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Opportunities and constraints of UNCAC as a driver and catalyst of political change

In document October 2011: 2 U4 REPORT (sider 33-38)

Part 1: A political economy analysis of UNCAC

4. Opportunities and constraints of UNCAC as a driver and catalyst of political change

exercícios de edição em sua execução. Temos poesia, experimentos sonoros, contos, jornalismo e muitos efeitos durante uma hora de execução. O narrador se encarrega de avisar já no início do programa:

135 A água é um elemento presente em vários programas Visagem, como “Belém”, “Espelho de

Igarapé”, “Caxemira foi à praia”, “Matinta Perera”, a chuva constante em “Blade Runner” etc. Lembremos que a água está impressa fortemente na cultura amazônica devido a seus caudalosos rios e constantes chuvas, por isso serve de cenário para muitas histórias do programa Visagem. Além do que, é interessante observar que o elemento água é carregado de simbolismo sobretudo por representar o inconsciente, podendo ter seu significado reduzido a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação e centro de regenerescência, segundo o Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (2002, pp. 15-22).

O Visagem traz ao limo das horas atuais, uma partitura de seres fantásticos, de uma música profunda como trovões feitos de memória. De nebulosas passagens secretas deste para outro mundo. Lugar de úmidas lendas semoventes como o Mapingüari, a Matinta Perera e até o canto do Uirapuru, e faz mais o Visagem de hoje. Se liquefaz em gotas de palha para trançar entre os seus ouvidos, meu caro ouvinte, minha cara ouvinte, o som da nossa feira maior (sonora de vendedor de periquitos), padroeira dos peixes da Amazônia: a Feira do Ver-o-Peso. Tudo isso no Visagem mítico de hoje. Tão cheio de pássaros e vontade de voar (som de pássaros, assovios).

(...)

Rio Amazonas (entra marca “Visagem” e som de pássaros, tambores e música, vai a BG). Rio Amazonas. Rio Amazonas. Todos os rios da minha vida. Todas as feiras, tantos dias de minha vida (Som ambiente – feira do Ver-o-Peso – vai a BG). Ver-o-Peso, ver o rio. Ouvir o peso, ouvir o rio. Rio Guamá, guamazonas, rio Amazonas.Ouvir todos os rios. Todos os rios de minha vida. O rio de muitas vidas. O rio. O rio. Que me alimenta e confio. Rio Amazonas. Rio Amazonas. Rio Amazonas.

No trecho descrito, a trilha vai num crescente. Pássaros cantam, a música que toca é “Rio Amazonas”, de Philip Glass, executada pelo grupo de percussão Uakti, enquanto o narrador frisa ‘Rio Amazonas’. Em alguns momentos, ele parece se questionar; em outros parece querer fixar o lugar ou querer se justificar ou, ainda, fazer um exercício de autoconhecimento. De repente, entra o som ambiente do Ver-o-peso. Vendedores de peixe, ‘ouvir o peso, ouvir o rio’, diz o narrador.

Será que ao ouvirmos com atenção o ambiente narrado, passaríamos a entender melhor ‘o rio de muitas vidas’, o rio nosso de cada dia? A indagação fica no ar, como uma provocação do Visagem, em livre inspiração do poema “Na ribeira deste rio”, de Fernando Pessoa. O trecho assume características de poesia sonora. Segundo Philadelpho Menezes (1992, p. 10), a poesia sonora não pode ser simples texto.

O que caracteriza o poema sonoro não é sua simples audibilidade, sua existência acústica, sua projeção dirigida à escuta do receptor. O que o define é seu divórcio inconciliável com a escrita e seus modos declamatórios, seu distanciamento nítido do poema oralizado, sua separação da poesia concebida como arte do texto, que, quando vem recitada, estava, contudo, previamente redigida.

Desta forma compreendemos porque é preciso a atenção focada para ouvir o programa. O ouvir aqui nos leva a uma espécie de transe. Aos moldes de uma sessão xamânica, o ouvinte é capturado e por meio de uma rica construção sonora, é levado a uma

viagem pelo mundo amazônico. Sons de florestas, uivos, pássaros e trilhas de suspense são mixados de acordo com o desenrolar do texto. As imagens sugeridas são fortes e arrebatadoras. O desafio é transpor a Amazônia feita de sons para a mente do ouvinte, que passa a criar em sua cabeça uma Amazônia particular. O corte é feito de forma abrupta, para tirar o ouvinte do transe hipnótico porque é preciso seguir com mais uma seqüência que vem em forma de conto.

