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6 Datainnsamling, og funn

6.3 Oppsummering av funn knyttet til 27 case

A maioria das educadoras vê o abrigamento como um momento de sofrimento intenso tanto para as crianças quanto para elas próprias. Assim, a chegada de uma criança na Casa, ou mesmo sua saída, é para todos de muita tensão, despertando um emaranhado de sentimentos e emoções, como por exemplo, tristeza, piedade, nervosismo e raiva, que acabam por mobilizar angústia bastante intensa. O recorte abaixo expressa com muita clareza essa complexidade:

[...] a última criança que nós abrigamos aqui ... que eu tava presente e tal. Logo que ela acabou de ser abrigada, foi troca de plantão, nós pegamos ... até foi lá na casa de cima. Era uma criança de dois anos, minto, um aninho – ela chorava demais, extremamente; não aceitava ninguém porque a hora que ela acostumou com aquela determinada monitora era troca de plantão. Então ela ficou perdida da mãe, perdida daquela monitora; ela amamentava ainda na mãe. [...]Então acho muito difícil ... abrigamento .... ai é muito complicado. Mesmo que agita toda a casa, o ambiente fica totalmente alterado. Todo mundo com os nervos a flor da pele: aqui eles revivem tudo que eles passaram, a perda dos pais, entendeu? [emociona-se] ai, é triste! Então ela teve duas perdas né – mãe e o peito de uma vez, teve que cortar. Então, foi muito angustiante, depois que vc é mãe, tudo, muda totalmente isso. A gente fica mais sensível. A gente começa a ver as coisas como se fosse nossos próprios filhos. [fica bastante emocionada] então ela me marcou muito, ela até ta aqui com a gente por causa disso. Na hora que ela tirou da mãe, o afeto que ela tinha, a parte que ela tinha, e agora ela nem ... nem ... acho que ela ficou ... não sei ... morreu um pedaço dessa mãe para ela, porque a mãe vem na visita, ela nem ‘tium’ para essa mãe. Fica um pouquinho no colo, mas nem tem mais aquele vínculo que tinha. E os irmãos sim. Os irmãos choram muito quando ela [mãe] vai embora. [...] Então acho muito difícil ... abrigamento .... ai é muito complicado[...]. (Ana)

A dificuldade, tanto por parte das crianças como das educadoras, estaria, como aparece no próprio relato acima, ligada a questões de rompimento/estabelecimento de vínculos. Nessa direção, percebe-se que, a maioria das educadoras fica bastante mobilizada com a condição das crianças abrigadas de serem separadas de suas famílias. A separação dos pais é sentida por elas como traumática para a criança. Assim, a passagem pelo abrigo acaba sendo

considerada uma marca negativa na vida da criança. Nesse sentido, abrigar é, antes de mais nada e unicamente, submeter a criança à uma situação traumática:

Eu acho o abrigamento um trauma pras crianças, acho que é uma coisa que não vai sair mais da cabeça, não vai sair da vida da criança mais, por mais que ela cresça e tudo eu acho que aquele momento vai ficar registrado porque é um momento de separação né, é muito duro você ser separado de pai, de mãe assim né, eu acho que é muito sofrido. Pra gente e pra casa é um transtorno quando é abrigada uma criança porque desestrutura a casa inteira porque as crianças ficam agitadas. Chega uma criança abrigada a criança já vem chorona, revoltada, não quer comer, não quer dormir, não quer nada, então pra casa é um transtorno. Agora pra eles eu acho muito sofrido, acho muito injusto com eles, eles são as vítimas e têm que sair da casa deles sendo a vítima, não acho justo essas coisas não, eu acho que a criança que passa pelo abrigo fica marcada pelo resto da vida. (Luiza)

Lado a lado à idéia de que abrigar é provocar sofrimento, trauma, surge também a concepção de abrigamento como medida de proteção contra uma família que maltrata e negligencia:

[...] olha pra mim o abrigamento é uma medida de proteção pra criança. Eu não sei se ... eu acho que tem hora que realmente não tem saída, tem que ter uma intervenção pra ver se muda a situação [...]. (Thaís)

[...] então, abrigamento. Crianças que sofrem por maus tratos, né. eu acho que é isso. E ai ééé... com se diz ... o conselho vai atrás, às vezes, por denúncia e tal. Ai pegam as crianças dos pais, traz para a casa para eles poderem ter uma vida melhor, mais saudável, né. não sei, acho que é isso.

