5.5 Syklustider
5.5.7 Opprensk
“Velhice é um fenômeno biológico (...), acarreta conseqüências psicológicas (...), como todas as situações humanas, ela tem uma dimensão existencial: modifica a relação do indivíduo com o tempo e, portanto, sua própria história.” (Beauvoir, 1990, p.15)
O tema envelhecimento muito tem enriquecido as discussões médicas, filosóficas, políticas, culturais e sociais em todo o mundo.
O envelhecimento populacional é universal, e não mais um privilégio dos países desenvolvidos.
“(…) já em 1960, mais da metade das pessoas com mais de 65 anos vivia nos países de terceiro mundo (…)” e “(…) projeções demográficas indicam que, de 1980 até o final do século, cerca de três quartos do aumento da população ocorrerão em tais países”
(Kalache, et al., 1987, p. 200).
No Brasil, com o aumento sensível da expectativa de vida, a discrepância na distribuição de rendas, o sistema de saúde precário, o grande número de doenças crônico-degenerativas incapacitantes nos põe frente à constatação do total despreparo para dar o atendimento a uma população que envelhece. Essa nova realidade é um desafio. Para muitos estudiosos, isto pesa de modo desfavorável no processo de envelhecimento do nosso país. Vejamos o que comenta Ferrari (1999, p. 201) sobre isto:
“O processo de envelhecimento caminha de maneira ascendente e chegou num momento de crise econômica em que as desigualdades e os problemas sociais parecem recrudescer”.
O processo de transição demográfica no Brasil caracteriza-se pela rapidez com que o número de adultos e idosos vem alterando a pirâmide populacional, diferentemente dos países desenvolvidos onde essa transição ocorreu de forma lenta e progressiva ao longo de mais ou menos cem anos.
Como em outros países da América Latina, o envelhecimento no Brasil é predominantemente nas áreas urbanas, sendo resultado do movimento de migração que teve início na década de sessenta em busca de empregos nas indústrias, estimulado pela política de desenvolvimento da época. Essa população começou a ter acesso aos serviços de saúde e saneamento além de programas de planejamento familiar e métodos anticoncepcionais o que levou à diminuição das taxas de mortalidade e fecundidade respectivamente.
As regiões mais urbanizadas são a Sudeste e a Sul, locais onde a população idosa tem seu maior contingente. Segundo o Censo do IBGE (1991|2000) – esta população é de 97.520.027 habitantes acima de 60 anos de idade.
Projeções para 2025 mostram que o Brasil terá a sexta maior população de idosos do mundo, em torno de 32 milhões de pessoas com 60 anos de idade e mais (Ramos, 2002).
Com todas as dificuldades ainda por serem vencidas, não restam dúvidas sobre os avanços, com as conquistas tecnológicas no campo da Saúde, em especial, vacinas, antibióticos, quimioterápicos, meios diagnósticos mais precisos que favorecem a prevenção de doenças, cura de algumas e promoção da saúde. Este conjunto de medidas levou a queda da mortalidade infantil, e a um aumento na expectativa de vida ao nascer que para nós passou de 37,7 anos em 1900 para 68 anos de idade em 2000 (Gordilho et al, 2000).
Com o aumento da expectativa de vida, têm-se hoje famílias constituídas por várias gerações, que têm a necessidade da convivência, tolerância, comunicação para o bem viver.
A feminilização do envelhecimento já se faz evidente em todo o país. Para Veras; (1994), há três fatores que influenciam diretamente a maior sobrevida das mulheres idosas: diferença de exposição às causas de risco de trabalho, pois acidentes de trabalho acontecem mais com homens; diferenças de consumo de álcool e tabaco, fatores de risco para o surgimento de doenças coronarianas e cerebrais, embora atualmente as estatísticas mostrem que os números estejam mudando; diferenças de atitudes em relação à doença, pois as mulheres são mais atentas ao aparecimento delas e como usam mais os serviços de saúde, têm a oportunidade de terem diagnósticos mais precoces.
