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A Granja Santantonio, a partir do projeto “Juntos Para Competir” (SEBRAE/SENAR/FARSUL), mudou sua identidade visual e nome, passando de Sítio

Santantonio para Granja Santantonio, conforme Figura 36 na página do empreendimento no facebook. Os Sítios Capororoca e Santantonio estavam participando de capacitações neste projeto com outros grupos de empreendedores cujo interesse é de fortalecer o turismo na região.

Com o passar do tempo, Vasco, estudante de engenharia que veio morar no sítio para cuidar de sua avó Mimi Moro, juntou-se a outros agricultores para fazer feira em Ipanema e, mais tarde, conseguiu um espaço na Feira Agroecológica da rua José Bonifácio, local em que trabalha junto com a esposa Karen. A propriedade cultiva uma grande variedade de hortaliças e possui, como diferencial, a história da culinarista Mimi Moro, avó de Vasco.

Figura 36 - Granja Santantonio

Fonte: Granja Santantonio (2015).

A propriedade recebe turistas pelo roteiro Caminhos Rurais e escolas. A visitação de cunho pedagógico é um dos produtos da propriedade, que também faz feiras nestas escolas a convite dos professores. Nas Figuras 37, 38, 39 e 40 há registros de algumas práticas ocorridas na ocasião em que a pesquisadora acompanhou um dos roteiros planejados por Mauri da agência de viagens Sítio do Mato (10/05/2015).

Vasco também entrega sua produção em outros canais de distribuição fora da Feira do Bom Fim, como nas prefeituras, restaurantes e escolas. A propriedade também recebe estagiários e pesquisadores de Universidades e instituições como a EMATER, também

presentes nos eventos que envolvem as associações que fazem parte. Atualmente encontram- se envolvidos no projeto Juntos Para Competir do SEBRAE, assim como o Sítio Capororoca. A propriedade foi adquirida em 1968 pelo o avô de Vasco. Em 1981, a avó de Vasco faleceu. A partir daí, em 1988, Vasco veio morar na propriedade. Na época, ele estava cursando a faculdade de Engenharia Agrícola, na Universidade Luterana do Brasil (ULBRA):

“Eu estava fazendo faculdade, vim morar aqui com eles, para cuidar deles. A propriedade do vô ele nunca usou adubo, nem veneno, nada. A gente não chamava ecológica naquele tempo, né. Era agrônomo, veterinário, técnico né. Então o vô plantava, tinha tambor de leite aqui. Hoje em dia, pra aquele tempo, o vô podia ter dito: Ah! Essa aí é uma plantação ecológica”. (VASCO - Granja Santantonio - janeiro, 2014).

As atividades na propriedade eram realizadas paralelas à faculdade. Trabalhava com um amigo e fazia entregas em instituições financeiras como o Sul Brasileiro. Na época, já final de curso, iniciaram as feiras agroecológicas e os grupos de associados à Associação de Produtores Ecológicos do Lami (APEL):

“Nós entregávamos no banco e aí foi indo dessa maneira, fazendo a faculdade. Quando cheguei quase me formar, foi quase nesse tempo que surgiu aí as feiras. Começou o trabalho daí. Meu vizinho Régis também é Engenheiro Agrícola. Primeiro era o grupo aquele, da APEL, que a gente foi os primeiros fundadores e começamos a fazer a feira na Tristeza”. (VASCO - Granja Santantonio - janeiro, 2014).

Por conta de desentendimentos internos, Vasco saiu do Grupo APEL e formou um novo grupo com seu vizinho e mais dois produtores chamado Pró-Lami. Com o passar do tempo, ficaram apenas Vasco e Régis, pois os outros dois desistiram de trabalhar na plantação. Os dois restantes no grupo se organizaram para vender os produtos em duas feiras: Tristeza e Feira Agroecológica da rua José Bonifácio: “É assim, a única coisa que a gente faz junto, ele fica na Tristeza e eu fico na José Bonifácio. Ele fica na Tristeza eu na Alegria né (risos)”. (VASCO, Sítio Santantonio, janeiro, 2014).

Figura 37 - Visita a Granja Santantonio Figura 38 - Tipos de culturas do sítio

Fonte: Registrado pela autora (10/05/2015). Fonte: Registrado pela autora (10/05/2015).

Figura 39 - História sobre Dona Mimi Figura 40 - Livros da culinarista Mimi Moro

Fonte: Registrado pela autora (10/05/2015). Fonte: Registrado pela autora (10/05/2015).

