As posições de Freud com relação à religião mantêm proximidade (senão afiliação) à dos iluministas do século XVIII. Peter Gay (1989) observa que, assim “como as convicções anticlericais e antirreligiosas deles (os filósofos iluministas), as de Freud eram também
inexpugnáveis... Sua sentença final sobre a religião concordava com a deles: ela havia fracassado” (p. 483).
Na opinião do biógrafo, a condição de saúde de Freud (o câncer já fora diagnosticado e ele sofria crises de angina), a percepção de um mundo em guerra e da natureza sentida como “vingativa, cruel e implacável” – em vez de “protetora e erótica” –, tudo isto o fez dar-se conta de um desamparo fundamental. E foi ali, naquele ponto, que ele “introduziu astuciosamente a religião em sua análise. Astuciosamente porque, ao ressaltar o desamparo humano, ele podia vincular a necessidade de religião às experiências infantis” (GAY, 1989, p. 481).
Acreditamos que, diante de tanto sofrimento que vivenciava em si e do sofrimento que percebia vivenciarem os outros à sua volta, Freud apenas lançou mão do que acreditava e que foi sua melhor contribuição: a fidelidade ao espírito científico, agora moderado pelo reconhecimento de seus limites. Pois vejamos o que ele escreve: “Nosso deus Logos, talvez não seja muito onipotente, e consiga realizar apenas uma pequena parcela do que foi prometido por seus predecessores” (citado por GAY, p. 485).
Tomemos uma passagem da “Psicopatologia da vida cotidiana” (1901a) em que, ao tratar do determinismo de motivações psíquicas inconscientes nas superstições, visões mitológicas do mundo e religiões, Freud (1901a/1980) escreve:
O obscuro reconhecimento (a percepção endopsíquica por assim dizer) dos fatores psíquicos e das relações do inconsciente espelha-se – é difícil dizê-lo de outra maneira, e aqui a analogia com a paranóia tem que vir em nosso auxílio – na construção de uma realidade sobrenatural, que se destina a ser retransformada pela ciência na psicologia do inconsciente. Poder-se-ia ousar explicar dessa maneira os mitos do paraíso e do pecado original, de Deus, do bem e do mal, da imortalidade etc., e transformar a
metafísica em metapsicologia (p. 223-224, itálicos do autor).
O que ele nos diz é que as características de um aparelho psíquico/de linguagem limitado a um funcionamento em que predominam conteúdos de processos psíquicos primários, faz surgir espelhadas na consciência, embora de forma distorcida, crendices, superstições, medos e ideias exagerados ou deslocados de contexto etc. Esse espelhamento tem como forma de pensamento a “construção de uma realidade sobrenatural” (sinônima de meta-física, em sentido literal). Cabe, então, à ciência da psicanálise (diz ele usando a expressão “psicologia do inconsciente”), retransformar aquela construção “e transformar a metafísica em metapsicologia”. Aqui encontramos o ponto específico daquela borda de contato entre a metafísica e a psicanálise, de que nos falava Birman (2003), acima citado. Mas há algo mais que vale destacar.
metapsicologia), e com o que ela implica (ousar explicar como o psiquismo humano constrói os mitos do paraíso, de Deus, do bem e do mal), Freud (1901a/1980) nos mostra a dimensão do seu modo de pensar que era antirreligioso, e também não ontoteológico. Pois ele atribui à ciência da psicanálise a tarefa de retransformar em conteúdos psicológicos uma forma de pensamento movida por absolutismos deístas e, de toda sorte, crentes no “além da physis”.
Propomos que ao escrever “metafísica”, Freud (1901a/1980) quis superar tanto o “sobrenatural” metafísico da frase anterior (ligado, portanto, ao homem do senso comum que realiza inconscientemente o “espelhamento” por ele citado), quanto a filosofia de sua época, a qual era chamada, também, de “metafísica’.