Mesmo com o maior número de mulheres na população, observa-se que, no momento no qual mais se precisa da família, como unidade indispensável e importantíssima para o cuidado e apoio aos mais idosos, vê-se um período de conflitos sociais, emocionais, econômicos, religiosos, conjunturais e culturais (Debert, 1998)
O número crescente de divórcios, segundo e terceiros casamentos, busca incessante de empregos, mulheres querendo e necessitando trabalhar, muitas delas sendo o chefe da família, fatos que concorrem para a instabilidade familiar. A liberdade, a autonomia nem sempre vem acompanhada de responsabilidade e compromisso, o que pode muitas vezes trazer à tona o caos. A quem cabe, nos dias de hoje, com essa vida de compromissos que se somam e se acumulam, com os riscos constantes da perda do emprego, com a competição ferrenha e luta diária por um lugar na sociedade, o papel de ‘cuidador’ dos seus idosos?
Associado à transição demográfica, observa-se a mudança epidemiológica. A expectativa de vida média do brasileiro aumentou quase vinte e cinco anos nesses últimos cinqüenta anos, e a expectativa de vida ao nascer era de 63 anos para homens e 65 anos para mulheres segundo o último Censo do IBGE (1999/2000).
Em menos de quarenta anos, o perfil epidemiológico mudou de doenças infecciosas para crônico-degenerativas, próprias das idades mais avançadas. As despesas com tratamentos médico-hospitalares aumentam. O tempo de permanência em leitos hospitalares também. É um desafio para as políticas públicas em nosso país. As doenças dos idosos são múltiplas, além de terem evolução lenta e arrastada, necessitando de equipes multidisciplinares e intervenções contínuas, além de pessoal preparado, consciente da importância da promoção da saúde a qualquer custo, do estímulo ao auto-cuidado, da reintrodução do idoso na sociedade como produtor também e não só produto.
A maioria dos idosos (85%) apresenta, pelo menos, uma das doenças crônicas e 30% deles têm Hipertensão Arterial Sistêmica que requer tratamento contínuo e mesmo assim, leva o indivíduo a complicações ateroscleróticas graves e muitas vezes incapacitantes, como o Acidente Vascular Cerebral. Embora em número bem menor, 10% da população de idosos possuem no mínimo cinco doenças crônicas (Ramos; Veras; Kalache, 1993).
Os velhos, em nossa sociedade, são estigmatizados porque apresentam vários atributos físicos e funcionais negativos conhecidos como: cabelos brancos, rugas, calvície, pouca mobilidade, declínio, fraqueza, dependência, deficiência, impossibilidade e, assim por diante, assumem total força e presença, que passam a definir prioritariamente o indivíduo como um todo, não respeitando suas particularidades. A identidade social é estática e limitada, configurada por uma representação que passa a definir todos aqueles indivíduos que apresentam características físicas semelhantes. Porém, nem todos os indivíduos que se mostram com tais características são necessariamente indivíduos que possuem tais atributos (Monteiro, 2001).
Como discutimos anteriormente nos conceitos de Representações Sociais, identidade é muito mais do que simplesmente estigmas físicos e funcionais. Ela não é estática, ao contrário, é um processo dinâmico que envolve atributos emocionais e que amadurece ao longo dos anos de vida.
No minidicionário (Ferreira, 1997) a palavra ‘velho’ significa antigo, gasto pelo uso, desusado, obsoleto.
Também no dicionário Houaiss de língua Portuguesa, velho significa:
“Que não é novo, que tem muito tempo de vida ou existência. Que se contrapõe ao moderno; antiquado, desatualizado, obsoleto.” (2001, p.2838)
É isso que pensamos do sujeito idoso? É assim que queremos ser considerados quando tivermos nossos 60 anos ou mais?
Todo ser humano é sujeito repleto de sentimentos e desejos apresentando-se múltiplo em sua unidade. Então, se considerarmos os velhos deterministicamente como objetos, perpassaremos a sua subjetividade, caindo no modelo angustiante da velhice, classificando-os como fazemos com os objetos.
Felizmente, nem todos têm pensamentos negativos sobre a velhice e alguns aprendem a gostar desta fase na vida onde aproveitam as experiências, a sabedoria e a alegria do convívio com entes queridos para distribuir amor e ter uma qualidade de vida.
Segundo Baltes e Smith (1999) dos conteúdos representacionais da velhice, as palavras “experiência” e “sabedoria” são exemplos de objetivos e conquistas positivas dos idosos que são valorizados pela sociedade.
No Brasil, o crescimento populacional tem particularidades, visto que o percentual de população jovem é ainda bem importante. Nas próximas décadas, as estimativas indicam que o crescimento da população idosa será de aproximadamente 7%. Nas primeiras décadas do século XXI, o país poderá ser comparado às nações desenvolvidas, em relação às características populacionais, pois quase 15% da sua população estarão nesta faixa etária (SEAD, citado por Sanchez, 1998, p. 4).
