1. Innledning
1.2. Oppgavens oppbygning
No que se refere às questões de linguagem, no entendimento dos sujeitos entrevistados, trata-se de um elemento de maior interação, tendo em vista que as cantigas de roda são potencializadoras de comunicação que trazem, a partir da sonoridade de voz, da postura corporal, da dança e dos movimentos, uma relação de interdependência com os aspectos linguísticos que possibilitam uma ponte entre crianças de seis a oito anos e as aprendizagens requeridas no processo de construção de conhecimentos.
No Quadro 9, as duas cantigas apresentam a mesma letra, tendo de diferente apenas a supressão do pronome eu na cantiga cantada pelo sujeito da pesquisa, fato que não interfere no aspecto linguístico do texto, visto que te quero bem, também está na primeira pessoa do singular, do presente do indicativo, do verbo querer. Marcuschi (2007, p. 47) pondera que “a passagem da fala para a escrita não pode ser vista como do caos para ordem, mas de uma ordem para outra”. Tal afirmação também explica a ocorrência da inversão dos versos do refrão, no texto escrito, para o início no texto cantado, nas cantigas de roda em versão popular e nas cantadas pelos pais e pelos alunos e trabalhadas pelos docentes no contexto das escolas.
Quadro 11 – Aspectos da Linguagem nas Cantigas de Roda
Nesta Rua25 Nesta Rua26
Nesta rua, nesta rua, tem um bosque Que se chama, que se chama, Solidão Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração Se eu roubei, se eu roubei seu coração É porque tu roubaste o meu também Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque eu te quero tanto bem Se esta rua se esta rua fosse minha Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, Com pedrinhas de brilhantes Para o meu, para o meu amor passar
Se esta rua se esta rua fosse minha Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes Para o meu, para o meu amor passar
Nesta rua, nesta rua, tem um bosque Que se chama, que se chama, Solidão Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração Se eu roubei, se eu roubei seu coração É porque tu roubaste o meu também Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque... É porque te quero bem
Fonte: Elaborada pela autora a partir dos dados coletados.
Nas Escolas do Campo de Chapadinha (MA), as cantigas de roda são cantadas atualmente, revelando marcas do passado com as do presente, apresentando ao mesmo tempo retextualização e ressignificação:
À medida que a cantiga foi fazendo, cada vez mais, parte do mundo da criança, foi-se alterando a relação com a sua linguagem. Assim, o que inicialmente era uma linguagem que constituía o mundo do adulto visto pelo adulto passou a ser uma linguagem constituindo, na sua quase totalidade, fatos do mundo adulto visto na perspectiva da criança. Alterou-se, portanto, o seu processo de significação. Com isso, houve também uma alteração na função da cantiga: de menos para mais didática. (JURADO FILHO, 1985, p. 22)
Os alunos têm conhecimentos anteriores à formalização do ensino, e os conhecimentos linguísticos, culturais e sociais compõem sua formação, podendo não ser essencialmente de interesse prático ou especificamente formal. Revelar-se ou revelar outros conhecimentos, por meio das cantigas, pode, ao mesmo tempo, fazê-los aprender e ensinar.
O ensino da oralidade, por exemplo, não acontece sem relação com a escrita, ele tem relações “mútuas” e “intercambiáveis” (FÁVERO, 1999). Ao brincar de roda, cantando e
25 Versão popular disponível em: <http://letras.cifras.com.br/musicas-infantis/nesta-rua>. 26 Versão cantada e brincada pelo [S4].
dançando Nesta Rua, pode-se, diante de uma perspectiva interdisciplinar, promover conhecimentos sobre a relação campo/cidade; substantivo concreto/abstrato; eu e outro; música; dentre outros. Em Sou Carioca da Gema ou Tindô lêlê, as possibilidades são ainda mais diversas, é evidente a abordagem dos adjetivos pátrios; do estímulo ao movimento do corpo; da sonoridade da rima; do uso de substantivos; da expressão que remete à localização, entre outros aspectos.
Os sentidos e os significados dos textos dessas cantigas de roda podem ser compreendidos como “[...] conteúdo da própria representação social, é a conseqüência do comportamento no mundo social que se necessita explicar pelo complexo representação/ação [...]” (WAGNER, 2011, p. 178). Neste sentido, ocorre o conhecimento prático, originário do senso comum, gerado na comunicação da vida cotidiana e compartilhado pelos grupos sociais de pertença, segundo Moscovici (2003). Tal conhecimento nasce dos contextos que sustentam os saberes sociais e coletivos e dos saberes sobre si próprios.
Marcuschi (2007) apresenta um quadro que ilustra essa passagem, a partir dos aspectos envolvidos nos processos de retextualização. Observa-se que:
Quadro 12 – Aspectos do processo de retextualização das Cantigas de roda
Fonte: MARCUSCHI, 2007, p. 69
Pelo demonstrado no quadro acima, embora se trate de uma retextualização do oral para o oral, pode-se perceber que nas cantigas que se seguem houve idealização, reformulação e adaptação. Porém, não se pode precisar se esses aspectos são intencionais ou culturais, visto que o sujeito pesquisado não é mineiro ou carioca. O Esquindô lelê, esquindô lalá, foi simplificado, podendo ser, tanto pelas questões da informalidade da fala quanto pelos elementos fonéticos.
Nos versos esperando o namorado prá pegar uma coca-cola, na versão escrita, e esperando o meu amor passar, na cantada, retratam os aspectos culturais dos relacionamentos, revelando a relação e/ou contradição da alta modernidade.
Linguísticos-textuais-discursivos cognitivos (A) idealização eliminação completude regularização (B) reformulação acréscimo substituição reordenação (C) adaptação tratamento da sequência dos turnos (D) compreensão inferência inversão generalização
Quadro 13 – Aspectos culturais nas Cantigas de Roda
Sou Carioca da Gema27 Tindô lelê28
Sou mineira de Minas, mineira de Minas Gerais
Sou carioca da gema, carioca da gema do ovo.
Rebola é bola, você diz que dá e dá, você diz que dá na bola,
na bola você não dá. Namorei um garotinho lá no fundo do quintal, o danado do garoto só queria me beijar. Esquindô lelê, esquindô lalá,
a mamãe tá me chamando, eu não sei para que é, se for prá varrer a casa,
varra ela se quiser. Vou ficar lá na porta da escola,
esperando o namorado prá pegar uma Coca-cola
Rebola é bola, você diz que dá que dá, você diz que dá na bola,
na bola você não dá. Namorei um... lá no fundo do quintal,
o danado do... só queria me beijar. Tindô lelê, Tindô lalá, a mamãe tá me chamando,
eu não sei para que é, se for prá varrer a casa,
varra ela se quiser. Vou ficar lá na porta da escola,
esperando o meu amor passar
Fonte: Elaborada pela autora a partir dos dados coletados.
Logo, a compreensão das teorias, relações e possíveis análises se entrelaçam ao que a língua e seu uso representam, mostrando que, de toda forma, encontram-se as cantigas re- configuradas. A comunicação, segundo Vanoye (2003, p. 1), “tem por objetivo a transmissão de uma mensagem, e se constitui por um certo número de elementos”, de modo que não se trata aqui de determinar padrões, mas de entendê-los em suas perspectivas, funcionalidades e contextos. Em suma, a escola deve tomar como ponto de partida as reflexões sobre os aspectos gramaticais para valorizar os “hábitos culturais” e construir novas habilidades (CASTILHO, 1998).
27 Versão popular disponível em: <http://letras.cifras.com.br/musicas-infantis/carioca-da-gema>. 28 Versão cantada e brincada pelo [S4].