• No results found

Oppsummering

In document Idrettens økonomi og effektivitet (sider 57-68)

No caso do baccalauréat, o État prevê uma avaliação que se serve de um caderno de questões para cada domínio do conhecimento. A prova francesa é dividida em disciplinas. Apresentaremos de modo mais completo a estrutura de exame quando tratarmos de gêneros discursivos mais adiante. Por ora, observemos uma questão do caderno de língua francesa. Como já havíamos dito na primeira parte da tese, o foco deste caderno de provas não está na desenvoltura ou no domínio de competências e habilidades relacionadas ao uso da língua, mas na base de conhecimentos adquiridos sobretudo no campo da Literatura. O Anexo 1 mostra o caderno de provas de Francês na série Literatura aplicada no ano de 2013 (Sujets du baccalauréat 2013 série L). Dele recuperamos aqui apenas o objeto de estudo, a lista de textos e também as questões propostas.

A organização do enunciado do État se dá em um caderno de provas que é composto pela delimitação do assunto principal que as questões abordam, de uma lista de referências dos textos que compõe o corpus, dos excertos selecionados para o tratamento das questões propostas, e finalmente as questões propostas. O avaliando deve responder a duas delas, sendo a primeira obrigatória, que vale 4 pontos, e a segunda à escolha do avaliando, dentre três possibilidades: um comentário, uma dissertação, ou um texto inventivo, ou seja, um texto literário. O valor da segunda questão é de 16 pontos. Esses três tipos de questões se repetem em todos os exames, sendo apenas o assunto delas adaptado ao objeto de estudo de cada edição. O valor total final da prova é de 20 pontos. A duração da prova é de 4 horas para o avaliando responder a todos os dois itens obrigatórios.

SÉRIE L

Objeto de estudo: As reescritas, do século XVII até os dias atuais. Textos:

Texto A: Daniel Defoe, Robinson Crusoé, 1719 (traduzido do inglês por Petrus Borel). Texto B: Paul Valéry, A Jovem Parca e poemas em prosa, Histórias Partidas, “Robinson”, 1950.

Texto C: Michel Tournier, Sexta-feira ou os Limbos do Pacífico, cap. 3, 1967. Texto D: Patrick Chamoiseau, A pegada de Crusoé, 2012.

[...]

I – Depois de ler os textos do corpus, responda à seguinte questão (4 pontos):

Para que serve o diário em Robinson Crusoé de Daniel Defoe (texto A)? Quais funções os outros textos dão ao escrito?

II – Você tratará em seguida, à sua escolha, um dos assuntos a seguir (16 pontos):

 Comentário

Comente o texto de Patrick Chamoiseau (Texto D).  Dissertação

Você acha que toda criação literária é, de certa maneira, uma reescrita? Responda a esta questão fundando-se nos textos do corpus assim como nos textos e obras que você estudou e leu.

 Invenção

Reescreva as oito primeiras linhas do texto de Paul Valéry (texto B) inventando uma narrativa em primeira ou terceira pessoa que completa, que desenvolve ou que prolonga as imagens e as ideias fragmentárias desta “história partida”.

Esta é a estrutura textual que recebeu o projeto enunciativo do État. Ao enunciar, ele produziu um texto com um acabamento específico apto a provocar em seu interlocutor, o avaliando, uma posição responsiva ativa. O enunciado é um ato, uma ação da linguagem, é a unidade da linguagem, uma unidade concreta. Por isso recortar o enunciado é um objetivo complexo para o analista. O enunciado, enquanto uma entidade textual, é um todo de marcas linguísticas que nos permite recuperar as marcas da enunciação. O texto é a manifestação concreta da enunciação. A enunciação da forma e conteúdo ao texto ao conjugar elementos como a intenção do enunciador em relação ao seu interlocutor, o contexto em que se encontram, o posicionamento social dos dois um em relação ao outro, os direcionamentos da resposta que o enunciador pretende provocar em seu interlocutor. Todos os elementos listados se configuram em um único movimento dialógico de modo a conceber o texto no formato final que ele recebe.