O que é pior,
“(…) em muitas regiões, os idosos são rejeitados seja direta ou indiretamente. A sociedade brasileira não parece estar preparando seus cidadãos para esse processo”.
A evolução demográfica da população brasileira vem sendo marcada, nas cinco últimas décadas, por transições decorrentes de mudanças nos níveis de mortalidade e fecundidade, uma vez que as imigrações internacionais deixaram de ter influência a partir de 1940, sendo a saída de brasileiros para o exterior um fenômeno muito recente (Berquó, 1999).
O crescimento da população idosa torna-se cada vez mais relevante porque já supera o crescimento da população total. Com efeito, isso já ocorria em 1940 e se manteve nos últimos 50 anos. Enquanto o crescimento médio anual do período 1940-50 era de 2,34%, o da população idosa era 2,57%. A partir de 1960, a população total, como percebemos, teve seu crescimento desacelerado, o que só ocorreu em 1991 com a população de 65 anos e mais.
O crescimento da população idosa afeta diretamente a razão de dependência, ainda quando se leva em conta que quase um quinto do contingente de idosos participa da atividade econômica do país (Berquó, 1999).
Em 1998, Berquó já chamava atenção para a feminilização do envelhecimento e suas conseqüências para as políticas sociais, em especial, as de saúde. Também, a proporção de idosas em relação à população total de mulheres tem-se mantido sistematicamente superior àquela correspondente aos homens idosos.
No último Censo Demográfico do IBGE (1999/2000), a população de pessoas idosas do gênero feminino superou em 3.270.820 a do masculino.
Esse fato, por sua vez, é decorrente de uma situação de mortalidade diferencial por sexo que prevalece há muito na população brasileira. Desde 1950 as mulheres têm correspondido à maior esperança de vida ao nascer, ou seja, tem lhes cabido um maior número de anos por viver. Em 1980, enquanto a esperança de vida para os homens era de 59 anos, as mulheres correspondiam 65 anos, ou seja, chance de viver seis anos a mais do que os homens. Em 1991, essa diferença cresceu para sete anos. Projeções para 2010 e 2020 mantêm uma diferença em torno de seis anos.
Buscando as principais causas de morte em mulheres e homens de 60 anos e mais, verifica-se que as cinco primeiras são as mesmas para ambos
os sexos. Por ordem, as mais importantes são: doença cerebrovascular, doença isquêmica do coração, neoplasias malignas, doenças da circulação pulmonar e outras doenças do coração e do aparelho respiratório. Doenças que requerem internações freqüentes como veremos mais adiante.
Em relação à população de idosos e regiões do país, os resultados do último Censo Demográfico do IBGE (1991/2000), indicam que na região Sudeste, 9,3%, da população é constituída por idosos com 60 anos ou mais, na Sul, 9,2%, na região Nordeste, 8,4%, região Centro-Oeste, 6,6% e na região Norte, 5,5%.
Ao longo dos últimos 40 anos, a população idosa esteve concentrada nas áreas urbanas, particularmente o contingente feminino. Dos anos 50 aos 70, houve um predomínio desse grupo etário residindo no meio urbano, em comparação à proporção da população total, para ambos os sexos, muito embora a presença feminina idosa vivendo em áreas urbanas fosse mais acentuada. Isso aumentou a busca por serviços médicos.
É interessante observar que a maior concentração de idosos nas áreas urbanas está presente em todas as grandes regiões do país, como atestam as razões de sexo das pessoas de 65 anos e mais. Por outro lado, ocorre o oposto no meio rural.
Em relação à educação, para a população idosa, a situação é mais grave, pois 40% dos homens e 48% das mulheres declararam-se analfabetos no último censo.
A composição étnica dos idosos no Brasil revela que 60,8% são brancos e 38,1% são pretos, cabendo aos asiáticos e indígenas menos de 1%.
O fato de a grande maioria da população negra (composta de autodeclarados pardos e pretos) no Brasil pertencer aos estratos mais pobres da população, explica que dentre os idosos sua participação relativa seja menor do que com relação à população total.
