O Trabalho Social é definido pelas palavras da gestora do GAV em que intervir é “tentar em conjunto com as mesmas melhorar ou de apresentar ou de apresentar algumas alternativas melhores de um projeto de vida para as próprias.” (E. 7) É, neste sentido, que abordamos o Trabalho Social e a maneira de como a Educação Social estão presentes na APAV. O Trabalho Social como forma de intervenção para com o indivíduo e a Educação Social como ferramenta desse mesmo trabalho a desenvolver junto do indivíduo ou comunidade.
O trabalho dos voluntários também passa por desenvolver as suas próprias competências e, perante a evolução e a autonomia que vão adquirindo consoante a sua atuação, deixa de ser tão pertinente a necessidade de uma supervisão mais atenta do trabalho desenvolvido. Ou seja, tornam‑se autónomos nos seus atendimentos e encaminhamentos: “pessoas têm autonomia que têm, conforme a experiência, não é? Também precisam de adquirir a experiência. Há técnicos que já têm três ou quatro anos de estarem comigo, portanto já controlam perfeitamente os procedimentos, outros estão aprendendo.” (E. 7) Porém, há decisões que apenas a gestora poderá tomar e agilizar: “Conforme a decisão. Por exemplo, esta decisão de retirar as crianças a esta família, esta decisão tem de passar pela gestora.” (E. 7)
O desenvolver destas competências irá fazer com que o técnico consiga prestar um melhor apoio e capacitar e desenvolver as competências emocionais e pessoais da vítima, para que esta consiga sair do ciclo de violência em que se encontra: “A pessoa sente‑se pequenina outra vez, é novamente criança, tem de aprender a andar e o nosso papel é ensinar a andar, ajudar para que a pessoa se levante e comece de novo, sozinha. Porque a pessoa tem os recursos, nós não damos nada a ninguém, a pessoa tem lá os recursos, mas foram abafados por tanto tempo… a pessoa é que pensa que não os tem, estão ali em banho‑maria, o que temos de fazer é com que a pessoa realmente vá utilizar novamente os seus recursos.” (E. 5)
74 O técnico é o primeiro meio de resposta face à violência doméstica, é a partir deste que a vítima de violência doméstica começa por reconhecer e a conhecer os padrões de violência a que se encontra exposta.
A violência é o resultado da existência de uma ordem hierárquica, ou seja, trata‑se de alguém que julga que os outros não são tão importantes como ele próprio e que esta é uma atitude que abre a porta à violência nas relações (Machado & Gonçalves, 2003, p. 55).
No reconhecer de atitudes e comportamentos violentos e capacitar a vítima de meios de reposta à situação vivida é um dos trabalhos presentes no TAV. Um aspeto realçado muito importante que vai ao encontro dos princípios da Educação Social é incutir competências ao indivíduo e desenvolvê‑las para que seja o mesmo a atuar por si: “Não é fazer as coisas pela pessoa, é orientá‑la e dar‑lhe um sentimento de autoeficácia, afinal eu consigo, afinal eu estou a fazer, estou a procurar, afinal estou a tratar das coisas.” (E. 5) Este sentimento de autoconfiança e também de autoestima são trabalhados nos encaminhamentos psicológicos, pois há vítimas muito desamparadas e perdidas “por vezes acontece, «Não tenho forças!» Daí que seja muito importante o apoio psicológico, que não para toda a vida, mas é para quê? Para essa pessoa que está nessa confusão mental, «O que eu faço?»” (E. 5)
O empowerment, segundo International Federation of Social Workers, o TAV bem como educador social devem promover a mudança social e o desenvolvimento social, pois assim dar‑se‑á o reforço da capacitação e da emancipação das pessoas. O trabalho do técnico da APAV recai na capacidade de se colocar no lugar do outro e numa relação baseada no diálogo e na valorização das competências da vítima, havendo desta maneira o reforço emocional da vítima de violência doméstica: “Volta atrás e isso acaba por ser um pouco difícil, mas nós ajudamos com que ela consiga tomar a atitude, não é? Que consiga pensar na vida dela, numa vida melhor, mas nós não podemos decidir por ela, nem podemos impor. É o trabalho, ela é que tem de decidir, nós podemos desencadear essa mudança, e acredito que é fundamental, mas impor não, ela é que tem de decidir o que é realmente a fazer se quer fazer denúncia, se não quer. Por isso, deixamos a vítima bem à vontade nesse sentido.” (E. 6)
Essas competências são trabalhadas e a perspetiva é a da vítima tomar consciência das suas competências pessoais e emocionais e ser ela mesma a querer a mudança: “as estratégias que têm para combater esse sofrimento, já foram desenvolvidas e a pessoa está ali para se defender, até mesmo emocionalmente, para não sofrer, já sabem o que fazer, já têm respostas
75 automáticas” (E. 5) As respostas automáticas mencionadas realçam o desculpar ou desconsiderar das atitudes do agressor, as justificações do comportamento do agressor por parte da vítima, resulta na perpetuação da violência doméstica ou a desvalorização ou a não aceitação que de facto aquela pessoa está numa relação violenta: “Infelizmente ainda continua por haver situações drásticas, situações extremas, agora uma coisa é saber e outra coisa é viver a situação em casa e ter a coragem de até assumir para si própria que é vítima de crime, tomar uma decisão, que é perfeitamente compreensível. As pessoas vêm aqui e não se sentem vítimas, não é um crime e depois são informadas de que é um crime: «Era o que eu achava!» Mas é difícil de a pessoa acreditar naquilo, que aquela realidade é… de convencer‑se, de verbalizar tudo, é difícil.” (E. 5)
Um fator que contribui para a perpetuação da violência doméstica é a não‑aceitação da situação enquanto vítimas de violência doméstica, “há muitas pessoas que são vítimas e não nos procuram e são, têm todos os padrões de vitimização, vê‑se, conversa‑se e percebe‑se, são pessoas que sabem que é crime e tudo e não nos procuram, mas muitas não têm a perceção, como lhe disse, que são vítimas, ou se têm tentam esconder e não querem acreditar, não querem ver as coisas realmente, é preferível não ver.” (E. 5) Muitos dos casos registados no GAV mencionam a vergonha, este sentimento é muitas das vezes um inibidor, a vítima prefere dissimular ou desconsiderar a situação em que se encontra a admitir que tem um problema ou que é vítima, “acredito que seja ainda mais um pouco a vergonha, de admitir que é uma vítima ou ter que ir lá. Sabem que existe um apoio…, mas o facto de ganhar coragem e de se expor…” (E. 6)
Muitas das vezes a questão da vergonha em se assumir como vítima e que precisa de ajuda, resulta que o contacto telefónico ao invés do presencial seja preferido, o que justifica estatisticamente como o contacto primordial: “às vezes o contacto acaba por ser telefónico, não têm coragem de vir até ao gabinete, acaba por ser via e‑mail, também temos atendimento que respondemos por e‑mail acaba por ser um pouco… isso, por vergonha.” (E. 6)