A pesquisa científica, para que alcance resultados os mais próximos da realidade, dispõe de procedimentos metodológicos que legitimam a construção de dados para, assim, possibilitar uma análise eficiente dessas informações por parte do pesquisador para as comunidades científica e social. A consequência disso é a obtenção de resultados coerentes e convincentes. De acordo com Devereux (1977), Barbier (1985) e Machado (2002), o pesquisador mantém implicação direta com o objeto pesquisado, o qual o desperta para a formulação de uma problemática coerente e justificada, mediante seriedade e certa subjetividade, porém, na perspectiva de não interferir no que está sendo observado.
Isso se justifica porque, quando encaramos a pesquisa dessa forma identitária, por parte do investigador, percebemos que existe a ausência de neutralidade, principalmente quando tratamos de uma pesquisa inserida nas Ciências Humanas, e mais precisamente no ramo educacional. A explicação para isso advém do fato de que o educador-pesquisador, muitas vezes, está envolvido em determinado problema na sala de aula que o incita a desenvolver pesquisas científicas a fim de elucidar respostas ou, pelo menos, indícios dessas.
Tais argumentos convergem com o pensamento de que o pesquisador constrói um objeto a ser investigado e, eliminando a ideia positivista da neutralidade, esse sujeito encontra-se “implicado necessariamente nos fenômenos que conhece e nas consequências desse conhecimento que ajudou a estabelecer” (LUDKE; ANDRÉ, 1986, p. 5). Com isso, ele está comprometido com diversas peculiaridades do tema na intenção de uma abordagem mais ampla a respeito do conhecimento específico do assunto, tomando como base, inclusive, suas definições políticas. Essa consideração inicial, acerca da importância dos procedimentos metodológicos e da não neutralidade científica, faz-se salutar para a descrição das perspectivas do “como” desenvolvemos o passo-a-passo da nossa investigação, a fim de satisfazer às perguntas norteadoras da pesquisa e aos objetivos descritos anteriormente neste texto.
A presente pesquisa, em sua propositura, teve uma abordagem qualitativa por se tratar de uma análise, de uma reflexão, através do estudo das ações sociais, individuais e grupais dos sujeitos envolvidos, realizando um exame intensivo dos dados em fonte direta destes (MARTINS, 2004). Quanto aos objetivos traçados, a pesquisa foi do tipo exploratória,
uma vez que desenvolvemos a interação direta com os participantes através de técnicas de construção de dados, que serão descritas mais adiante nesta seção de metodologia.
Somado a essa perspectiva de pesquisa qualitativa e exploratória, o estudo teve ainda um caráter etnográfico, uma vez que, para estudarmos a produção de um jornal escolar, necessitamos, por algum período, estabelecer uma vivência direta com os estudantes do Clube do Jornal, a fim de elucidarmos os contornos da significação micro cultural que essa prática de escrita tem para eles. Isso se justifica porque o pressuposto fundamental de uma pesquisa com tal característica é a da “interação direta com as pessoas na sua vida cotidiana [, o que] pode auxiliar a compreender melhor suas concepções, práticas, motivações, comportamentos e procedimentos, e os significados que atribuem a essas práticas” (CHIZZOTI, 2006, p. 65).
O caráter etnográfico da pesquisa justificou-se também porque foi necessário acompanharmos o desenvolvimento dessa prática midiática, realizada pelos estudantes e, diante desse acompanhamento, observarmos não somente suas produções escritas, mas também – e principalmente - investigarmos como os estudantes se organizaram durante todo o desenvolvimento de seus letramentos até a concretização material, por via impressa. Essa busca por uma investigação etnográfica resultou em certos aspectos, que só foi possível compilar através das seguintes técnicas de construção de dados: observação participante, entrevistas semiestruturadas e cartas pessoais elaboradas pelos integrantes do Clube do Jornal, os quais nos permitiram estabelecer alguns achados pelo fato de considerarmos que a pesquisa, numa perspectiva etnográfica, preocupou-se com as questões relacionadas ao meio sociocultural.
Foi relevante, então, compreendermos, por exemplo, as funções que os estudantes assumiram nessa organização; as motivações para a produção dos enunciados/textos; os comportamentos inseridos nas práticas de letramento; as representações socioculturais que se fizeram presentes em todo o contexto; o fluxograma seguido para operacionalizar o material impresso; os conteúdos escolhidos; os gêneros discursivos/textuais selecionados; os fatos e/ou assuntos que mais lhe chamaram atenção para serem divulgados; as audiências em relação aos gêneros produzidos; as opiniões expressas sobre as próprias ações; dentre outras atividades condicionadas pela questão etnográfica que o jornal escolar desenvolve.
Não permanecemos limitados apenas à reflexão e à análise dos textos escritos do jornal escolar impresso, pois estivemos atentos também a diversas articulações que os estudantes desenvolveram para “fazer acontecer” o jornal dentro do ambiente escolar. Houve o envolvimento de toda uma questão sociocultural de grupos e de comunidades, inclusive tentando entender as vantagens e as desvantagens, os sucessos e os insucessos da elaboração
editorial do jornal frente às condições social, pedagógica e estrutural da escola onde esses sujeitos estão inseridos – fatores que já foram explicitados neste texto.
Essa concepção etnográfica, portanto, esteve presente em toda a investigação, inclusive em momentos da fundamentação teórica, como exemplo, os estudos dos Letramentos Sociais, preconizados pelo antropólogo Street (2014), e até mesmo quando procuramos dialogar o processo editorial com os aspectos conceituais do letramento midiático, de Buckingham (2010), inseridos nos textos escritos e impressos do jornal escolar. A seguir, abordaremos como selecionamos e como descrevemos o local onde nossa pesquisa foi realizada.