Sobre o projeto enunciativo do enunciador em relação ao seu interlocutor, o État pretende avaliá-lo no que diz respeito ao domínio da Literatura nos moldes da educação escolarizada na França. Enunciativamente, a avaliação dirige-se ao avaliando, estabelecendo um elo na cadeia de atos de fala entre avaliando e avaliador. Ao mesmo tempo, o exame é a resposta a outros enunciados, provenientes da esfera educacional, dos conteúdos de literatura eleitos como necessários à formação do estudante de segundo grau e necessários à obtenção do título primeiro dos estudos de nível universitário. Assim, baccalauréat insere-se na corrente ininterrupta dos atos de fala através de sua enunciação precisa, através do texto que produz para seus avaliandos.

Além de intermediar o diálogo entre avaliando e escola, o exame ainda articula um outro diálogo ao mesmo tempo. Neste segundo diálogo concomitante ao primeiro, o État responde aos textos que ele recupera no corpus selecionado para a avaliação. Assim, o État estabelece uma relação dialógica responsiva com os autores Defoe, Valéry, Tournier e Chamoiseau cujo assunto específico é delimitado pelo recorte específico feito na seleção dos extratos que compõem tal coletânea. Ao mesmo tempo em que ele age de forma a responder a esses autores, ele também contribui para a legitimação do valor literário que eles carregam em si. Ao serem utilizados pelo État, os textos recebem um reforço na confirmação de seus valores literários perante a sociedade letrada da França.

Eis então dois diálogos concomitantes estabelecidos nessa rede enunciativa claramente manifestos no texto do caderno de provas.

É possível elencar aqui vários diálogos concomitantes que são travados em torno dessa enunciação específica, como a do État com os professores da rede de ensino público e privado, que confirma a necessidade do trabalho literário voltado tanto para os tipos de produção textual requeridos quanto para o tipo de leitura que é solicitada para responder aos itens propostos. O desvelamento dessas possibilidades de diálogo nos aponta como se forma a arena do signo com a recuperação das vozes que se apresentam para o embate em torno do signo ideológico baccalauréat.

Sobre o posicionamento social dos praticantes do contexto da enunciação, aproveitamos para lembrar que ele denuncia ao mesmo tempo a estrutura social que Volochínov (2013 [1930]) trata em seu texto. Quando État se coloca em posição de avaliar alguém, ao mesmo tempo ele se posiciona no topo de uma hierarquia social, que é legitimada pela própria sociedade. Assim, ele é o detentor da voz que orienta e organiza as práticas sociais responsáveis pela transposição do estudante de seu nível secundário ao seu novo nível, o universitário. O État enquanto promotor da avaliação é o detentor do direito de atribuir o título a este ou aquele avaliando, sendo o grupo de avaliandos ao mesmo tempo os candidatos ao título. Tal candidatura também é um modo de legitimar as práticas governamentais em torno da instituição do baccalauréat e de submeter-se ao sistema em vigor. Assim, participar deste grande evento ideológico é também exercer a sua cidadania.

No que diz respeito aos direcionamentos de resposta que o enunciador da avaliação pretende provocar em seus interlocutores, este é um ponto que responde ao projeto discursivo do avaliador. O État pretende conferir o título de bacharel aos que forem aprovados no exame. Para isso, é preciso que a nota mínima do avaliando seja igual a 10, dos 20 pontos que a prova vale. Se a nota atingida for entre 8 e 10 pontos, o estudante tem direito à nova submissão. Se a nota for inferior a 8 pontos, o candidato é reprovado. Assim, se por um lado o État tem como objetivo avaliar, o avaliando tem por seu objetivo corresponder às expectativas do État para ser considerado aprovado. Para tanto, o candidato busca responder positivamente a todas enunciações direcionadas a ele na prova.

Em prol da correspondência às expectativas do examinador, o aluno prepara-se durante o período letivo escolar para o exame. Assim, ao mesmo tempo em que a escola tem por objetivo formar o cidadão, ela também responde a esse projeto discursivo avaliativo do État preparando os alunos de maneira bastante específica para esta avaliação.

Ao observarmos o caderno de provas do baccalauréat acabamos por desvelar a teia de responsividade que se estabelece nos âmbitos ideológico, enunciativo e discursivo, ligando o poder condicionador das práticas sociais exercido pelo État e o eco de suas investidas discursivas propagando-se em outros níveis de interação, como o discursivo e o textual.

In document Idrettens økonomi og effektivitet (sider 57-68)