stressores, de natureza psicossocial, exigindo um esforço de reajustamento por parte do indivíduo. A morte do cônjuge, ter uma doença ou ferimentos, ser despedido do emprego, o nascimento de um filho, mudar de casa, e a época de natal, são alguns exemplos de acontecimentos ou mudanças de vida que têm vindo a ser investigados, designadamente na sua relação com a saúde-doença (Johnston et al, 1995; Lopes da Silva, 1992a).

Diversos autores, entre os quais Lazarus e colaboradores (Kanner, Coyne, Schaefer & Lazarus, 1981) vieram, no entanto, chamar a atenção para duas limitações fundamentais desta abordagem, designadamente: as modestas correlações encontradas entre as medidas de mudanças de vida e as medidas de mudança nas condições de saúde; e a falta de compreensão sobre os processos intervenientes entre os dois tipos de variáveis. De acordo com estes autores, a acumulação de formas menores de stress, os chamados aborrecimentos diários (hassless), ou microstressores, poderá exercer igualmente uma influência negativa na saúde dos indivíduos (Lazarus & Folkman, 1984).

“… Hassles são as exigências irritantes, frustrantes e penosas que em algum grau caracterizam as transações quotidianas com o meio ambiente. Incluem problemas práticos aborrecedores como perder objectos ou os engarrafamentos de trânsito, e ocorrências fortuitas como o mau tempo, bem como discussões, desapontamentos, e preocupações financeiras e familiares …” (Kanner et al, 1981, p. 3).

Esta distinção entre grandes acontecimentos de vida e formas menores de stress vividas no quotidiano permite-nos fazer o paralelismo com uma outra distinção muitas vezes utilizada entre stress agudo e stress crónico. Como salientam Bruchon-Schweitzer e colaboradores (1997), a revisão de literatura realizada por Beehr e Bhagat, mostra que o stress profissional é mais frequentemente estudado em situações agudas uma vez que se debruça sobre organizações sujeitas a transformações profundas; no entanto os "… disfuncionamentos latentes e duradoiros que afectam o bem-estar dos trabalhadores … são bem frequentemente melhores preditores dos problemas de saúde do que os acontecimentos de vida maiores mas transitórios…" (Bruchon-Schweitzer et al, 1997, p. 66)

Efectivamente, e apesar das diversas críticas formuladas à abordagem dos microstressores (Bartlett, 1998), a maioria dos estudos empíricos realizados tem mostrado que as formas menores de stress são melhores preditoras da saúde-doença física e psicológica do que os grandes acontecimentos de vida (Bartlett, 1998).

O stress profissional crónico e em particular os aborrecimentos diários da vida profissional têm também sido invocados como causa fundamental do burnout. De facto e se lembrarmos a definição proposta por Etzion (1987, citada por Schaufeli & Enzmann, 1998, p. 35) verificamos que as formas menores de stress resultantes do desajustamento entre características pessoais e ambientais são consideradas como um elemento essencial à compreensão do burnout. O burnout é conceptualizado pela autora como um processo lento e gradual de desgaste psicológico que ocorre de forma silenciosa durante um longo período de tempo, uma vez que os aborrecimentos diários não são geralmente encarados como uma ameaça pelo individuo e, desta forma também não suscitam a utilização de estratégias de coping. A experiência devastadora de burnout surge de forma inesperada e sem relação aparente com qualquer acontecimento específico gerador de stress (Etzion, 1987 citada por Schaufeli & Enzmann, 1998). Também Maslach (1982) considera que o burnout, mais do que uma reacção a crises agudas ocasionais, é uma resposta ao stress crónico diário.

Outra linha de investigação sobre stress baseada nas características dos estímulos ambientais foi desenvolvida no contexto profissional e considera que existe uma relação clara entre os níveis de stress e de desempenho (Packard & Manning, 1986). Essa relação pode ser representada por uma função em forma de U invertido: existe um nível óptimo de stress sob o qual o desempenho profissional atinge níveis máximos de eficiência; abaixo e acima desse nível, pelo contrário, os desempenhos tendem a decrescer (Bartlett, 1998; Kalimo & Mejman, 1987). Nesta perspectiva, a curva ascendente corresponderia ao aborrecimento (boredom) (Kalimo & Mejman, 1987) enquanto que o burnout se situaria na curva descendente - de facto, uma das ideias a reunir consenso entre os autores no campo de estudo do burnout é a de que este constitui uma resposta ao stress profissional excessivo que se caracteriza por um decréscimo no rendimento profissional (Maslach & Schaufeli, 1993; Gil-Monte & Peiró, 1997).

Embora actualmente as perspectivas sobre o burnout raramente se baseiem exclusivamente nas condições de estimulo geradoras de stress que funcionam como antecedentes do burnout, diversos estudos têm efectivamente mostrado que os determinantes de natureza profissional designadamente a sobrecarga de trabalho e as pressões de tempo, constituem os melhores preditores deste fenómeno (Schaufeli & Enzamnn, 1998).