Com uma sobre-mortalidade em relação à população branca, característica desde períodos históricos, apenas 5,1% da população negra chegou a atingir 60 anos e mais, na última década, em comparação com os 6% correspondentes aos idosos brancos.
A situação familiar das pessoas nessa fase da vida reflete o efeito acumulado de eventos sócio-econômico-demográfico e de saúde ocorridos em etapas anteriores do ciclo vital. O tamanho da prole, a mortalidade diferencial, o celibato, a viuvez, as separações, os recasamentos e as migrações vão conformando, ao longo do tempo, distintos tipos de arranjos familiares e domésticos, os quais com o passar da idade adquirem características específicas, que podem colocar o idoso, do ponto de vista emocional e material, em situação de segurança ou de vulnerabilidade.
Neste sentido, é de extrema importância conhecer em que estruturas familiares ou domésticas estão inseridos os idosos, isto é, as pessoas com 60 anos e mais de idade.
Como se está observando, já não é privilégio de poucos alcançar a idade avançada. Estamos nos preparando para lidar com esse contingente de idosos?
Lendo uma entrevista realizada pela “Geriatrics” em dezembro de 1999 com o Dr. Dychtwald, psicólogo e gerontólogo, um dos autores do livro “Age wave” publicado em 1989, que analisava o impacto do crescimento da população idosa na economia, trabalho e relacionamento familiar, observamos afirmações simples, mas bem atuais e verdadeiras. Ele disse: “O século XX foi do domínio dos jovens, mas o século XXI pertencerá ao idoso”. Por causa dos cuidados médicos, vamos ter idosos com vigor, vitalidade e expectativa de vida prolongada.
“A ironia está em que o sucesso do tratamento médico no passado produziu uma legião de longevos que lutam contra problemas que o sistema americano de saúde está mal preparado para lidar; são doenças crônico- degenerativas, tais como: doença cardíaca, câncer, osteoartrite, osteoporose e a doença de Alzheimer” (Dychtwald, 1999, p.25).
O desenvolvimento tecnológico foi espetacular, mas o homem esqueceu-se de que criou armas e situações que podem funcionar a favor ou contra ele mesmo.
“Depois de três séculos de prodigioso desenvolvimento científico, torna-se intoleravelmente alienante concluir (...) que a acumulação de tanto conhecimento sobre o mundo se tenha traduzido em tão pouca sabedoria do mundo, do homem consigo próprio, com os outros, com a natureza.” (Santos, citado por Goergen, 1998, p. 1)
Outro ponto importante é quanto à relação médico-paciente. Com o explosivo crescimento da população idosa e o uso crescente dos serviços de saúde, é de surpreender que pouco se saiba sobre as maneiras de relacionamento entre médicos e seus pacientes idosos (Adelman, Greene, Ory, 2000).
Para alguns gerontologistas, a população de idosos é subdividida em três grupos com diferentes faixas etárias, a saber: grupo de idosos-jovens que é composto por indivíduos com idade entre 60 a 74 anos, o grupo de médio- idosos, aquele no qual as idades variam entre 75 a 84 anos, e o grupo de idosos-velhos, em que as idades variam de 85 anos ou mais. Cada um desses grupos tem sua perspectiva histórica individual e deve ter um diferente suporte social e necessidades psicológicas, assim como apresentam problemas médicos diferentes. Por exemplo, os idosos com 85 anos ou mais são aqueles que mais estão susceptíveis a declínio cognitivo, incapacidades, dependências e são aqueles que mais internam.
Se nós compararmos o atendimento do adulto como dos idosos, esse último certamente será mais complicado no sentido da comunicação por causa dos déficits sensoriais, cognitivos, limitações funcionais e a freqüente presença da terceira pessoa.
Esta pessoa – que deve ser um parente próximo ou um cuidador –, tão importante na comunicação e muitas vezes na decodificação da linguagem falada e corporal dos idosos, pode interferir de maneira benéfica ou não, às vezes até prejudicando esse relacionamento. Além disso, não deixemos de lembrar das atitudes preconceituosas contra os idosos, apresentadas pelos próprios profissionais da saúde.
A origem das crenças preconceituosas contra os idosos é multidimensional. Nossos medos quanto ao envelhecer, a proximidade da morte, tudo leva a crer que: envelhecimento ainda é um assunto cheio de tabus em nossa sociedade. Esse movimento de fuga do “ser velho” contribui para o desenvolvimento de atitudes preconceituosas contra o envelhecimento (Adelman, Greene, Ory, 2000).