O conto versa sobre uma festa na floresta, com a presença de seres mitológicos da Amazônia. O detalhe é seu longo tamanho, com muitos efeitos sonoros marcando a história: de sons de pássaros a assobios determinando a entrada de cada um dos personagens:

Era noite na floresta. O canto dos pássaros bêbados fazia coro com grilos chapados e com o coachar dos sapos que já estavam com a cara enfiada na vala. Serpentinas de vagalumes faziam trenzinho entre cipós. Era um carnaval de muita luz e pouca vergonha. Uma borboleta azul inteiramente nua e bêbada tentou pousar num galho, mas bateu numa folha, quebrou a asa e começou a chorar. Pouco depois a carruagem da Matinta Perera chegou. Com os cabelos desgrenhados a velha desceu da gigantesca jaca e farejou o ar em busca de fumo e outras drogas silvestres para consumir. De seu vestido rasgado até as coxas saiam cobras e insetos perigosos para se enfiarem na festa que os outros bichos faziam na floresta. Rastejaram por entre as folhas no chão. Subiram em árvores. Mas não envenenaram a vida de ninguém porque eles gostaram da festa e a Matinta Perera também. ‘Quero bebida e fumo’, ela pediu. E uma lacraia foi buscar. Um pouco mais tarde chegou a Boiuna: do tamanho do mundo; querendo arrastar a floresta para o seu estômago; querendo estrangular a noite com seu corpo; abrindo uma bocarra do tamanho de um ônibus, revelando assim a caverna que eram suas entranhas salpicadas de carne de animais e dos restos da professora Carmosina, devorada mês passado. A Matinta assobiou para Boiuna, como quem diz: ‘seja bem vinda minha amiga, pode sentar em qualquer lugar’. A cobrona se dobrou um pouco e cuspiu um igarapé no meio da festa. Foi uma festa. A Matinta assobiou de novo de alegria. Havia peixes, havia girinos, havia vida. ‘Viva a Boiuna!’, gritaram todos. A grande pitom se contentou em mergulhar no igarapé e ficar ali a noite toda. Depois chegou o lobisomem com as roupas rasgadas de fúria. Trouxe amigos: sete cães vadios que montaram um karaokê e ficaram uivando a noite inteira. Enquanto isso, o lobisomem puxava conversa com a onça. Os dois pareciam mastigar cada palavra dita, deixando só a carcaça da conversa no chão. Uma cascavel passou com o chocalho no rabo, mas ninguém fez piada disso. Ela hipnotizou e comeu dois ratos do mato, enquanto a floresta se enchia ainda mais de sons. A cascavel foi embora com a chegada do gigantesco Mapingüari. Ele já vinha de outra festa dando passos que pareciam o coração da terra batendo. Com seu único olho observou a festa. Avaliou cada ser vivo com ideias de devoramentos. Babou uma baba comprida que

chegou ao chão. Deu um piscar de olho para Matinta Perera, seu ex-amor e foi embora. Seguiu em frente. Não havia antas ali, ele queria antas para comer e foi atrás delas. Depois que o monstro foi embora a Matinta Perera parece que ficou triste. Sem despedir-se foi embora também. Deixando no ar, a sinfonia dos animais noturnos, a alegria dos grilos tombados e dos sapos esgotados de luar. Foi embora a Matinta, dando uma tragada no fumo que a lacraia lhe trouxe. Foi embora. Envolta na fumaça densa de uma saudade imensa. Do que mais ela sentia falta? Era dos beijos do Mapingüari.

Na história, traços de humor, suspense, terror e drama estão presentes como pede uma boa história. Animais são humanizados e a surpresa fica por conta de uma Matinta apaixonada. A temida feiticeira da floresta apresenta ares tristes de alguém que sofre por amor. O ser amado não poderia ser outro, a não ser o Mapigüari, um lendário animal gigante, coberto de pêlos, que vive na floresta amazônica. O programa apresenta ainda experimentações sonoras com a peça “Ouvir-o-Peso” da pesquisadora Marta Geórgia e outra do músico Albery Albuquerque Jr., no seu CD “Timbres da Natureza Amazônica”, no qual apresenta o pássaro uirapuru interagindo com instrumentos de cordas.

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