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4.5.2   Betydning  av  anerkjennelse

No caso dos Caminhos Rurais, o grupo de associados tem no projeto um espaço para a comunicação e divulgação de suas práticas e posicionamento político-sócio-ambiental. Pensar o turismo rural e o patrimônio cultural na região do extremo sul de Porto Alegre envolve significados e valores que são construídos na cultura e pela linguagem sobre o rural e as coisas rurais, sobre o campo e a natureza, sobre os saberes e fazeres locais, sobre o patrimônio material e imaterial reconhecido como relevante pela sociedade.

Silvana mencionou que na época da elaboração do estatuto havia uma preocupação do grupo para que todos os associados estivessem dispostos e alinhados à proposta de preservação ambiental. No relato ela conta o caso de um empreendimento que foi convidada a se afastar, pois estava realizando festa Rave na Praia das Garças:

“E aí quando a gente começou a fazer a história de montar o estatuto [Associação POA RURAL], uma das coisas era a preocupação que a gente tinha da preservação do meio ambiente. Havia uma inconformidade. Não dava para fazer festa Rave e atender o estatuto”. (SILVANA- Sítio Capororoca- janeiro, 2014).

A preocupação do grupo de associados POARURAL é observada nos dias atuais também pela comunidade local da zona sul do município. Atualmente o bairro Belém Novo está sendo palco de manifestações para barrar o avanço de um empreendimento imobiliário aprovado pela prefeitura na Fazenda do Arado Velho.

Os atores, entre eles, professores, moradores, representantes de coletivos buscam alternativas para a preservação da área tornando-a um espaço de visitação pela população. Tendo em vista a atual zona rural, o poder executivo do município alterou o Plano Diretor, revertendo parte da área rural em urbana para que o empreendimento fosse construído. A mobilização da comunidade gerou uma página no facebook “Preserva Belém Novo”, o blog “preservaarado.wordpress.com”, campanha “#PreservaArado”. O coletivo está mobilizando a população a partir de reuniões, participação em pontos específicos como a Feira

Agroecológica da José Bonifácio informando sobre as ações que impactam a região. Conforme o coletivo, a área é expressiva em flora e fauna, conta com construções históricas e paisagens com caraterísticas rurais. Além do apoio da comunidade sobre a relevância patrimonial da fazenda do Arado, existem produções científicas92 que evidenciam o espaço como patrimônio ambiental e cultural, exemplo do trabalho da professora Patricia Laure Gaulier93 que identifica sítios arqueológicos Guarani na Ponta do Arado.

A zona sul de Porto Alegre apresenta áreas potenciais de patrimônio cultural edificado e arqueológico. A produção realizada pelo grupo Grupo de Trabalho94 da Secretaria da Cultura de Porto Alegre objetiva inventariar o patrimônio cuja finalidade é preservá-lo. Esses profissionais entendem o patrimônio como “o resultado de processos culturais, constantemente re-simbolizados, constituindo-se em portadores de referência às identidades dos sujeitos sociais (PMPA, 1996/1998)”. (TOCCHETTO, 2013, p. 210).

Entre os locais inventariados pelo grupo, destacam-se espaços de relevância histórica como as ruínas da casa de veraneio de Júlio de Castilho, do início do século XX (governante do Rio Grande do Sul); na chácara do Bairro Belém Velho, século XIX, encontra-se a fazenda do General Flores da Cunha (governante do Rio Grande do Sul). O sítio arqueológico na Fazenda do Boqueirão, final do século XVIII, foi registrado junto ao IPHAN por se tratar de exemplares de arquitetura luso-brasileira. No bairro Lomba do Pinheiro, a casa de João de Oliveira Remião, início do século XX, encontra-se o Museu Comunitário da Lomba do Pinheiro (exemplar arquitetônico rural); a casa da Fazenda na estrada de Taquara estão as estruturas do engenho (ruínas) com potencial arqueológico verificado e inventariado. Além desses exemplos a Fazenda do Arado cadastrada no IPHAN, é considerada pelos especialistas da Secretária Municipal de Cultura como uma paisagem cultural, ecológica e social.

A zona sul do município é avaliada por estes especialistas como um espaço que mantém “uma paisagem rara na qual os componentes naturais junto ao Lago Guaíba já lhe conferem valor paisagístico, estético”. (TOCCHETTO, 2013, p. 213). Para os especialistas, o conjunto paisagístico, histórico e arquitetônico do Bairro Belém Novo, incluindo o “centro do bairro, a igreja, a praça, o antigo Hotel Cassino e a Fazenda do Arado, confere ao contexto uma relevância de paisagem cultural e de lugar”. (TOCCHETTO, 2013, p. 214). A Fazenda

92 Na página do Blog é possível acessar aos links de produções sobre o patrimônio ambiental e cultural da Zona Sul de Porto Alegre. (PRESERVA ARADO, 2016).

93 Ocupação pré-histórica Guarani no município de Porto Alegre. Considerações preliminares e primeira datação do sítio arqueológico [RS-71-C] da ilha Francisco Manoel. (GAULIER, 2001/2002).

94 O Grupo de Trabalho trata-se de um projeto interdisciplinar “Sítios Históricos da Área Rural de Porto Alegre nos Séculos XVIII e XIX – História, Arquitetura e Arqueologia de Chácaras e Fazendas” que busca inventariar o patrimônio arquitetônico e arqueológico na zona sul do município de Porto Alegre.

do Arado Velho é descrita como um patrimônio especial “tendo em vista que agrega, num mesmo local, uma diversidade de elementos naturais e culturais, que lhe atestam alta significância patrimonial”.