As quatro propriedades que foram selecionadas para este estudo, pertencem ao grupo de empreendimentos fundadores do núcleo de turismo rural do projeto Caminhos Rurais de Porto Alegre e fazem parte da trajetória histórica deste projeto. A escolha também se deve, em razão de seus proprietários apresentarem relações sociais de vizinhança e de parentesco.

As histórias de vida dos proprietários encontram-se entrelaçadas: Dodô e Tio Juca são irmãos; Silvana realizou o estágio dela em Agronomia na propriedade de Tio Juca; ela se torna a única mulher a pisar em sua horta; as primeiras iniciativas de turismo apresentavam um roteiro que partia da praia no bairro Lami, finalizando nos sítios de Juca e Dodô; Silvana os ajudava nas visitas; Vasco ingressou depois, mas já realizava atividades de feira em

conjunto com os agricultores da região; Vasco informou à Silvana que o sítio atrás da propriedade de seu irmão estava à venda; Silvana adquiriu a propriedade Sítio Capororoca.

Outro ponto que merece referência é a dos proprietários estarem em constante evidência na mídia local: no Jornal do Almoço (Grupo RBS), na TVE, Diário Gaúcho, Jornal do Comércio, jornais locais, blogs e sites que mostram os proprietários como personalidades locais que fazem a diferença em termos de turismo rural, agricultura orgânica e preservação da natureza. Assim, além do site dos Caminhos Rurais existem diversos artefatos culturais que narram a história e as proposições destes empreendedores e empreendimentos. Os sítios, apresentam-se como laboratórios ao ar livre que se experienciam formas alternativas e criativas de plantio e alimentação (PANCs), maneiras de negociar e discutir em grupo, elaborar projetos, produzir conhecimentos.

Frente às trajetórias de vida apresentadas neste capítulo cabe questionar qual o lugar da agroecologia nesses empreendimentos e c como são constituidos os arranjos sociais que produzem projetos de turismo agroecológico.

A partir da noção de tipificação apresentada por Alfred Schutz (1979) nas narrativas analisadas identificam-se dois tipos agricultores agroecológicos: os tradicionais representados por Dodô e Tio Juca e os neo-rurais representados por Silvana e Vasco. Essa noção dada por Schutz é relevante para compreendermos as atribuições indenitárias dos sujeitos.

Nesta direção entender quais inícios de tipificação emerge do ponto de vista das práticas agroecológicas destes empreendedores. É importante ressaltar que tipificação não está sendo pensada como modelo para analisar as práticas de turismo agroecológico, mas emergem das práticas estudadas nesses projetos.

Os agricultores agroecológicos tradicionais apresentam como elementos de sua experiência uma trajetória de vida associada à agricultura desde a infância, tendo a mesma origem de seus pais. No entanto, os filhos de Juca e Dodô não seguem a mesma trajetória, buscando trabalho em atividades distintas da agricultura. As experiências de Tio Juca e Dodô demonstram práticas de ativismo agroecológico. O exemplo de Tio Juca que retirou-se da associação POARURAL, pois passou a exigir-lhe um “padrão asséptico” e regulador de atendimento turístico importo pela indústria do turismo, distinto do modelo natural e orgânico de ação oferecido pelo agricultor.

No caso de Silvada e Vasco, classificados como neo-rurais, apresentam um conjunto de ideologias e convicções de um estilo de vida associado a práticas agroecológicas. Tais práticas envolvem os membros da família e agregados.

À medida que os atores relacionam-se com outros atores sociais e grupos, como, por exemplo, as associações emergem outros papéis que os identificam pela formação (agrônomo, técnico, empreendedor), cargo que ocupam (presidente, secretário), ou classificações dadas pelo próprio grupo. No caso das reuniões da Associação dos Produtores Metropolitanos da Rede Agroecológica (RAMA), observou-se que os associados são divididos em grupos e identificados como: produtor, processador, e colaborador. Nas apresentações formais durante as plenárias identificavam-se pelo nome, profissão, local do empreendimento (sítio), ramo de atuação, cargo. No caso das visitas em que há público infantil é comum serem identificados por “tio”, “tia”. O próprio nome da propriedade de Eliseu é Sítio Tio Juca. Também é recorrente o uso de apelidos (Sil, Guinha, Dôdo, Juca), como a maioria é conhecida e pouco pelo nome próprio.

É importante ressaltar tal qual trata Hall (2006) que na contemporaneidade a identidade é defina historicamente e não biologicamente. Nesta direção os atores pesquisados podem assumir “diferentes identidades em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de eu coerente” e, ao mesmo tempo, tais identidades podem ser “contraditórias, empurrando em diferente direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas”. (HALL, 2006, p. 13).