Preconceitos contra o envelhecimento, a produção de falsas crenças sobre pessoas idosas, é pernicioso para o sistema médico de saúde. A literatura descreve alguns exemplos de comportamentos médicos preconceituosos contra idosos, mas não temos estudos documentados sobre a magnitude desse problema. Esse preconceito pode se manifestar de inúmeras formas, entre elas:
• Os médicos podem trivializar ou subestimar os problemas médicos dos idosos por acharem que eles fazem parte do envelhecimento natural.
• Médicos podem ser menos agressivos em presença de certas patologias ou problemas psiquiátricos quando o paciente é idoso.
• Os médicos podem usar termos pejorativos para nomear certas patologias em idosos.
• Alguns médicos dispensam menos atenção e tempo para pacientes idosos. • Alguns médicos consideram os idosos pacientes mais “difíceis” comparados
com os adultos.
• A dificuldade para a realização de transplante em paciente com 65 anos ou mais. Especialmente o transplante renal (Adelman, Greene, Ory, 2000).
Diferentemente de outros preconceitos, tais como contra preferência sexual ou raça, o preconceito contra a velhice tem enfoque muito perigoso e pessoal, porque nós todos vamos envelhecer se formos privilegiados o suficiente para sobrevivermos.
Se um indivíduo se torna idoso e incorpora um significativo desgosto pelo envelhecimento e pela pessoa idosa ele se tornará objeto de sua própria discriminação. Esse auto-preconceito tem ônus muito pesado e certamente influenciará de maneira negativa no seu processo de envelhecimento saudável.
Agindo assim, essas pessoas trivializam qualquer tipo de sintoma de doenças que são comuns aos idosos alegando ser tudo natural e “da idade”. Essas pessoas podem ser leigas ou profissionais de saúde e, segundo Adelman, Greene, Charon (1986), esses últimos são mais susceptíveis a desenvolver atitudes preconceituosas contra o envelhecimento. Eles estão, por sua própria profissão, mais expostos à população mais carente, frágil, doente, confusa, demenciada e hospitalizada, lhes oferecendo imagens distorcidas do envelhecimento.
Os idosos saudáveis não fazem parte da amostra de idosos que se apresentam para médicos ou estudantes de medicina, principalmente nos hospitais terciários. O preconceito contra o envelhecimento pode ser, algumas vezes, considerados como um “mal” ocupacional que leva o profissional de saúde a subestimar o cuidado médico.
Por exemplo, se um médico acredita que depressão é “doença de velho”, ele perderá oportunidade de tratar uma doença curável. Muitos estudos mostram que pelo fato de serem idosos, certos pacientes são tratados menos agressivamente. Bacon disse que:
“(...) se a mente humana fosse depurada dos seus preconceitos e das atitudes precipitadas, advindas das relações entre os homens, haveria espaço para o progresso do verdadeiro método científico. O mais importante esforço da vontade consiste em evitar os preconceitos, isto é, o costume de emitirmos juízos sobre coisas que não conhecemos de forma clara e distinta.” (citado por Georgen,1998, p.8)
Hoje, olhar pela velhice é uma prioridade, independente do ônus financeiro que ela possa acarretar. A medicina moderna está muito preocupada com o lado financeiro do tratamento, com índices de produtividade e curas biomédicas e é tempo para repensarmos a ciência no seu novo paradigma, numa visão mais global e humanista em que os avanços tecnológicos se integrem com as necessidades da população que adoece. Que esse seja um processo contínuo, interativo, multidimensional de colaboração mútua e satisfatória.
O objetivo principal em melhorar a relação entre o paciente idoso e seu médico é o de desenvolver um encontro médico que promova uma “cura” não só biológica, mas também psicossocial. Curar no seu sentido amplo só pode acontecer quando a ciência e a arte da medicina são vistas como processos interdependentes e inseparáveis (Adelman, Greene, Ory, 2000).
O perfil demográfico brasileiro mudou numa velocidade tal que dificultou, além do que normalmente acontece com qualquer mudança brusca e inesperada, a imperiosa e indispensável mudança de conceitos e valores da nossa sociedade sobre o envelhecer e o ser “velho”. Isto causa, até hoje, lentidão na superação de preconceitos, mitos, e no reconhecimento da dignidade do idoso e no olhar para as suas necessidades mais prementes