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Segundo Paulo Freire346, este não é um tema neutro, o posicionamento pós-moderno em sua fase radical exige uma abertura progressista para reflexões em torno do ser humano na condição de ser histórico, vivenciando a tensão de sendo para poder ser, conhecendo suas limitações, mas tendo convicção de sua vocação, de seu chamado para aprender e ensinar. O homem em toda sua história socialmente produzida é um ser educável, são de sua natureza as práticas educativas não só no contexto escolar, mas em toda atividade vivenciada o grande equívoco que ocorre nas cidades é limitar as possibilidades e minimizar a plena educação, negando a cidadania, quando aceita a negligência do Estado que deixa de cumprir seu dever de oferecer uma educação de qualidade.

Nesta busca, Edgar Morin347 reafirma que a Educação do futuro terá que lidar com as incertezas, considerando o contexto global, a complexidade do ser humano e da sociedade, é uma reforma não programática, mas paradigmática, os educadores são desafiados a organizar o conhecimento a partir da reforma do pensamento, centrado na condição humana, em uma comunidade de destino, que enfrenta as incertezas, que busca compreender e respeitar o outro. Perrenoud concebe uma dinâmica que traduz sua preocupação com os sistemas educacionais, mas não deixa de enfatizar a relevância da educação para a cidadania; nesta perspectiva, outro tema proposto para a Educação do futuro é a solidariedade e as

345

CURTY, Ana Luisa. Administração em organizações de produto social: articulações possíveis. In: ÁVILA, Célia M. (Coord.). Gestão social. São Paulo: AAPCS, 2001. p. 22.

346

Cf. FREIRE, Paulo. Política e educação: ensaios. São Paulo: Cortez, 2001. v. 23. 347

Cf. MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução de Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

competências para ajudar a tornar o mundo mais solidário. O autor concebe uma dinâmica que traduz sua preocupação com os sistemas educacionais, mas não deixa de enfatizar a relevância da educação para a cidadania. Em seu livro Escola e Cidadania ele ressalta que a solidariedade é um componente da cidadania, e deve ser erigida como valor e princípio ético. Nesta perspectiva:

Aquele que não se sente tocado pelo que acontece com os outros não tem nenhum motivo para desenvolver seus saberes e sua competência cívica; vale mais a pena preparar-se para sobreviver na selva. Não existe comunidade democrática sem um mínimo de solidariedade, que ela nasça de um simples cálculo, quer ela repouse sobre valores humanos. O contrato social é, antes de tudo, um contrato: um arranjo satisfatório para as diversas partes, cada uma se preocupando legitimamente com seus próprios interesses, mas com visão e senso estratégico bastante amplos para compreender a reciprocidade, a médio prazo, é uma vantagem, ainda que imponha obrigações.348

Outra tendência para a Educação do futuro é a Educação para uma vida sustentável, este tema tem sido objeto de discussões de outros autores, mas Moacir Gadoti apresenta considerações para nosso estudo quando aponta que:

Diante do possível extermínio do planeta, surgem alternativas numa cultura de paz e uma cultura de sustentabilidade. Sustentabilidade não tem a ver apenas com a biologia, a economia e a ecologia. Sustentabilidade tem a ver com a relação que mantemos conosco mesmos, com os outros e com a natureza.349

A Educação Permanente e as cidades Educativas como temas de uma Educação para o futuro evocam para si uma significação muito mais abrangente do que se imagina, pois expressa a gama de contextos e atividades que envolvem mais do que cidades, a própria vida das pessoas nas suas diversidades e subjetividade. Não é, portanto, uma proposta simples, porque envolve concepções, posicionamentos e a capacidade de envolvimento em projetos coletivos.

O reconhecimento da Cidade Educativa se faz não apenas por uma necessidade universal, mas como ela valoriza seu povo, sua cultura, sua história, como ela se educa. Como se articula a política educativa e o direito à democracia, onde diferenças são respeitadas. Freire atesta que:

É importante afirmar que não basta reconhecer que a cidade é educativa, independentemente de nosso querer ou nosso desejo. A Cidade se faz educativa pela necessidade de educar, de aprender, de ensinar, de conhecer, de criar, de sonhar, de

348

PERRENOUD, Philippe. Escola e cidadania: o papel da escola na formação para a democracia. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2005.

