O modelo biomédico não consegue explicar a discrepância entre pessoas sem lesões na coluna e com um quadro álgico intenso e outras pessoas com alterações degenerativas marcadas mas sem queixas (Burton, 2005). Era comum atribuir a evolução desfavorável da lombalgia à intensidade da dor. Contudo, Epping-Jordan (1998), num coorte de 78 pessoas estudadas aos 2 meses, 6 meses e 12 meses, não encontrou relação entre a intensidade da dor e a evolução desfavorável da lombalgia. Este e outros estudos sugerem a existência de outros factores, para além dos biológicos, na passagem da lombalgia à cronicidade (Mannion et al., 1996; Waxman et al., 1998; Thomas, 1999). Na mesma linha
de investigação, Linton e colaboradores consideram que os factores psicossociais podem ser mais importantes que os biomédicos ou biomecânicos nos doentes com lombalgia crónica (Linton et al., 2000a). Para Andersson (1999) nos factores não biológicos, responsáveis pela evolução arrastada da lombalgia, podem incluir-se: a ansiedade, a depressão, o stresse e a imagem corporal negativa. Pincus (2002) considera que os factores psicossociais fazem parte do dia a dia das pessoas e define-os como: atitudes, crenças, medos, estado emocional, factores sociais e variáveis ligadas ao trabalho. Estes factores psicossociais têm vindo a ser implicados na passagem da lombalgia de aguda a crónica que por sua vez vai interferir com a actividade profissional, familiar e social do doente (Kendal et al., 1997). Bandeiras amarelas foi a designação dada aos factores psicossociais que podem funcionar como avisos de evolução da lombalgia para uma situação crónica. Nestes factores incluem-se: a atribuição à lombalgia de uma gravidade superior à real, a redução dos níveis de actividade física por receio de a lombalgia ser agravada pelo movimento, a tendência ao isolamento evitando a interacção social e a convicção de que o tratamento não necessita do esforço do próprio. O “Acute Low Back Pain Screening Questionnaire” é
composto por 24 questões que permitem quantificar o risco dos factores psicossociais contribuírem para uma evolução desfavorável da lombalgia (Kendal et al., 1997). Os mesmos autores sugerem que as bandeiras amarelas podem ser combatidas através de uma série de medidas, junto da pessoa com lombalgia, que incluem: criar expectativas de evolução favorável, acompanhar a pessoa registando regularmente a sua evolução, manter a pessoa o mais activa possível, fomentar a manutenção das rotinas diárias, tentar manter uma cooperação com a pessoa e a sua envolvente laboral, fazer a pessoa sentir que quanto mais tempo estiver afastada da sua actividade mais difícil será retomá-la, explicar que não é necessário esperar pela cura completa para retomar a actividade e incutir a convicção de que o próprio pode controlar a dor. Linton (2000) fez uma revisão da literatura científica
sobre a influência das variáveis psicológicas a nível das dores na coluna. Para essa revisão foram seleccionados 37 estudos que não apresentavam problemas de metodologia a nível da amostra, das variáveis psicológicas ou dos resultados. A análise dos artigos revelou que as variáveis psicológicas desempenham um papel importante não só na dor crónica, mas também na transição da dor aguda para crónica. Contudo, as variáveis psicológicas explicam só parte da variância o que atesta a natureza multidimensional da dor na coluna. Ainda Linton et al. (2000a) investigaram a associação entre os factores psicológicos, a incapacidade funcional e níveis moderados de dor na coluna. Foi usada uma amostra com 720 pessoas, seleccionadas da população normal, nas quais se incluíram 449 sem dor e 271 com dor moderada. A análise estatística mostrou que o distresse, a sensação de excesso de trabalho, o abuso sexual e a catastrofização estavam associados à dor na coluna. Burns (2006) lançou uma ponte entre os factores psicossociais e a lombalgia ao valorizar o aumento da tensão muscular devida ao stresse. Segundo o autor os factores psicossociais contribuem para o stresse que, por sua vez, aumenta a contracção muscular que impede a dinâmica normal da coluna causando uma sobrecarga que conduz à lombalgia.
Devido à falência do tratamento médico convencional, por um lado. e à importância progressiva dos factores psicossociais, por outro, as intervenções comportamentais têm surgido como alternativa. Estas intervenções baseiam-se sobretudo no retomar da função perdida e na melhoria da qualidade de vida enquanto a terapêutica médica se centra no alívio da dor. Na década de 90, Slater, Doctor, Pruitt, e Atkinson (1997) estudaram 34 doentes com dor lombar crónica dos quais 17 foram submetidos a tratamento médico e os restantes receberam uma intervenção comportamental com o mesmo tipo de medidas, de forma aos grupos serem comparáveis. A intervenção comportamental incluiu: educação dirigida acerca dos mecanismos da lombalgia, incentivo à actividade física, planeamento de actividades, reforço da funcionalidade e treino na resolução de problemas. Os resultados
do estudo demonstraram a importância da terapêutica comportamental que actuou de uma forma mais ampla a nível da pessoa não se limitando aos factores biológicos da terapêutica convencional. Linton e Ryberg (2001) estudaram os efeitos de um programa de terapia cognitiva e comportamental num grupo de 253 pessoas, não doentes, com dores na coluna. As pessoas foram dividias em dois grupos: um recebeu terapia cognitiva e comportamental e o outro terapia médica. A avaliação ao fim de um ano mostrou melhores resultados no grupo sujeito a terapia cognitiva e comportamental em termos de menos dor, menor recidiva e redução do absentismo. Hoffman et al. (2007) fizeram uma meta-análise de 22 artigos com estudos randomizados onde foram usadas intervenções psicológicas em adultos com lombalgia crónica. Os artigos foram seleccionados por dois revisores independentes que confirmaram a qualidade dos estudos e a presença das variáveis escolhidas para análise: intensidade da dor, estado emocional, incapacidade, qualidade de vida, resultado do tratamento, utilização do serviço de saúde, número de visitas ao médico, consumo de medicação analgésica e indemnizações por incapacidade. Os resultados confirmaram a importância benéfica da terapêutica psicológica.
Através da revisão da literatura sobre os factores psicossociais verifica-se que a sua influência é incontornável. Contudo, há uma necessidade de aprofundar não só os mecanismos de actuação destes factores como também as terapêuticas psicológicas que podem ajudar a modificar a evolução da lombalgia.