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Systemeffektivitet

In document Idrettens økonomi og effektivitet (sider 42-54)

Bakhtin em seu texto Gêneros do discurso (2010b), escrito entre os anos de 1952 e 1953 (FLORES: 1998), e publicado como adendo do livro Estética da Criação Verbal (BAKHTIN: 2010a), nos apresenta uma explicação chave que permeia toda a compreensão a respeito dos gêneros discursivos. A partir dessa explicação, exploramos os conceitos de base da discussão da segunda parte da tese para entender o percurso do raciocínio que parte da linguagem e se orienta em direção aos gêneros discursivos. Damos início pela seguinte:

Todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem. Compreende-se perfeitamente que o caráter e as formas desse uso sejam tão multiformes quanto os campos da atividade humana [...]. O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos [...]. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, [...] mas, acima de tudo, por sua construção composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso (BAKHTIN: (2010a, p. 261-262).

Procedemos agora a uma explanação teórica a partir do recorte feito do texto de Bakhtin (2010b) de modo a recuperar as discussões propostas na primeira parte da tese.

Começamos por compreender como se dá a dinâmica social através da linguagem. Esse é o modo que pretendemos evidenciar o que é linguagem, a partir de seu caráter social, a partir de sua condição de lugar da interação. O filósofo russo nos explica que todos os campos da atividade humana se organizam através dela. Portanto, apostamos que partir de um conceito de linguagem na perspectiva do Círculo nos propiciará melhores condições de discutir o que são os gêneros discursivos.

Concordamos com Geraldi (2013) no que diz respeito a delimitar a linguagem como um procedimento necessário para os estudos que tomam esse objeto como foco de análise.

Face ao reconhecimento, tácito ou explícito, de que a questão da linguagem é fundamental no desenvolvimento de todo e qualquer homem; de que ela é condição sine qua non na apreensão de conceitos que permitem aos sujeitos compreender o mundo e nele agir; de que ela é ainda a mais usual forma de encontros, desencontros e confrontos de posições, porque é por ela que estas posições se tornam públicas, é crucial dar à linguagem o relevo que de fato tem [...]” (GERALDI: 2013, p. 4-5).

A linguagem sonora existe porque também existiu uma necessidade da comunicação entre os indivíduos tão elaborada quanto os sistemas sociais que se desenvolviam em cada período histórico. O desenvolvimento dela atrela desde sempre uma perspectiva de leitura e interpretação do social a partir de um posicionamento bem marcado, ou seja, posicionamento ideológico. Assim, através da linguagem e da enunciação o homem forma seus esquemas ideológicos, como a ciência, a arte, a moral, o direito e também a consciência individual e coletiva.36 Dentro dos esquemas citados,

gostaríamos de dar destaque ao Estado, responsável pela implementação e execução das avaliações do Enem no Brasil e do baccalauréat na França.

Portanto, a necessidade de dizer algo a alguém também carrega em si valores ideológicos. É a partir da base ideológica que tal necessidade se ampara para existir. O modo de dizer, ou ainda, a complexidade da linguagem acompanha a complexidade do contexto no qual se dá a necessidade da comunicação. De qualquer forma,

36 Volochínov (2013[1930a]) explora o desenvolvimento da linguagem relacionado com a atividade econômica até mesmo no nível gramatical. No entanto, não exploramos minuciosamente seus estudos aqui porque nos interessa somente compreender que a linguagem é um efeito indissociável da ideologia e da enunciação.

independentemente do nível de elaboração da linguagem, a palavra comporta desde sempre duas facetas, como elucidam Bakhtin/Volochínov (2012[1929]): “ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém (p. 117 [grifos do autor].

Podemos voltar ao texto de Geraldi (2013), que nos afirma de igual modo que a interlocução é o espaço privilegiado de produção da linguagem e da constituição dos sujeitos. A linguagem pode ser depreendida em sua realidade somente na singularidade do momento da enunciação. O autor ainda nos chama a atenção para o fato de que a interlocução, enquanto espaço da interação verbal, merece ser observada tendo-se em mente que a língua não está pronta de antemão, esperando para ser usada. Ela se constitui no momento da interlocução. Da mesma forma, os sujeitos não são artesãos que manuseiam a linguagem como um objeto a ser trabalhado, mas eles se constituem a partir dela, e somente nos momentos de interação através da linguagem é que são constituídos como sujeitos através dela.

Nessas primeiras considerações a respeito da linguagem, podemos já afirmar que ela é a ponte que liga os sujeitos em interação. A linguagem pressupõe a interlocução, a interação verbal, a necessidade de se dizer algo a alguém. Assim, um dos motores vitais da linguagem é a enunciação. Volochínov nos explica que “a essência efetiva da linguagem está representada pelo fato social da interação verbal, que é realizada por uma ou mais enunciações” (2013[1930b], p. 158).

Pensar sobre a linguagem é pensar no terreno sobre o qual se constituem os sujeitos e a própria sociedade. É nela que estão impregnados os valores sociais formadores do signo ideológico. É nela também que a estabilidade ilusória do signo ganha campo ao mesmo tempo em que dá corpo para a herança sígnica. A linguagem é o campo de constituição das ideologias e também o lugar onde elas se manifestam.

A linguagem é o meio pelo qual o sujeito se constitui enquanto tal perante a sociedade. Ela é o campo mais fértil da atividade humana. Tudo que é social passa pelo crivo da linguagem. E passar por este crivo é participar de um projeto interlocutório, um projeto que visa colocar em interação pelo menos dois sujeitos e uma infinidade de mundos que dialogam nas vozes deles.

Quando pensamos mais especificamente nas avaliações aqui estudadas, o Enem e o baccalauréat são avaliações, atividades sociais e modos de interação que se dão no âmbito da linguagem. Assim, definir o que é a linguagem é também definir o campo no qual atuam as forças ideológicas que determinam socialmente o papel dessas duas avaliações. Se, como afirmou Volochínov, a linguagem desenvolveu-se e tornou-se complexa de acordo com o desenvolvimento da sociedade, podemos considerar que as avaliações são um exemplo de quão complexa a sociedade se tornou. Veremos mais a seguir que Enem e baccalauréat promovem uma interação bastante complexa, mas que, assim como todos os eventos que se servem da linguagem, pautam-se nas mesmas bases enunciativas dos eventos menos complexos. Sendo os dois exames exemplos de linguagem em ação, também poderemos verificar como eles se prestam à veiculação de ideologias e como eles promovem o diálogo entre os interlocutores num plano imediato e ao mesmo tempo as ideologias no plano mais amplo.

Como se pode observar na delimitação na linguagem, não é possível caracterizá- la fora do meio social, fora do campo de interação entre sujeitos. O próximo conceito que trazemos é o elemento real da linguagem, é o que evidencia o estabelecimento da ponte interativa entre os sujeitos: a enunciação.

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