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Descobrir os elementos que tornam o envelhecimento um processo multidimensional e como estes são influenciáveis e interacionais na percepção individual de idosos acerca da Qualidade de Vida (QV) é uma preocupação de diversas áreas do conhecimento, assim como do âmbito prático sociossanitário que enfrenta, ao longo dos anos, o desafio de proporcionar uma atenção integral a esta população. Para desvelar a heterogeneidade dos fatores imbricados ao envelhecimento, este estudo oportunizou avaliar a QV facetada e global de idosos segundo o instrumento WHOQOL-Old e explicá-la conforme suas condições de vida e saúde.

Os resultados trazem uma simultaneidade de componentes que se associam na determinação da QV de idosos e, que globalmente, traduzem que estes apresentam um relativo padrão de satisfatoriedade. Na amplitude de 0 a 100%, os idosos expressam um escore de mensuração da QV global equivalente a 65,69%. Na perspectiva das multifacetas que compõem o instrumento utilizado no estudo, o funcionamento sensório, avaliado como o melhor quesito (ETF=68,86%), contrasta com a participação social, identificada como a faceta de maior comprometimento (ETF=60,37%). Nesse sentido, a marginalização social do idoso que não o oportuniza cidadania e dignidade na velhice, requer uma atenção especializada que preencha os vazios dos direitos sociais e que transcenda a atenção voltada à problemática biofisiológica.

A avaliação da QV facetada na velhice revela, a partir das condições de vida e saúde e da múltipla caracterização do envelhecimento utilizadas como variáveis preditoras, que: os homens demonstram melhor percepção para todas as suas dimensões; a medida que a idade avança ocorre um importante comprometimento do funcionamento dos sentidos, da autonomia e na participação social; o convívio compartilhado com um companheiro representa melhor percepção do funcionamento sensório, atividades passadas presentes e futuras, participação social e intimidade; a ausência de um cuidador apenas não influencia positivamente na faceta morte e morrer; a realização de exercícios físicos mantêm satisfatórias a sua autonomia e a participação social; o grupo de idosos com elevado quadro de problemas de saúde ratificam a pior percepção da qualidade de vida; quanto melhor avaliado o suprimento das necessidades básicas, melhor a percepção da qualidade de vida; a renda correlaciona-se positivamente com a intimidade e de forma negativa com a morte e morrer; quanto ao nível de estresse, diante das relações lineares negativas, a QV é comprometida à medida que este eleva-se.

Com base na pluralidade de fatores que interferem na QV do idoso, infere-se que para envelhecer satisfatoriamente faz-se necessário um equilíbrio entre os limites impostos pelos anos vividos, o subsídio sócio-político-familiar e o potencial individual culturalmente construído. Para uma estabilidade entre esses elementos, considerando a vulnerabilidade deste segmento populacional ao abandono social expressa nos resultados, intervenções individuais e coletivas promotoras de cidadania despontam como uma necessidade premente. A construção de espaços que permitam a aquisição de novos conhecimentos, interrelações pessoais qualificadas, empoderamento dos direitos sociais, lazer, trabalho, participação, reflexões e trocas de experiências que estimulem a interação social, pode repercutir positivamente no protagonismo social do idoso e consequentemente em melhores índices de QV na velhice.

Na rede de atenção à saúde, a avaliação de estratificação de risco do idoso deverá sempre antecipar o diagnóstico multidimensional. A partir de então se elencam as metas terapêuticas conforme as necessidades de cuidado biopsicossociais identificadas. Para efetivar o princípio da integralidade, ações de promoção, proteção, recuperação e reabilitação da saúde devem ser executadas eficientemente pela equipe multiprofissional em todos os pontos da rede, com apoio logístico e sistema de governança subsidiando a exequibilidade das ações e serviços de saúde articulados poliarquicamente nos níveis primário, secundário e terciário de assistência à saúde.

É oportuno destacar que os escores obtidos para as facetas e o overall do WHOQOL- Old consistem em uma escala positiva e não existem pontos de corte que limitem ou determinem a QV como boa ou ruim. Mesmo sendo uma percepção subjetiva, a QV avaliada fornece achados significativos que demandam a transformação não apenas do modelo assistencial à saúde que, singularmente, prioriza o tratamento de doenças cônicas associadas ao envelhecimento, mas, sobretudo nos estereótipos sociais que afastam as potencialidades do idoso de uma participação mais ampla na sociedade. A valorização do idoso no contexto social, em pequenos centros urbanos, deve ganhar mais visibilidade e para avançar neste aspecto as oportunidades precisam ser acessíveis. Empregos remunerados e atividades voluntárias moldadas à sua capacidade e necessidade; participação cívica em conselhos comunitários; segurança em espaços públicos; programas educacionais, a exemplo das Universidades Abertas da Terceira Idade (UNATIs); urbanização com acessibilidade; e atribuição de valor ao seu papel no âmbito familiar, constituem atributos que reconstroem o protagonismo social do idoso.

A questão social do idoso quando associada à complexidade da vida desafia para a reestruturação de práticas consonantes com as diretrizes da PNSPI. Em uma visão macro, é

insuficiente implementar programas de saúde focados meramente em aspectos biológicos e fragmentados. É urgente transcender o cuidado físico, mental e hierarquizado por níveis assistenciais. A saúde envolve múltiplas dimensões e o bem-estar social é um elemento determinante, como ratificado pelos resultados deste estudo. O Estado, família e a sociedade (nesta sequência) precisam reconhecer os seus papéis na atenção dispensada ao idoso e exercê-los com legitimidade. As redes de atenção à saúde do idoso devem tornar-se operativas e com garantia de acesso e eficácia. Na visão micro, os idosos devem protagonizar suas histórias, manter suas redes de suporte, reivindicar seus direitos de cidadania, de prazer, de reconhecimento social, e, sobretudo, assumir a responsabilidade de modificar a realidade que lhes é imposta como negativa, inaugurando, enfim, um tempo que seja de viver, aproveitar, participar e refletir, onde cada dia seja uma oportunidade de dignificação da sua QV.

No âmbito da pesquisa, recomenda-se que outras contribuições teóricas que possibilitem novos olhares sobre a QV de idosos sejam propostas, inclusive com o uso de outros instrumentos de mensuração. Estudos comparativos entre idosos residentes em pequenos e grandes centros urbanos podem desvelar demandas ainda não conhecidas da QV na velhice, constituindo-se como importante sugestão. Limitações como a investigação de problemas de saúde autorreferidos devem ser superadas com a utilização de testes que assegurem o efetivo diagnóstico de quadros de morbidade; assim como a melhor avaliação da função cognitiva para a inclusão dos sujeitos no estudo, como por exemplo, por meio do uso do Mini Exame do Estado Mental (MEEM). Pesquisas de delineamento longitudinal para a avaliação de fatores preditivos da QV de idosos também devem ser operacionalizados para a maior precisão dos resultados.

No cenário acadêmico, urge a necessidade de desenvolvimento de projetos de educação permanente em saúde, pautados na aprendizagem significativa e direcionados à comunidade envelhecente e envelhecida, com a participação de universitários, docentes, profissionais de saúde e áreas correlatas. A extensão universitária deve propor serviços de avaliação multidimensional para identificação de necessidades de cuidado do idoso, além de ações de promoção da saúde com ênfase na adoção de estilo de vida ativo e saudável.

A implementação de todos esses elementos de modo concomitante certamente pode ser o grande diferencial para a promoção de uma qualidade de vida potencialmente satisfatória na velhice.

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