Susan relatou uma sexta situação (6S) de discriminação, ocorrida no ambiente de trabalho, que optamos por não incluir na íntegra, como as demais, porque as nomeações, os repertórios utilizados por ela para a descrição, próprios ao tipo de trabalho nessa empresa, inevitavelmente exporiam dados de sua identidade. Segue um relato, no qual alguns dados foram ocultados.
Refere que, nessa situação, havia negociado com seu chefe um determinado horário de trabalho a cumprir quando iniciasse atividade naquela área.
Susan: Ele ele não deixou transparecer, mas eu percebi porque eu fui discriminada muito depois, né? Porque ele [.] eu cheguei lá e contei pra ele e tal, falei pra ele que eu precisava de um * ele falou <<beleza!>> eu falei assim [.]. Ele concordou com tudo que eu falei, que eu pedi, com o horário (...). Aí ele concordou com tudo e falou assim <<olha, tá bom Susan, você pode tá vindo trabalhar (neste setor) >>.
A entrevistada conta que, diante da afirmativa dele, resolveu comunicar que tem HIV positivo por considerar importante, caso necessitasse proteger a si e a outras pessoas em alguma situação de risco durante o desempenho profissional. No entanto, ao ser transferida para o setor, ele fez outra proposta de horário e lhe falou:
Susan: <<olha, não comenta que você tem, porque não é legal, o pessoal pode não gostar de trabalhar com funcionária assim>> . (...) isso, porque de certa forma aquilo ali, eu acho que mexeu com ele e deve ter mexido, porque se da primeira vez que eu fui lá ele me falou que sim que podia, e depois que eu contei pra ele do meu diagnóstico ele voltou atrás, pensou melhor, ele falou assim, mas pô uma menina problemática aqui, né? Pra ele talvez seja isso, não sei, pra mim não é não é problemático [.] né? Mas eu contei pra ele pra ele saber que ele tinha um funcionário (que eu achava que era certo pra ele) pra ele saber (...) se caso ele precisasse. (...) Então, quer dizer, ele tava dizendo do quê? Do meu diagnóstico. Não era nada mais, nada menos que isso, porque se, então, <<você vai fazer o seguinte, cê
alguém falar, chegar lá (...) e falar assim, aquela menina lá, tal, e acontece isso e isso e isso [.] Alguém podia fazer isso (...) Ééé dizer pra ele assim, <<nossa, você tá com uma menina aqui assim assim e assim e não diz nada pra gente e a gente tá convivendo com ela>>. Tem gente que não gosta de conviver com pessoas que é soropositivo, infelizmente.
Perguntamos o que fez em relação a isso. Ela diz que não aceitou e solicitou nova transferência de setor. Acrescenta que atualmente tem um chefe que é solidário, pois se preocupa com ela e explica dizendo:
Susan: (...) eu acho, que também, porque ele tem bastante problema de saúde (...) Ele é diabético e assim, tem que comer tudo regradinho, né? Tem que ter uma alimentação regrada, enfim. E ele [.] eu acho que ele me entende um pouco quando eu falo pra ele, olha eu tô tomando uma medicação um pouco forte, eu tenho que tomar no horário, eu não posso me alimentar depois do horário porque isso corrói o estômago, me dá muita dor de estômago, olha eu tenho limites pra fazer * né? Mas do outro lado ele, ele é solidário, ele foi assim, essa semana eu liguei pra ele (...) <<olha, eu quero saber, tá? Me liga pra sa/ falar sobre a sua filha, né?
Entretanto, quando lhe perguntamos se nunca se sentiu discriminada por esse chefe fica confusa, parecendo ser difícil ter certeza se as atitudes do chefe foram por discriminação ou solidariedade.
Susan: Não, não me senti até um certo ponto. Porque assim [...] eu não sei se tem interesse [....] ou seee [..] porque é assim, toda vez que ele me chama pra conversar sobre esse assunto, ele m/e me chama numa sala dele [..] e e ele é um cara que fala alto demais ((risos)), eu fico puta da vida, ele fala <<e aí?>> (...) Aí ele falou assim << é, e aí o seu problema, e aí? Já resolveu, não sei o quê?>> ((risos)) Aí o pessoal fica observando aquilo, fica de ouvido em pé, tipo assim, querendo saber que tá acontecendo, o quê que ele tá querendo falar comigo, entendeu? Porque como eu só contei pra ele e ele também fez a mesma observação que o outro chefe tinha feito, ele falou assim <<você não conta pra ninguém não, tal>> mas ele fez uma coisa que eu não gostei [.] ele ele contou pra pessoas que não era do setor, mas ele falou pra pessoas que eram superior a ele [...] Eu não sei se ele quis aparecer, ou se ele quis, né? [.] Falar assim, olha eu só bonzinho, aceito uma funcionária [.] que que tem HIV.
(...) disse pra ele foi assim, <<olha X, eu sou uma pessoa que eu tenho capacidades, eu sou inteligente, eu tenho capacidade de de [.] você pode me ensinar isso, eu vou aprender e vou fazer, coisas que você precise daqui que eu não sei fazer você me ensina que eu vou aprendendo fazer, se eu ficar aqui um ano, eu vou saber fazer todo serviço
(...) mas aí eu percebi assim, que ele não é uma pessoa que eu posso confiar 100% [.] Então, até que que outras questões por exemplo (...) não posso confiar 100% [.] né? Porque ele acha que a minha depressão é só pelo fato do HIV. A minha depressão, não é pelo fato do HIV, ela já passou um pouco, já estou (livre) né? Ela só me ela só me me volta um pouquinho quando eu lembro dessas discriminações, isso me faz mal, né? Mas tem um contexto de assim, de de depressão muito mais forte enraizado em mim, de anos até (de um contexto familiar de) né? Principalmente que desencadeou mais em 2001,
com o problema do meu pai [.] né? Mas até aí [.] ele acha que é só o problema do HIV, se eu resolver o problema do HIV da minha filha, eu vou mandar a depressão pra bem distante de mim. Eu gostaria que fosse assim, sabe? ((risos)) Vai depressão embora, e a depressão vai embora, (mas não é) ((rissos)) (...) A coisa assim, é é o que ele quis dizer com isso, pra
eu não contar, é que de repente tem alguém que possa me discriminar e e aí ele não vai saber como lidar com a situação.
Diante da forma como fala o chefe de Susan, ela se posiciona como alguém com capacidade para trabalhar, afinal era disso que deveria se tratar – se fosse considerado o princípio da não-discriminação.