11 Forvaltningsrådgiving om detonasjoner
11.3 Anbefalte retningslinjer for detonasjoner i norske farvann
Nosso objetivo nesta subseção é apenas o de mostrarmos o uso da palavra “ciência”, por Freud, no contexto das passagens em que ele estabelece diretamente relações entre a psicanálise e a filosofia. Portanto, não trataremos extensamente, aqui, das relações de Freud com a filosofia. Este tema abre inúmeras possibilidades de pesquisas e foge à nossa meta. Ainda assim, é importante começarmos por uma breve nota de sua ligação com o conhecimento filosófico.
Para Joel Birman (2003), se quisermos considerar a relação de Freud com as filosofias devemos levar em conta que no final do século XIX os naturalistas almejavam o avanço das ciências desvencilhando-as da filosofia hegeliana, cujo caráter sistemático e totalizante parecia impedir o avanço do pensamento científico. Para avançar, eles teriam adotado Kant como referência e Freud, por sua vez, teria eleito Hegel como seu alvo principal, já que aquelas características do pensamento hegeliano seriam opostas às da psicanálise no que diz respeito à leitura fragmentária que esta faz do real (BIRMAN, 2003, p. 51). O problema para Freud foi
que, com A interpretação dos sonhos, a psicanálise se apresentou como uma hermêneutica e, assim, desagradou naturalistas e positivistas que, desde então, negaram cientificidade a ela (BIRMAN, 2003, p. 50).
Mesmo assim, argumenta Birman (2003, p. 51-52), haveria uma borda de contato entre esses dois territórios tão diferentes (psicanálise e filosofia ou metafísica). Tal borda seria a metapsicologia. Mas ela traz um novo problema, agora, mais voltado para o interior do campo psicanalítico. Sendo porosa, essa borda talvez não impedisse que os filósofos tentassem adentrar o território da teoria. Daí a vigilância e a mordacidade constantes de Freud contra o fantasma da filosofia – a ser “continuamente exorcizado” –, ao mesmo tempo em que ele se esforçava para demonstrar a cientificidade de sua criação.
Ainda segundo Birman (2003, p. 53-55), com o desdobramento da atividade clínica surgiu uma nova dificuldade para Freud: o conceito fundamental da pulsão de morte não encontrava verificação empírica, tratar-se-ia de uma especulação. Então, ele teve que aceitar que a psicanálise não seria uma ciência conforme os requisitos neopositivistas e passou a afirmar que a psicanálise seria uma ciência, mas de outra ordem (BIRMAN, 2003, p. 54-55).
Simultaneamente à sua concepção de sujeito do inconsciente, este sujeito do cogito foi posto em descentramento por Freud (BIRMAN, 2003). Descentramento acentuado pelo texto sobre o narcisismo de 1914, no qual Freud postula que o “eu” inexiste até que um outro eu (do adulto cuidador) promova uma imagem que unifique seu autoerotismo e sua sexualidade polimorfa. O descentramento ou a desconstrução do sujeito da consciência cartesiano promovido por Freud, se deu, segundo o psicanalista e pesquisador da UFRJ, em três direções: da consciência ao inconsciente, do eu para o outro, e da representação à pulsão. Com isto, o discurso freudiano passou a se inserir no campo da filosofia trágica e da filosofia da diferença (BIRMAN, 2003, p. 74).
Numa outra interpretação, Assoun (1978) considera que há “uma confusão de níveis, do discurso freudiano sobre a filosofia” (p. 11) e uma ambivalência de Sigmund Freud quanto a ela. Enquanto, privadamente, Freud mantinha uma relação de fascínio e de muitas leituras de alguns filósofos – Assoun (1978) o demonstra com vários exemplos, logo na introdução de seu livro –, por outro lado, ao escrever oficialmente em nome da psicanálise, ele recusava a filosofia e até escarnecia dos filósofos.
Em 1930, diante da solicitação de uma professora de filosofia, para que opinasse sobre algumas questões da metafísica de Spinoza, Freud respondeu por carta: “Os problemas filosóficos e suas formulações são tão estranhos para mim, que não sei o que dizer a respeito” (citado por ASSOUN, 1978, p. 23-24). A pergunta versava sobre as relações entre o universo
físico e o psíquico (consciência, mentalismo). A aparente “não resposta” de Freud permite a Assoun (1978) extrair do episódio um problema. Na sua interpretação, como o assunto não constituía questão para Freud, este teria encontrado “um meio de responder sem aceitar a questão” (p. 25). E a tarefa que Assoun (1978) empreende é de buscar a resposta freudiana em alguns dos textos clínicos e teóricos do fundador da psicanálise. Para o comentador, a resposta de Freud à filosofia encontra seu ápice na Conferência XXXV (1932) e no Esboço de
psicanálise (1938), textos com os quais ele a recusa, refuta o consciencialismo87 e reivindica para a psicanálise sua cientificidade, denunciando a ilusão da visão de mundo totalizante que, aos seus olhos, a filosofia de sua época propunha (ASSOUN, 1978, p. 59).
