O Celpe-Bras é o Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros. Destacamos um trecho do texto de apresentação do exame, no site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP)17:
Desenvolvido e outorgado pelo Ministério da Educação (MEC), aplicado no Brasil e em outros países com o apoio do Ministério das Relações Exteriores (MRE) é o único
certificado de proficiência em português como língua estrangeira reconhecido oficialmente pelo governo do Brasil. Internacionalmente, é aceito em empresas e
instituições de ensino como comprovação de competência na língua portuguesa e no Brasil é exigido pelas universidades para ingresso em cursos de graduação e em programas de pós- graduação, bem como para validação de diplomas de profissionais estrangeiros que pretendem trabalhar no país. (Grifos nossos)
Como salienta Bizon (2013), a institucionalização da obrigatoriedade do Celpe-Bras para os casos de revalidação de diplomas de diferentes categorias profissionais, assim como para obtenção de bolsas de estudos, tanto de graduação como de pós-graduação, oferecidas por convênios como o PEC-G, contribuiu para o fortalecimento do exame, que pode ser considerado um exame “altamente relevante (high-stakes)”, visto que “decisões importantes são tomadas a partir de seus resultados” (SCARAMUCCI, 2008, p. 179).
O exame é aplicado duas vezes por ano: uma no primeiro semestre, entre março e abril, e outra no segundo, geralmente em outubro.
Constituído por duas partes – uma escrita e uma oral (com duração, respectivamente, de 3 horas e de aproximadamente vinte minutos) –, o Celpe-Bras é hoje aplicado em 29 instituições no Brasil e em outras 65 estrangeiras18. Como esclarece o Manual de Orientações para os
Coordenadores de Postos Aplicadores do Celpe-Bras, o exame,
por ser de natureza comunicativa, não busca aferir conhecimentos a respeito da Língua Portuguesa por meio de questões sobre gramática e vocabulário, mas sim avaliar a capacidade de uso dessa língua, independentemente das circunstâncias em que fora aprendida. A proficiência do/a examinando/a é avaliada a partir de seu desempenho em tarefas que exigem compreensão escrita e/ou oral e produção escrita e em uma Interação Face a Face com um/a avaliador/a-interlocutor/a (AI). Ou seja, práticas de uso da língua semelhantes às que um/a estrangeiro/a que pretende interagir em português pode vivenciar em seu cotidiano (BRASIL, 2016 [2006])19.
Assim, através do exame pretende-se qualificar a habilidade do/a examinando/a de produzir textos que o auxiliem a interagir na sociedade, tendo em vista “propósitos comunicativos e interacionais precisos e específicos e convenções linguístico-discursivas que regulam as interlocuções na Língua Portuguesa” (BRASIL, 2016 [2006]).
Sendo essa a natureza do exame, faz-se necessário destacar também seu efeito retroativo na produção de materiais didáticos e no ensino de PLA em geral20. Bizon (2013) observa que predominam ainda
os materiais que apenas fazem uso de algumas atividades comunicativas em sua base ainda estruturalista e situacional. Ela salienta que, mesmo assim, se observam iniciativas para a produção de materiais didáticos consonantes com as concepções de linguagem, de proficiência e de ensino de Língua Adicional próximas às que sustentam o Celpe-Bras e que há,
18 Segundo informações obtidas no site: <www.inep.gov.br/celpebras>. Acesso em: 09 set.
2016.
19Disponível em
<http://download.inep.gov.br/outras_acoes/celpe_bras/estrutura_exame/2015/manual_d o_aplicador.pdf>. Acesso em: 10 nov. 2016.
por parte de pesquisadores e professores da área de PLA, o reconhecimento da importância do exame.
O efeito retroativo do Celpe-Bras é perceptível também nas práticas realizadas no Curso de PLA para Candidatos ao PEC-G. Apesar de o curso, a nosso ver, visar ao ensino de português não só para a realização do exame em si, mas para preparar o estudante de modo que este seja capaz de utilizar o português para comunicar-se em diferentes práticas em que se envolva durante o seu tempo no Brasil – para a comunicação com brasileiros e outros falantes de português no seu dia a dia, para a realização de provas e trabalhos no contexto acadêmico etc. –, professores e estudantes envolvidos no curso não se esquecem de que, se reprovado no Celpe-Bras, o estudante não poderá permanecer no país para cursar sua graduação em uma IES brasileira e, mesmo depois de um ano de investimento de tempo e recursos para aprendizagem da língua portuguesa, perderá seu vínculo com o programa e terá de voltar ao seu país.