3. Uma referência fundamental tanto no que respeita ao estudo do stress como no que concerne a compreensão do fenómeno do burnout é o paradigma de stress e coping, desenvolvido por Lazarus e colaboradores (Lazarus & Folkman, 1984).

Estes autores situam-se num quadro transacional e conceptualizam o stress como um processo dinâmico resultante da relação bidireccional e recíproca entre a pessoa e o meio ambiente. Mais concretamente, consideram que um acontecimento só é stressante se for percebido e interpretado como tal pelo sujeito. Este processo de avaliação cognitiva (cognitive appraisal), que intervem entre a transação da pessoa com o meio e a sua reacção, compreende uma avaliação dos acontecimentos exteriores em termos do significado, relevância e implicações que têm para si (avaliação primária) e uma avaliação da sua própria capacidade para lidar com a situação (avaliação secundária). Desta forma, a resposta de stress só ocorre perante acontecimentos que a pessoa avalia como relevantes e negativos (porque constituem um dano ou perda, uma ameaça ou um desafio), isto é stressantes, e com os quais se considera incapaz de lidar plenamente. De acordo com a perspectiva transacional adoptada, estes dois processos são tidos como interdependentes, conduzindo a reavaliações (reappraisal) sucessivas (Lazarus & Folkman, 1984).

Uma vez que a avaliação de um acontecimento como stressante depende de uma avaliação igualmente negativa dos recursos pessoais em termos de coping, o processo de coping constitui um segundo elemento fundamental na conceptualização desenvolvida por Lazarus e Folkman (1984). O coping define-se pelos "… esforços cognitivos e comportamentais em constante mudança [desenvolvidos] para lidar com exigências externas e/ou internas específicas que são avaliadas como … excedendo os recursos da pessoa …” (Lazarus & Folkman, 1984, p. 141). Dada a natureza transacional do modelo, o processo de coping é tido como interdependente do processo de avaliação cognitiva: a forma como a pessoa lida com a situação decorre da avaliação das exigências que esta lhe coloca e por sua vez condiciona as reavaliações subsequentes. O processo de coping envolve estratégias orientadas para a resolução do problema (problem-focused coping) e estratégias que permitem ao sujeito lidar com as emoções resultantes da experiência de stress (emotion-focused coping) (Lazarus & Folkman, 1984).

Lazarus e colaboradores (Lazarus & Folkman, 1984) introduzem ainda o conceito de vulnerabilidade ao stress, como o risco que o indivíduo corre de experienciar stress, o qual é determinado pela intervenção de um conjunto de recursos pessoais (por exemplo, as suas crenças e valores, ou as suas competências de coping, sociais e de resolução de problemas) e ambientais (designadamente as características sócio-económicas e sociais do meio em que está inserido). Na lógica transacional do modelo de stress e coping (Lazarus & Folkman, 1984), a própria vivência de grandes acontecimentos de vida ou de aborrecimentos diários centrais (isto é, relevantes para a pessoa de acordo com factores como a sua agenda pessoal ou outros (Bartlett, 1998) é também tida como contribuindo de forma fundamental para a vulnerabilidade do indivíduo ao stress.

Das críticas habitualmente formuladas ao modelo de stress e coping, e que não cabe aqui analizar, gostariamos de salientar o facto de não especificar a relação entre o stress e a saúde- doença, ou mais concretamente os mecanismos através dos quais o stress afecta a saúde-doença. Lazarus e colaboradores (Kanner et al, 1981) limitam-se a sugerir que o síndroma geral de adpatação proposto por Selye (1956) ou os processos afectivo-emocionais podem mediar a relação entre os processo psicológicos de avaliação / coping e os seus resultados em termos da saúde- doença do individuo.

Tomando como referência a perspectiva de stress e coping (Lazarus & Folkman, 1984), Cox e colaboradores (1993) desenvolveram o Modelo Transacional do Stress Profissional, o qual já nos permite explorar as relações entre os conceitos de stress e de saúde-doença e o

burnout. De facto, estes autores consideram que a conceptualização do fenómeno de burnout apela

para uma exploração das suas relações com as noções de stress profissional e saúde (Cox et al, 1993). Neste sentido, e embora enunciem uma série de argumentos relativamente à centralidade da dimensão de exaustão emocional, adoptam a definição tridimensional de burnout de Maslach e Jackson (1986). Utilizando como quadro integrador o modelo transacional de stress profissional e saúde desenvolvido por Cox, Cox e colaboradores (1993) chamam a atenção para o paralelismo existente entre a dimensão de exaustão emocional e o conceito de “… saúde (ou bem-estar) sub- óptima …” (Cox et al, 1993, p. 182) e para a relação repetidamente encontrada entre burnout e saúde sub-óptima e stress profissional.