Assoun (1978) finaliza escrevendo que a filosofia e Freud encontram-se, precisamente, no ponto em que a verdade metafísica torna possível a construção metapsicológica (conforme o capítulo 4º da II parte de seu livro, e a conclusão do mesmo). Ele dá como melhor exemplo disto a aproximação entre os conceitos de pulsão de morte em Freud e de instinto de morte em Schopenhauer, e propõe que o conceito do segundo teria inspirado o do primeiro (ASSOUN, 1978, p. 185). A diferença entre ambos se estabeleceu depois que Freud se posicionou em favor da dualidade pulsional. De fato, podemos ler em Freud (1933[1932]/2010):
E o que dizemos não é exatamente Schopenhauer. Não afirmamos que a morte é o único objetivo da vida; não deixamos de ver, junto à morte, a vida. Reconhecemos dois instintos [pulsões] fundamentais e admitimos para cada um, sua própria meta (p. 185, colchetes nossos).
Deduzimos, assim, que as relações de Freud com as filosofias foram ricas e ambivalentes. Ricas porque o inspiraram a refletir e o ajudaram a compor sua própria teoria sobre os fatos da clínica, e ambivalentes porque eram carregadas de admiração88 e recusa ao exercício do pensamento filosófico.
Imbuído do espírito cientificista de sua época, Freud (1900/1980) parece supor que a filosofia foi e pode ser ultrapassada pelas ciências:
Não há dúvida de que as realizações psíquicas dos sonhos receberam um reconhecimento mais rápido e mais caloroso durante o período intelectual que agora ficou para trás, quando a mente humana era dominada pela filosofia, e não pelas ciências naturais exatas (p. 90).
87 O consciencialismo é definido como a filosofia vigente na época de Freud, que se caracterizava principalmente pela “tese da paridade (Gleíchstellung) do psíquico e do consciente, e a eleição da consciência como modo exaustivo de definição do psiquismo” (ASSOUN, 1978, p. 41).
88 No prefácio à quarta edição de “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud se referiu a Platão como “o divino Platão” (FREUD, 1905/1980, p. 134).
Mais tarde, em “O interesse científico da psicanálise” (1913), ele desafia a filosofia a decidir se valorizará ou não a hipótese do inconsciente e a não agir, como fez até então, dando a esse conceito um caráter místico ou deduzindo que o que é inconsciente não pode ser mental nem assunto da psicologia. Finaliza afirmando que a filosofia, ela própria, pode ser tema da pesquisa psicanalítica: “Da mesma maneira, a psicanálise pode indicar os motivos subjetivos e individuais existentes por trás das teorias filosóficas que surgiram aparentemente de um trabalho lógico imparcial e chamar a atenção do crítico para os pontos fracos do sistema” (FREUD, 1913/1980, p. 214).
Se, como diz Freud (1940[1938]/2014a) no final de sua obra, a filosofia e a literatura de sua época “jogaram” com o conceito de inconsciente psíquico, e se a ciência não dera uso a este, ele próprio agora o faria, reafirmando sua cientificidade: “Em consequência da natureza especial de nossos achados, nosso trabalho científico na psicologia consistirá em traduzir processos inconscientes em conscientes, para assim preenchermos as lacunas da percepção consciente” (p. 217).
Na Conferência XXXV, “A questão de uma Weltanschauung científica”, Freud (1933[1932]/1980, p. 196) sugere que a diferença entre filosofia e ciência é o apego da primeira à ilusão de que é capaz de apresentar um quadro coerente e sem falhas do universo, ao passo que a ciência faria ruir tal quadro a cada vez que avança em algo novo. O psicanalista critica os filósofos de modo exagerado, convenhamos, atribuindo a eles a conservação de dois traços do pensamento animista: “a supervalorização da magia das palavras e a crença segundo a qual os fatos reais do mundo tomam o rumo que nosso pensamento deseja impor-lhes” (FREUD, 1933[1932]/1980, p. 201-202). Critica também os “anarquistas niilistas”, por pretenderem que o pensamento científico anule a si próprio. E, mesmo declarando sentir pesar pela insuficiência de suas próprias informações a respeito de K. Marx, Freud (1933[1932]/1980) diz que estranha algumas das posições do autor de O capital, além de identificar nele influências da “obscura filosofia hegeliana” (p. 214).