Freud não desconheceu o risco de apenas ter trocado um “além” (da physis) por outro “além”, que pudesse soar como esotérico ou místico ou, ainda, de alguma forma, ontoteológico. É o que atesta uma passagem de O futuro de uma ilusão (1927)89, na qual, após ter identificado o caráter ilusório das doutrinas religiosas, ele se pergunta se a convicção baseada nas ciências possui um fundamento melhor do que aquela baseadas nas religiões: “não poderão ser de natureza semelhante outros predicados culturais de que fazemos alta opinião e pelos quais deixamos nossas vidas serem governadas?” (FREUD, 1927/1980, p. 47). Sua resposta, ao final do mesmo texto, foi definitiva: “Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar” (FREUD, 1927/1980. p. 71).
Seu distanciamento prudente das religiões e o simultâneo apreço pela ciência eram tantos que, numa carta de 1925, ao editor do Centro da imprensa judaica, em Zurique, ele escreveu: “Posso dizer que me coloco tão distante da religião judaica quanto de todas as outras religiões; isso equivale a dizer que elas têm grande significação para mim como tema do interesse científico, porém delas não participo emocionalmente” (FREUD, 1925/1980, p. 364). Acreditamos que Freud superou o “espírito religioso” – logicamente atrelado, de modos diversos, ao Absoluto ou a um Transcendente separado – situando sua teoria a partir de referentes clínicos, e a eles retornando. Referentes que foram: as histórias de seus pacientes, a apropriação linguística que eles fizeram dessas histórias e as relações que estabeleciam com seu próprio corpo. O prefixo “meta” de sua metapsicologia parece significar apenas uma distinção ou diferenciação que Freud faz da psicanálise em relação à psicologia acadêmica de sua época.
89 Texto que gerou razoável desconforto nos círculos psicanalíticos e grande controvérsia fora deles, e até além da Europa. No final daquele ano, o New York Times publicou uma manchete sensacionalista: “Religião condenada. Freud afirma que está num ponto em que deve ceder perante a ciência”. Seu amigo, o pastor O. Pfister escreveu em resposta ao texto um artigo, “A ilusão de um futuro”, no qual educadamente argumentou que o conhecimento científico não garantiria o progresso da humanidade (GAY, 1989, p. 486-487).
Embora em 1922, ele afirme que a ciência psicanalítica não visa solapar a religião90, não pode deixar de observar, cinco anos mais tarde, que o “espírito científico” não se detém diante de assuntos religiosos e que, quanto mais os homens se aproximam das ciências, mais se distanciam da crença religiosa (FREUD, 1927/2014, p. 223-224).
Já mencionamos a conferência “A questão de uma Weltanschauung científica”, de 1932. Nela são abordadas as diferenças e discordâncias entre psicanálise, ciência e religião. Ali, Freud (1933[1932]/1980) reconhece uma relativa superioridade da religião sobre as ciências de sua época, no tocante ao medo que o homem experimenta frente aos perigos e transformações da vida. E, mesmo vendo uma semelhança entre ambas no que diz respeito ao dano ou à punição decorrente da não observância dos mandamentos da religião, ou do não aprendizado das lições da ciência (p. 197-198), ele elenca os passos que o “espírito científico” empreendeu na crítica à visão religiosa do mundo. São eles: suspeita e ceticismo quanto às lendas e milagres, contestação às doutrinas que explicavam a origem do universo, apontamento da inviabilidade da existência de uma Benevolência ou de uma Justiça universais e, finalmente (e graças à psicanálise), o desvelamento de que a religião se origina do desamparo infantil, cujos conteúdos sobrevivem graças à persistência de desejos e necessidades próprios daquela fase da vida. Ele conclui taxativamente: “A religião é uma tentativa de obter domínio do mundo perceptível no qual nos situamos, através do mundo dos desejos que desenvolvemos dentro de nós em consequência de necessidades biológicas e psicológicas” (FREUD, 1933[1932]/1980, p. 204). Na mesma conferência, Freud (1933[1932]/1980) ainda responde às críticas de que a ciência não deveria questionar a religião e reafirma sua postura de indagador: existe mesmo um espírito divino e uma revelação que ele faça aos homens? Se esta pergunta não pode ser sequer colocada, diz ele, tal debilidade de lógica é prova de que há uma motivação afetiva ou emocional não explicitada no argumento religioso. Para encerrar, Freud (1933[1932]/1980, p. 207) assevera que a religião não tem o direito de limitar o pensamento.