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O local de residência é um aspeto essencial aquando da transição para a reforma e o afastamento desse local pode constituir, de facto, um constrangimento nas práticas do quotidiano. Se alguns o preparam, como é o caso da reformada E17 (F/78/Dom), a qual afirmou “Tenho uma casa com todas as condições. Porque fiz quando tive ali no café. Já a pensar na velhice de agora” (E17, F/78/Dom), outros são obrigados a deixar espaços onde se criaram laços afetivos.

As pessoas estão ligadas afetivamente às suas casas, um meio familiar que controlam e do qual cuidam, sendo que os objetos, as divisões da casa e as rotinas adquirem um sentimento psicológico diferente para cada uma delas (Paúl, 1999). Este laço afetivo é visível em vários discursos, como exemplifica o seguinte: “Porque nem posso pensar que tinha lá seis casas lindas. A minha casa era de lajes azuis, laje azul! Toda igualzinha. (…) Azulinhas, azulinhas. A esta hora devem tar todas encardidas que nunca mais foram lavadas [em tom angustiado] ” (E8, F/88/Lar). Outras afirmações como “Quem me tira a minha casa, tira-me tudo.” (E6, F/82/CDia) e “Gostava de morrer aqui na minha casa. Gostava de morrer… os meus pais morreram aqui, os dois. A casa era dos meus pais, hoje é minha” (E20, F/88/Dom) ou o desejo de voltar a casa assim que possível mostrado pelos reformados E10 (M/72/CDia) e E14 (M/73/Dom) quando visitam os familiares, demonstram o apego à casa.

Mesmo no caso da reformada E5 (F/81/CDia), em que a casa surge como local de maior isolamento (onde está sozinha e só vê televisão), contrariamente ao lar, associado a movimento e convívio, a casa é fundamental:

“Quando chega à segunda-feira, tenho saudades disto (…) gosto de ver aqui esta mexida, esta coisa…(…) Pra conviver, prá gente falar. Pra ir até ali abaixo, pra ir

até ali ao pé das flores. (…) gosto de ver esta mocidade. (…) E atão, eu gosto. Gosto, pronto. Não é nada. Às vezes já tenho pensado em ficar cá. Eu não estou cá a dormir porque não quero! Mas o meu descanso, da minha casa, é essencial” (E5, F/81/CDia).

De facto, viver sozinho nem sempre é uma questão de solidão mas uma escolha no sentido de permanecer em sua casa e de manter a autonomia ainda que se vá perdendo a independência:

“Fazer as mesmas coisas, à medida que eu puder, vou fazendo. Quando não puder,

funcionar bem, eu vou estar na minha casa, mesmo que eu não possa já fazer tudo, tudo, tudo, que meta, por exemplo, uma pessoas, umas horas durante a semana pra fazer uma limpeza ou uma coisa assim…depois…logo se vê. A minha cabeça é que vai mandar. Enquanto ela estiver a funcionar bem, eu estou aqui na minha casa” (E20, F/88/Dom).

À semelhança do estudo de Fonseca et al. (2005), os residentes no domicílio desejam continuar a viver nas suas casas. Por isso, o reformado E12 (M/83/Dom) diz-nos igualmente:

“Um dia que tenha uma fatalidade qualquer, que tenha de recorrer a uma coisa dessas, se eu puder, se eu puder arranjar, por exemplo, um casal, um casal pra vir

pr’aqui viver, pra tratar de mim, pra me fazer comida (…) Não há nada que chegue

à nossa casa. Foi com alguns sacrifícios, eu e a minha mulher, que fizemos a casita. Ela, infelizmente, não se pôde gozar muito dela, mas não há nada que chegue à

nossa casa” (E12, M/83/Dom).

Contudo, nem todos estão insatisfeitos com a residência na instituição: “Olhe, eu até lhe digo uma coisa: nunca tive tão bem como estou agora a morar. Saio quando quero, venho para onde quero- tenho é de dizer para onde vou (…) ” (E9, M/79/Lar). Note-se que tal parece resultar do facto de o reformado não residir com o cônjuge e passar bastante tempo em casa de uma pessoa amiga, o que evidencia novamente como as experiências passadas influenciam as atitudes e comportamentos no presente.

O afastamento do verdadeiro lar, juntamente com a institucionalização por problemas de saúde, é algo que pode perturbar bastante os reformados, como é o caso da entrevistada E6 (F/82/CDia). Esta, apesar de se encontrar na vertente de centro de dia, parece não ter feito ainda a adaptação a esse ambiente, “ (…) um novo ambiente, a que ironicamente chamamos lar, mas que no mínimo implica um processo de apropriação, ligação e identidade, relativamente longo, e quantas vezes penoso, até que possa, de facto, ser o “lar” do idoso” (Paúl, 1999: 95). A reformada, inconformada face à institucionalização, é a única que, como verificámos, se mostrou insatisfeita com o modo como ocupa o tempo, insistindo repetidamente que não pratica atividades e que estas não são promovidas no lar. Disse-nos:

“Eu cá tenho na ideia, se estivesse lá sempre na minha casa, ia-me sempre

mexendo, mesmo pouco, ia fazendo isto, ia fazendo aquilo, parece que o andar

que… mas assim o andar vai-se a perder, de estar sempre além sentada” (E6,

F/82/CDia).

Neste caso verificamos que a perceção que a reformada tem do seu estado de saúde é reflexo do modo e local onde o tempo é ocupado.69

69 Embora a reformada se queixe que o seu estado de saúde está a piorar, uma técnica auxiliar do lar e o cônjuge da entrevistada, em conversa informal, afirmaram que a mesma melhorou bastante, nomeadamente a nível de mobilidade, desde que se encontra institucionalizada.

A institucionalização pode, de facto, constituir um constrangimento se não se tiver em conta as histórias de vida e ao tornar pessoas heterogéneas mais próximas através de um quotidiano idêntico para todos (Gomes, 2000, cit. por Dionísio, 2001). O reformado E9 (M/79/Lar), por exemplo, queixa-se das rotinas institucionais que interferem com a hora a que tem de se levantar quando gostaria de o fazer mais tarde.

Há também aqueles que se mostram acomodados ou conformados com a institucionalização porque reconhecem que aí podem ser satisfeitas necessidades resultantes das crescentes dificuldades a nível de saúde. A reformada E3 (F/86/Lar), resignada, mostra mesmo que o lar é um local onde se sente segura, citando-nos um poema: “Tenho uma vida sem vida/Vivo sem rumo e sem norte/Mas aqui vivo protegida/Até que apareça a morte”.70

A institucionalização não parece justificar por si só o decréscimo de participação em atividades, tal como acontece com a reforma. Muitas vezes, estes momentos de transição coincidem com o aparecimento de problemas de saúde ou com o falecimento de familiares. Logo, a participação é, muitas vezes, afetada não por um fator isolado, mas por vários conjuntamente.