349

GADOTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008. v. 2, p. 77.

imaginar de que todos nós, mulheres e homens, impregnaram seus campos, suas montanhas, seus vales, seus rios, impregnamos suas ruas, suas praças, sua fontes, suas casas, seus edifícios, deixando em tudo o selo de certo tempo, o estilo, o gosto de certa época. A Cidade é cultura, criação, não só pelo que fazemos nela e com ela, mas também é cultura pela própria mirada estética ou de espanto, gratuita, que lhe damos. A Cidade somos nós e nós somos a Cidade.350

O cenário da cultura planetária aponta para outro tema, para os quais alguns autores demonstram que é necessária atenção redobrada para que outra exclusão não ocorra. Apresentar as chances de uma educação solidária, inclusiva e para todos, é tarefa social questionável dentro do panorama das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação). As mutações ocorridas nos últimos séculos, as mudanças que sucederam a inversão entre o rural e o urbano como “nicho vital” da espécie humana, para Hugo Assmann, demonstram como a luta por empregabilidade se tornou ferrenha e a necessidade urgente por uma sociedade aprendente e solidária.351

Alguns aspectos da era das redes de comunicação interferem de forma decisiva quando constatamos a irreversibilidade da revolução tecnológica e as lógicas da exclusão. O avanço das tecnologias de informação e comunicação produziu a Sociedade da Informação, na qual nem todos estão inseridos, ou incluídos. Estes se tornaram a “massa sobrante”. Quando se observa a preocupação da União Europeia sobre as políticas públicas para enfrentamento das novas tendências de exclusão, vemos o surgimento de um fenômeno complexo ao qual se referem alguns nomes: sociedade da informação, sociedade do conhecimento e sociedade aprendente, cujo enfoque está na proposta sócio pedagógica.

O termo que ora nos chama à atenção é o de sociedade aprendente, o qual pretende trazer a ideia de uma sociedade cuja educação é de uma sinergia em redes cognitivas. Concordamos com Assmann quando este questiona se a proposta para uma sociedade aprendente abarca toda a problemática das políticas públicas e o contexto socioeconômico para superação da exclusão, em seus níveis educacionais e de empregabilidade, como também o que realmente motiva estas ações, como, por exemplo, a lógica do mercado, que não deseja perder sua proeminência, para satisfazer as prioridades sociais.

Se Freire propõe uma democratização a qual os diferentes, dessemelhantes podem ter seus direitos garantidos e respeitados, Assmann teme que exista a fragilização desta solidariedade tão desejada quando pergunta:

350

FREIRE, Paulo. Política e educação: ensaios. São Paulo: Cortez, 2001. v. 23, p. 25. 351

Cf. ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. Rio de Janeiro: Vozes, 1998. p. 17.

Até que ponto é possível apostar positivamente no potencial socializante, solidário e possibilitador de democraticidade participativa que se quer atribuir às TIC? [...] não nos esqueçamos, as reservas de solidariedade acumuladas pela espécie humana ao longo da evolução são extremamente frágeis. Na verdade, ela acumulou também – talvez até geneticamente – predisposições antissolidárias.352

Algumas características promissoras como a hipertextualidade, a conectividade e a transversalidade podem ser exploradas pela atividade socioeducativa, de forma que a prática pedagógica deva estar ligada a todo projeto que venha a existir, lembrando que é preciso conquistar mentes e corações.

Poderíamos responder a este “temor” de Assmann com as palavras de Freire, quando este afirma que o progresso científico e tecnológico que não satisfaz os interesses humanos, as necessidades de nossa existência, perde o valor, o sentido.353

Cury, a expressar seu olhar sobre projetos sociais como processo de articulação e cooperação, relata que:

As organizações sociais são, por sua natureza, diferentes das organizações governamentais. Atores da sociedade civil, seus interesses são sociais, não institucionais. Além disso, são atores que, situados dentro da sociedade civil, constituem somente uma parte dela. Seus interesses não se confundem com interesses do mercado. Primeiro setor, segundo setor, terceiro setor se fundamentam em lógicas diferentes. O Estado fundamenta-se na lógica do poder; o mercado, na lógica do lucro; e o terceiros setor, na lógica dos valores: justiça, solidariedade, dignidade, direitos [...].354

Não temos dúvidas da relevância destas preocupações e aspectos que envolvem as ações sociais e educativas mais amplas e abrangentes. Como educadores, entendemos o significado socioeducativo destas propostas. Porém, entendemos também que, por mais que os homens estejam engajados e inspirados pela graça comum, que os capacita a pensar e sonhar com dias melhores para a humanidade reserva-se ainda aos cristãos comissionados que confessam uma cosmovisão cristã calvinista se posicionarem na busca por soluções e ações norteadas por uma visão divina, que represente não apenas a vontade humana, mas uma transformação individual e integral dos homens.

352

ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. Rio de Janeiro: Vozes, 1998. p. 20. 353

Cf. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 130.

354

CURY, Thereza Christina H. Elaboração de projetos sociais. In: ÁVILA, Célia M. (Coord.). Gestão social. São Paulo: AAPCS, 2001. p. 53.