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Opplevd validitet påvirker bruk av digitale intervjuer i fremtiden

1. Introduksjon

5.3 Teknologiens påvirkning på rekrutteringsprosessen

5.3.2 Opplevd validitet påvirker bruk av digitale intervjuer i fremtiden

Assim como a história da Cumade Fulozinha se liga a experiências com as matas, o contato com os rios, os mangues e as lagoas, onde os Potiguara costumam pescar e tomar banho, gera outras experiências que resultam em narrativas como a do Pai do Mangue. O

contato dos Potiguara com o mangue é muito forte e aponta para uma dimensão da sua identidade que os diferencia como grupo, “o caboco caranguejeiro” (PALITOT, 2005).

O Pai do Mangue é descrito nas narrativas como o dono do mangue, aquele que controla a pesca, como confirma o depoimento de Dona Severina:

Dona Severina: ... o Pai do Mangue... que é o... o dono do mangue, né? quando é de

tempos em tempo ele libera os caranguejo prá andar bem muito pro povo pegar caranguejo... depois ele... de acordo com a quantidade de caranguejo que o povo pega ele volta pra (ininteligível) aqueles caranguejo... O Pai do Mangue... (Extraído da entrevista em11/06/2010).

Nessa narrativa, há uma voz que aponta que o Pai do Mangue é o responsável pelo controle da pesca no mangue. Assim como a Cumade Fulozinha protege as matas, ele protege o mangue. Percebo que essa narrativa também aponta para uma voz que sugere um código de conduta: o uso racional dos recursos naturais estabelece relações dialógicas de convergência, como enunciam Silva e Grupioni (1995), ao afirmar que os indígenas que habitavam o Brasil, no período que antecedeu a chegada dos colonizadores, tinham consciência da necessidade de preservar, e não, degradar o meio ambiente e faziam o uso equilibrado do solo e dos recursos naturais.

Os colaboradores narraram que o Pai do Mangue costuma “desorientar” as pessoas que

vão ao mangue para pescar, como mostra a narrativa de Conceição, apresentada a seguir:

Conceição: Mas é bem curtinha a do Pai do Mangue... Foi ééé... verdade verdade. É

porque...ele gosta sempre de passar uma hora dessa. Aí ele foi pegar aimoré de covo, né? Aí ele... se ariou-se dentro do mangue... perdeu-se... se perdeu-se. Porque ele faz ... se perder. Aí ele começou a caçar disse: “ Meu Deus, e agora?” E os covo, não achava os covo de jeito nenhum. E já era tarde e a maré começou a vazar. Mas pra ele... tava tudo cheio de água. Num tinha mais água nem dentro do mangue. Mas ele viu cheio de água. Aí de repente, apareceu uma voz, disse assim: “Tá aperreado, Manuel?” Que é o nome do homem que é Manuel Mateus. Aí ele... disse: “Ô xente” disse: “tou não”. Ele disse que não tava não, né? Aí também de repente...ele... o sentido dele voltou. Quando ele olhou, o mangue sequinho, os covo nos pé dele. Ele andou tanto, andou tanto e não achou os covo.

Aí ele ficou naquele canto. Disse: “Agora eu vou parar”. Aí a voz perguntou a ele se ele tava aperreado. Aí ele disse que num tava não. Aí quando ele olha os covo... assim pertinho dele e outros assim ... que num só é um covo é três, quatro covo. Aí ele se perdeu-se e foi o Pai do Mangue. (Entrevista em 12/04/2010).

Conceição tem uma grande afinidade com o mangue. Desde criança, via o pai pescar e, ainda hoje, ela mora nas vizinhanças do mangue. Em sua narrativa, ela relata como os Potiguara praticam a pesca no mangue. Eles costumam utilizar o covo, uma espécie de cesto usado para aprisionar caranguejo, aimoré e outros animais que habitam ali. O covo é feito por eles próprios, usando um cipó colhido na região. Para pescar, eles colocam no mangue os covos, em geral, três ou quatro, e esperam que os peixes (aimorés) entrem neles.

Na narrativa de Conceição, a língua tupi se manifesta no uso repetido da seguinte expressão: “Foi... ééé... verdade verdade”.

O diálogo apresentado na narrativa: Pai do Mangue: “Tá aperreado, Manuel?” Pescador: “Tou não”, demonstra que os Potiguara se comunicam com o Pai do Mangue. Eles

o veem como um ser com o qual é possível conversar. Isso vem corroborar os achados de Vieira (2012) sobre a relação de proximidade dos Potiguara com os encantados, que pode ser considerada uma faceta da identidade potiguara.

Outra versão da história do Pai do Mangue foi contada por Dona Luzia:

Pesquisadora: Conte uma história aí que a senhora sabe.

Luciele: Do gritador, da Cumade Fulozinha

Pesquisadora: Do gritador...

Luciele: Siiim... Vó

Dona Luzia: Num sei contar do Gritador. Sei contar do Pai do Mangue.

Pesquisadora: Pronto. Conte essa.