(Thelma)

Abrigamento pra mim parte do princípio de não... Da criança não ter condições adequadas em casa, algumas sofreram maltratos e assim precisar de abrigo, de uma proteção que não está tendo na família. (Lia)

Mais raramente é expressa a idéia de que o abrigo, apesar de não ser um “lugar ruim para a criança”, deveria ser o último recurso em relação a outros cuidadores:

[...] bom, por um lado ... eu acho assim ... como que eu posso te dizer .... tem casos ... eu acho assim que precisa mesmo, que a família não tem condições, mas eu acho que primeiro eles teriam que ter um jeito, ou alguém, um parente, alguma coisa para ta deixando essas crianças. Acho assim, que no último caso seria aqui mesmo. Não que aqui seja um lugar ruim, não resta dúvida que não. Só que eu acho assim, que tinha que tentar, no caso, criança vindo para cá, os pais não tem condições, ou um parente, sei lá; um padrinho, uma madrinha, no último caso, se não tivesse recurso mesmo, viria para cá. Que assim, aqui é um lugar assim, lógico, não é tão bom porque ta longe do pai e da mãe, mas a gente dá o possível para eles. Mas no caso ... coisa e tal ... se não tivesse ninguém da família; mas há vários casos aqui que têm, então, né![...]. (Dora)

Entretanto, expressivas falas retratam sucessivos abrigamentos das mesmas crianças, denunciando o desrespeito aos princípios da provisoriedade e excepcionalidade:

Tem crianças que chegam aqui ... já foram abrigadas três, quatro vezes [...].

(Ana)

Então tem crianças de bastante tempo que vem aqui, tem crianças que foram; vieram, foram embora e voltaram, sabe, faz esse jogo de ... [...] de repente tem uma criança nova ai, eu to aqui, as monitora “já veio de novo”. Tava vendo? Foi e veio de novo, sabe? É um vai e vém por causa de quê? [...]. (Aline)

Se o relato das educadoras é ouvido como uma denúncia que explicita à forma inadequada com que o abrigamento vem sendo realizado, sua causa pode ser considerada a ausência de um trabalho com as famílias: em virtude dela, o que há é um mecanismo de “vai e vêm de crianças”:

Então, foi abrigada uma vez ... vem a segunda com um irmãozinho, a terceira com outro irmãozinho... e não vai mudar nunca! Se não fizer um trabalho com os pais, com a família essa situação não vai mudar! Ela vai continuar nessa de abrigamento, desabrigamento, abrigamento [...] Tem crianças que chegam aqui ... já foram abrigadas três, quatro vezes [...].

(Ana)

Uma coisa que eu acho errado é que deveria trabalhar a família né, às vezes isso... não sei o que acontece que as crianças vão embora e depois voltam e

as crianças acabam sofrendo mais do que se tivesse ficado aqui direto. Eu acho que essas coisas de ir e voltar não teria que acontecer [...]. (Keila)

Diante da ausência de outras intervenções que não o abrigamento, ao lado do sentido de sofrimento inerente a ele, somente resta, para a criança, a possibilidade de uma experiência negativa:

[...] olha pra mim o abrigamento é uma medida de proteção pra criança [...] Mas, eu nem sei se resolve porque a criança é abrigada e não se faz nada com a família. Então eu acho que ... olha, é um sofrimento enorme pra criança. Às vezes, ela acaba voltando para essa família, vivendo do jeito que tava. Volta pro abrigo. Então eu nem sei viu. (Thaís)

Embora não predominantemente, aparece ainda a idéia do abrigo como instituição de caráter correcional, emaranhada com a idéia de castigo:

Punição por uma coisa que não fez porque a culpa geralmente não é deles, é do pai, da mãe, da família, são poucos os casos que a criança veio porque ela tá fazendo alguma coisa errada, a maioria não é a criança. [P: Mas tem

esse tipo de caso também?] Tem, às vezes tem meninos porque fica pra rua e

não vai na escola, às vezes tem muitos que vêm porque tá mexendo com drogas, é a minoria, a maioria é por causa de pai, mãe, violência, essas coisas. (Luiza)