A poesia visual remonta ao período da Antiguidade (casos esparsos, tendo Símias de Rodes como um dos principais representantes), passando pelo barroco, encontrando-se no modernismo (futurismo, dadaísmo, surrealismo) e potencializando-se na poesia concreta, através de experimentações visuais que chamam atenção dos nossos olhos em meio à composição da obra.
A exploração poética através de imagens para os olhos e não mais apenas para representações mentais faz parte de um processo iniciado desde que a escrita se desprendeu do puro registro de coisas ou fatos para enveredar-se numa dimensão
artística pelas mais variadas formas de representação, que compreendem hieróglifos, ideogramas, mandalas, criptogramas e todos as outras formas identificadas como „poéticas‟, provando-se que é possível pensar por imagens.
Como já dito, desde o Império Romano e ao longo da Idade Média, até aos nossos dias, surgem textos-imagens, em que poesia e experimentações visuais se misturam, criando assim uma pluralidade de significados e de leituras. Neste sentido, as imagens sempre serviram como signos informativos para diversas leituras e, portanto, sempre estiveram em jogo no processo comunicativo e estético.
O que se pode observar neste traço histórico é que o poema visual proporcionou e ainda proporciona novas possibilidades criativas e novos horizontes a quem pretende desenvolver seus sistemas de escrita, leitura e recepção.
Sendo o poema visual pan paz de Clemente Padin uma representação artística da atualidade, vejamos alguns exemplos de poesia visual ao longo do tempo:
Momentos esparsos antes das vanguardas
Poema visual português do século XVII.
Poesia concreta (segunda metade do século XX):
Poema Bomba, Augusto de Campos,
Como se pode observar nos poucos exemplos acima, na poesia visual ocorre uma rede intersemiótica entre os signos verbais e não-verbais, numa complexa e intrincada relação de traduções e equivalências. Isso nos mostra que a poesia visual não suprime os códigos sonoros e rítmicos da poesia convencional, mas experimenta numa equação de adição de termos.
Neste sentido, ocorre uma tradução dialética carregada de releituras intertextuais, ora negando, ora apropriando-se dos signos de elementos do passado, projetando no futuro sínteses transgressivas e antecipadoras.
A essência da poesia visual tem origem numa procura de veicular múltiplas significações em um único texto. Tal preocupação também foi a da poesia concreta, que, entre outras coisas, elevou à máxima potência esta possibilidade semiótica através da exploração visual do texto, seguindo, assim, a máxima de Cummings: a “verbivocovisualidade” da poesia.
A poesia concreta foi um fenômeno que surgiu paralelamente em algumas partes do mundo. No Brasil tem início com a criação do Grupo Noigrandes (Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos) em 1956. Tal fenômeno foi o resultado de uma nova e renovadora forma de encarar os estanques e já estabelecidos conceitos sobra a literatura de então.
Segundo estes e outros intelectuais da época, era necessária uma nova postura diante da linguagem; a literatura precisava fugir de suas amarras, ganhar “vida” novamente; era necessário uma experimentação poética em busca do novo, reorganizando e desenvolvendo as problematizações advindas das vanguardas artísticas e do modernismo brasileiro.
Com esta nova postura baseada nos ensinamentos de Pound, Mallarmé, Joyce e Cummings, fizeram cair por terra a óbvia linearidade do discurso se utilizando de todas as potencialidades do espaço em branco da folha. A atenção, neste sentido, voltou-se para os olhos. A visualidade e a ideia de movimento passaram a envolver cada vez mais os sentidos do leitor. As noções de espaço e tempo mudaram. A linguagem voltou-se para seu próprio ícone.
Haroldo de Campos, na introdução do livro Teoria da Poesia Concreta, conjunto de textos críticos e manifestos pertencentes a ele, Augusto de Campos e Décio Pignatari, diz que:
O movimento de poesia concreta alterou profundamente o contexto da poesia brasileira. Pôs ideias e autores em circulação. Procedeu a revisões de nosso passado literário. Colocou problemas e propôs soluções. No plano nacional, retomou o diálogo de 22, interrompido por uma contra-reforma convencionalizante e floral. Surgiu com um projeto geral de nova informação estética, inscrito em cheio no horizonte de nossa civilização técnica, situado em nosso tempo, humana e vivencialmente presente. Ofereceu, pela primeira vez, uma totalização crítica da experiência poética estante, armando-se de uma visada e de um propósito coletivos. Enfrentou a questão participante, mostrando que alistamento não significa alienação dos problemas da criação, que conteúdo ideológico revolucionário só redunda em poesia válida quando é veiculado sob forma também revolucionária. Pensou o nacional não em termos exóticos, mas em dimensão crítica. (CAMPOS, 2006, p. 9)
Num dos textos críticos deste livro, intitulado pontos-periferia-poesia concreta, Augusto de Campos, esclarecendo a nova postura assumida por esta vertente da poesia brasileira, diz que:
A verdade é que as “subdivisões prismáticas da ideia” de Mallarmé, o método ideogramático de Pound, a apresentação “verbivocovisual” Joyciana e a mímica verbal de Cummings convergem para um novo conceito de composição, para uma nova teoria da forma – uma organoforma – onde noções tradicionais de princípio-meio-fim, silogismo, verso tendem a desaparecer e ser superadas por uma organização poético-gestaltiana, poético-musical, poético-ideogrâmica da estrutura: POESIA CONCRETA. (CAMPOS, 2006, p. 42).
Esta poética ideogrâmica a que se refere Augusto de Campos retrata esta função da imagem na composição poética de sugerir significações através dos sentidos captados também pelos olhos, numa condensação de significações que representa uma poética rica semioticamente.
Na tradução realizada em pancircular, de Clemente Padin, as experimentações visuais vanguardistas do poema visual pan paz (objeto traduzido) se reconfiguram e ganham maior carga semântica através de artifícios digitais, principalmente pelo movimento proporcionado à imagem por programas computacionais.