Dona Luzia: ((Risos)) Olhe, eu fui pro mangue pescar mais meu menino. Aí cheguei

lá levei os cachorrinho mais eu. Chegou os cachorro correram pra banda do... do rio... da maré grande. Ei e já era o Pai do Mangue atrapalhando meus cachorro. Aí eu fui atrás dos cachorro e deixei o menino no meio do mangue. Aí quando dei fé... Ele pequeno. Tinha a base duns dez ano. E ele ficou... cá. Quando eu cheguei. Fui buscar a cachorra que cheguei ele disse assim: “Mãe, aqui teve um homem”. “Quem foi José?” “Foi um homem

que esteve aqui reparou o samburá, mexeu”. Eu digo: “Ele tirou os peixe?”. Disse: “Não, ele só fez olhar e saiu... foi embora”. Aí eu não vi rastro de ninguém. Nós viemo simbora. E eu chamei a cachorra veio embora. O menino. E o menino só com aquela impressão que tinha visto o Pai do Mangue o Pai do Mangue. “MENINO, TU VISSE NADA O PAI DO MANGUE. Ele tinha chapéu?” “Tinha um chapeuzão, minha mãe. Um chapeuzão grande. Ele passou aqui. E era ele”. Eu digo: “Eu também num sei”. Se ele tivesse aqui ele sabia contar mas ele foi (ininteligível). Isso foi o que vi o Pai do Mangue... eu não vi não. ELE VIU. E eu... e esse rapaz que veio... aqui também... ((refere-se a outro pesquisador que havia passado na área fazendo entrevistas)) pra eu dizer que tinha pescado... Eu pesquei muito aimoré mesmo... pesquei muito aimoré de covo. Andei pro mangue muito mais meus filhos. ERA TÃO POBRE QUE SÓ NÃO PEDI ESMOLA PORQUE NÃO TINHA UM SACO. SE TIVESSE EU TINHA PEDIDO. Mas, tô aqui, né? (Entrevista em 08/06/2010)

Nessa narrativa, há uma voz que mostra como os Potiguara concebem o Pai do Mangue: um homem que vive no mangue, usa um grande chapéu para se proteger do sol e

exerce um “controle” sobre a pesca. A narrativa também mostra que todos os membros da

família participam da pesca. Dona Luzia relata que levava todos os filhos para o mangue. A situação econômica da narradora era tão precária que ela faz questão de mencionar sua pobreza. Os estudos de Moonen (1989) corroboram a precariedade das condições econômicas dos Potiguara.

Mais uma versão da história do Pai do Mangue foi contada por Dona Mariinha:

Dona Mariinha: Então quando a gente morava em São Francisco aí tinha um

homem chamado Antonio Julião. Ele foi pro mangue. Chovendo... que de primeiro as pessoas saía de casa. “Ah! Meu Deus, só queria que alimpasse pra eu ir pro mangue que num tem nada. Botava a cabeça do lado de fora e corria pra dentro. Cadê, sem poder ir com a chuva chovendo, né? Era chuva pesada. Então ele foi... quando chegou lá... Os povo do outro tempo aí só tirava caranguejo nu. Eu não tenho vergonha de dizer, né? Né prá dizer assim?

Dona Mariinha: Então ele só tirava caranguejo nu, né? Passava lama no corpo. Aí tirava caranguejo nu. Aí quando chegou assim disse que tinha um homem tirando caranguejo na frente dele. Tirando tirando tirando tirando caranguejo e ele nas parença de outro de um conhecido dele mesmo. “Ei, aí tá bom, você já tapou muito caranguejo?” Calado, né? “Rapaz, tu já tapou muito caranguejo?” E ele calado. Aí arriou a tapagem prá depois arrancar. Arriou a tapagem aí sentou na na raiz do mangue. E ele lá também. “Oxente, não é Fulano não. Eu chamei pelo nome dele não respondeu”. Aí ele cismou que não era, né? Aí meteu a mão meteu a mão a arrancar caranguejo. E ele lá. Depois, ele começou a rezar, que ele sabia de muita reza, né? Começou a rezar. E disse que rezando, rezando, rezando. Pouco mais chegou disse que chegou nessa parte que diz assim: “ (ininteligível)”. Disse que esse bicho deu um gemido tão grande QUE SAIU QUEBRANDO TUDO, né? por dentro do mangue. Chegou na frente ele ouviu foi o baque. BÁÁÁ... (ininteligível). Ele por aqui ó... carreira... carrerão. Perna pra que te quero. Chegou num num num tirou, num pegou nem a roupa que estava escondida. Aí... correu prá casa nuzinho como tava no mangue, assombradinho com esse bicho. Só que era o Pai do Mangue. Que o mangue... ele é um... se a pessoa for sozinho ele ele ele é muito esquisito... faz medo, né? Se for com quatro cinco índio, caboco lá pra dentro tirar o caranguejo ou pescar aí... faz muito medo não. Mas sozinho... o mangue é muito esquisito. Ele por aqui ó... Correu... num foi mais nunca no mangue esse homem. Eu conheci ele ainda alcancei ele era pequenininho. Então aí... foi mais não... pro mangue mais não. A história do Batatão, né? do Pai do Mangue. (Entrevista em 20/05/2010).

A palavra “caboco”, nessa história, é empregada pelos Potiguara quando se referem

aos indígenas “legítimos”. Trata-se de uma voz que remete ao discurso do colonizador que denominava “caboclos” os indígenas que tinham sido catequizados pelos jesuítas. Conforme Vieira, “o ser caboclo se baseia numa alternância consigo mesmo e com os outros” (VIEIRA, 2012, p. 276. Grifo do autor). O uso desse termo tem uma importância singular entre os Potiguara, pois sugere vínculos com os chamados “troncos velhos”, seus antepassados. Entretanto, em situações que exigem a inserção de um plano de coletividade ou comunidade, os Potiguara acionam o termo “índio”, visando garantir acesso a determinados recursos.

Outra voz presente na narrativa de Dona Mariinha enuncia que a chuva intensa prejudica a realização da pesca. Ela também relata que os Potiguara costumavam ficar nus para tirar caranguejo. Outros colaboradores também mencionaram que, para pescar no mangue, ficavam nus e passavam lama no corpo, para impedir o ataque dos mosquitos, muito presentes nos manguezais.