Apesar de referirem estudos contraditórios sugerindo que o stress profissional tanto pode ser um factor determinante dos sentimentos de burnout / saúde sub-óptima como uma consequência destes, os autores defendem a primeira das duas cadeias de causalidade: “… a experiência de stress contribui para a etiologia do burnout…” (Cox et al, 1993, p. 185).

Desta forma, e tomando as três dimensões do burnout (ver figura nº 2.1), consideram a exaustão emocional e a despersonalização como respostas a estímulos profissionais geradores de stress: a primeira, de carácter geral e incluindo elementos emocionais e relativos ao bem-estar, daria origem à segunda, a qual já constituiria uma tentativa de coping; os sentimentos de falta de realização profissional, por seu lado, corresponderiam a uma avaliação do resultado (appraisal

outcome).

Concluindo quanto à aparente sobreposição dos dois conceitos, os autores encaram o burnout como um tipo particular de stress profissional, próprio das profissões de ajuda: “… uma fatia especial do processo de stress que constitui uma ocorrência relativamente comum nos profissionais de ajuda … uma mistura de avaliação do resultado, de um aspecto do bem-estar, e de uma estratégia de coping, … fortemente unida para este grupo de trabalhadores…” (Cox et al, 1993, p. 188).

Figura nº 2.1

Modelo transacional do stress profissional de Cox et al (1993)

Também Gil-Monte e Peiró (1997) propõem a integração do burnout num modelo transacional do stress profissional. À luz deste modelo o burnout é entendido como uma resposta ao stress profissional e à inoperância de estratégias de coping mais funcionais – “…se o sujeito não pode lidar eficazmente com os stressores…” (Gil-Monte & Peiró, 1997, p. 19) (Ver figura nº 2.2).

Antecedentes situacionais do stress: exigências, recursos e apoio Antecedentes individuais do stress Avaliação Cognitiva e Experiência Emocional de Stress Respostas ao stress Tentativas de coping Bem-estar geral

Figura nº 2.2

Modelo integrador do síndroma de burnout no processo de stress profissional, de Gil-Monte e Peiró (1997)

Resposta ao stress

Como podemos observar na figura, as tentativas de coping são entendidas como variáveis mediadoras entre o stress profissional percebido e o burnout. As estratégias de coping geradas durante a transação stressante sofrem o impacto do stress e transmitem os efeitos da exposição ao stress a nível dos resultados em termos de burnout.

O burnout, por sua vez, é tido como variável mediadora entre o stress profissional percebido e as suas consequências a longo prazo, expressas a nível individual num decréscimo de saúde / doença e a nível organizacional nas quebras de rendimento, absentismo, etc.

No entanto, o desenvolvimento do próprio síndroma de burnout é conceptualizado de forma relativamente distinta da preconizada por Maslach (1993 e 1999) e adoptada por Cox e colaboradores (1993): o sujeito começa por experimentar sentimentos de baixa realização

Discrepancias Exigências / Recursos (stressores) Stress percebido Estratégias de Coping Síndroma de Burnout Baixa realização pessoal Exaustão emocional Despersonaliz. Consequências do stress (individuais e organizacion.)

profissional e de exaustão emocional, os quais quando se tornarem persistentes poderão conduzir posteriormente à adopção de atitudes de despersonalização como estratégia de coping.

Uma nota para chamar a atenção, uma vez mais, para o facto destes modelos se centrarem nos mecanismos psicológicos envolvidos nas experiências subjectivas de stress e nas tentativas desenvolvidas pelo sujeito para lidar com essas vivências, ficando por conceptualizar a génese e construção social e cultural das formas de compreensão individuais relativamente a esses fenómenos.

Em suma, diríamos que existe uma relação "plástica" entre as concepções de stress e de burnout a qual depende em grande medida da maior ou menor abrangência com que o conceito de stress é definido: nas perspectivas mais latas, em que o stress é encarado do ponto de vista dos estímulos, das respostas, e da sua relação dinâmica, dos mecanismos de coping e dos resultados em termos de saúde, o burnout profissional parece reduzido a um caso particular do conceito de stress; nas perspectivas mais precisas sobre o stress em que este é distinguido de outros conceitos como os de coping e saúde, o burnout é conceptualizado como uma resposta complexa ao stress crónico ou prolongado, envolvendo sintomas disfóricos, atitudes e comportamentos disfuncionais (coping), e que ou (a) medeia entre o stress e as suas consequências designadamente a nível da saúde dos indivíduos, ou (b) apresenta já contornos patológicos e, desta forma, se aproxima do conceito de doença.

Neste contexto gostaríamos de lembrar as principais críticas do "movimento anti- stress", as quais se fundamentam essencialmente na confusão que existe em torno da definição de stress e na excessiva abrangência da sua aplicação a uma diversidade de fenómenos (Bartlett, 1998).

Critérios de distinção dos conceitos de stress e