A exigência do Celpe-Bras para participação no programa tem grandes impactos no modo como o Curso de PLA para Candidatos ao PEC-G se constitui e nos materiais utilizados em aula, assim como nas práticas de ensino-aprendizagem e avaliação desenvolvidas pelos professores e estudantes. Em minha experiência nos anos como professora do curso, tive ciência apenas dois casos de reprovação dos estudantes atendidos em nossa instituição. Um de meus alunos da edição de 2008 do curso foi reprovado e não pôde continuar no programa. Outro estudante, da edição do curso de 2015, não conseguiu obter a certificação em uma primeira tentativa, mas, após um alto índice de reprovação de estudantes do PEC-G vinculados a diferentes IES para estudar o português, o MRE resolveu oferecer uma segunda oportunidade para esses alunos. O estudante mencionado conseguiu sua certificação
nessa segunda oportunidade e pôde permanecer no Brasil para iniciar seus estudos no ano seguinte21.
O fato de termos alcançado, até o presente momento, tais índices de aprovação em nossa instituição, não significa que a exigência do Celpe-Bras não cause bastante ansiedade, tanto para estudantes quanto para as professoras envolvidas no curso. Em um texto produzido em sala de aula na edição do curso de 2016, uma estudante camaronesa escreveu: “Conseguir o Celpe-Bras é a chave de nosso futuro, uma grande oportunidade para nós de realizar nossos sonhos”. Observamos que o Celpe-Bras é significado não como uma, mas como “a chave para o futuro”. Sem essa certificação, ela não terá a possibilidade de realizar sua graduação no Brasil pelo programa para o qual está se candidatando, o que implicaria, segundo o que ela escreve, não realizar seus sonhos.
Nas considerações finais de sua tese de doutorado, após observar a história de quatro estudantes congoleses conveniados ao PEC-G, Bizon (2013) conclui que
tanto o Celpe-Bras, com a conceituação teórica que o baliza, quanto o PEC-G, com seu protocolo e normas de funcionamento, ambos constituintes da política de cooperação oferecida pelo Brasil a países em desenvolvimento, delinearam-se como instrumentos que incidiram fortemente sobre as vidas dos estudantes e, de seus posicionamentos, emergiram performances estreitamente relacionadas aos processos de des(re)territorializações vividos [...] (BIZON, 2013, p. 323)
A realidade observada por Bizon (ibidem) também se configura no contexto em que se deu nossa pesquisa. Como expresso anteriormente, ainda que a preparação para o Exame Celpe-Bras não seja o objetivo único do Curso de PLA para Candidatos ao PEC-G, é, definitivamente, seu foco. Mesmo que nós, professoras do curso, busquemos trabalhar
21 Tendo sido reprovado na segunda edição do exame, em 2015, o estudante só pôde prestá-
lo novamente na edição do primeiro semestre de 2016. Como os resultados normalmente demoram aproximadamente dois meses para serem liberados, e o estudante dependia dele para renovar seu visto de estudante, não foi possível que ele iniciasse o curso ainda em 2016. Por isso, o estudante começará seus estudos na graduação somente no primeiro semestre
por meio de diferentes práticas no seu decorrer, de forma a sair da rotina de apenas um “preparatório” para o Celpe-Bras, o exame, invariavelmente, é para nós um guia. Em alguns momentos, quando propúnhamos atividades fora da sala de aula, como entrevistas com outros estudantes, rodas de debate, visitas a museus, a pontos turísticos populares da cidade ou para atividades dentro do próprio campus da universidade, certos estudantes perguntavam-nos em que momento voltaríamos a tratar do Celpe-Bras, não entendendo que, enquanto discutiam sobre temas polêmicos e participavam de debates e outras práticas dentro e fora de sala, estavam, ao mesmo tempo, preparando-se para diferentes situações com que se deparariam em sua vida no Brasil, dentro e fora da universidade, e para o Celpe-Bras. Era um desafio constante convencê-los de que tudo o que estávamos propondo em sala lhes serviria de preparo não só para o Celpe-Bras, mas também para essas diversas práticas discursivas.
Na próxima seção, apresentamos o contexto do Curso de PLA para Candidatos ao PEC-G em sua edição de 2015, âmbito em que se desenvolveu o Projeto Pelo Mundo, assim como os participantes deste estudo.