Os empreendimentos em estudo, nesta tese, não passaram por um estudo que evidencie sítios de relevância arquitetônica, no contexto, porém, expõe um potencial patrimônio arquitetônico, paisagístico e ambiental mapeado pelo município. Os estudos ressaltam o valor paisagístico, histórico e cultural da região, atravessados “pela imaterialidade da história e das memórias, dos saberes e dos fazeres, relativos aos processos de vida vinculados ao sítio”. (TOCCHETTO, 2013, p. 214).

O patrimônio cultural, então, trata do conjunto social que abarca a experiência vivida, condensada em linguagens, conhecimentos, tradições imateriais, modos de usar os bens e os espaços físicos, conforme se extraiu da literatura do autor. (CANCLINI, 1994, p. 99). Nessa direção, pode-se ressaltar a relevância dos atores sociais para os processos de patrimonialização desses espaços. O potencial patrimônio cultural que se configura da zona sul de Porto Alegre apresenta espaço de disputa econômica, política e simbólica que se encontra atravessado por agenciamentos produzidos pelo poder público a partir da Secretaria Municipal de Cultura - Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo; Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural; Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho; Centro de Pesquisa Histórica - que buscam mapear, inventariar e cadastrar os sítios históricos.

As coletividades, assim, como os movimentos Cinturão Verde, Preserva Arado, Coletivo Ambiente Crítico, Ecosciência, RAMA, POARURAL, entre outros alertam para os usos atuais que se pretende projetar para estas áreas e que podem, em certa medida, interferir na paisagem e cultura locais. As instituições públicas conferem a esses sítios a autenticidade apresentando-os com símbolos que representam uma determinada época histórica. Canclini (1994) destaca que o debate sobre patrimônio cultural diz respeito a sua valorização estética e a autenticidade. Para o autor, “este é o valor proclamado com mais insistência pelos folhetos que falam dos costumes folclóricos, pelos guias turísticos quando exaltam os artesanatos e festas autóctones”. (CANCLINI, 1994, p. 109).

Trata-se de uma experiência sensorial, então, ao ver nestes espaços o passado, no caso, dos gaúchos porto-alegrense, nas formas de Casas de Fazendas, galpões, atafonas, cerâmicas revelando um sentimento de identificação entre esses patrimônios e aquilo que representam. (GONÇALVES, 1988, p. 268). Do ponto de vista do registro do “cotidiano”, o patrimônio cultural “tem como ponto de referência básico a experiência pessoal e coletiva dos diversos grupos e categorias sociais em sua vida cotidiana”. (GONÇALVES, 2002, p. 119). Nesses

projetos, os grupos sociais utilizam como estratégia narrar “sua memória e sua identidade, buscando para elas um lugar público de reconhecimento, na medida em que as transformam em patrimônio”. (GONÇALVES, 2002, p. 121).

Em uma argumentação aproximada ao texto de Gonçalves, Luchiari indica que “a preservação do patrimônio cultural remete-nos a um processo histórico seletivo de atribuição de valores às formas e as práticas culturais”. (LUCHIARI, 2005, p. 95). Assim, o patrimônio cultural tombado representa os grupos sociais hegemônicos e “só recentemente os artefatos e os bens simbólicos da cultura popular, artesanatos, tradições imateriais ganharam prestígio de patrimônio cultural local”. (LUCHIARI, 2005, p. 96).

A patrimonialização que ocorre na zona sul de Porto Alegre encontra-se em vários níveis, ou seja, alguns sítios estão inventariados, tombados e outros encontram-se em processo de pré-patrimonialização. No caso do projeto Caminhos Rurais alguns atrativos são tombados e protegidos pelo poder público e, em alguns casos, pelo proprietário do sítio que transforma parte de sua propriedade em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). No caso dos sítios estudados, é relevante ressaltar a importância dos saberes e dos fazeres relativos aos modos de vida e a história dos primeiros moradores da região, seus processos de subsistência.

Há uma ressignificação da natureza como atrativo turístico. Dessa forma, a natureza é transformada em uma concepção de cenário e espetáculo, incorporadas como produtos do consumo cultural que atraem mais visitantes. No entanto, o que transforma a paisagem em lugar encontra-se nas habitações, os usos, o sentimento de pertencimento das populações locais. (LUCHIARI, 2005, p. 102).

No entanto, percebe-se a partir dos materiais estudados que os projetos de empreendimentos imobiliários não levam em conta o pertencimento das populações locais, a cultura, paisagem, fauna e flora locais, mas se utilizam das características estéticas para a publicidade de seus empreendimentos. A posição, ou opinião daqueles que ali vivem, não é levada em conta e quando isso ocorre, as decisões já foram elaboradas em se tratando apenas de uma estratégia de manobrar a população.

Em alguns casos, os programas e políticas habitacionais são as principais causadoras de conflitos e tensões. Esses conflitos partem do poder público e de estratégias que privilegiam empresas, em detrimento da população entre as Secretarias Municipais. Esse é o caso do projeto que instituiu o status de zona rural com apenas 8% do território. No projeto, o restante do território já estava mapeado como área de interesse para empreendimentos

imobiliários e, também no empreendimento da Fazenda do Arado Velho cujas estratégias do poder público privilegiam empresas privadas.