5 DELTAKELSE
5.2 Kvalifisert deltakelse
5.2.5 Oppfordring til terrorhandlinger og inspirere til lignende aksjoner
Cabombo
Tabela 8: Salmos 137 (136), “Salmo 136”, de Saramago, e “Salmo da paz”, de Cabombo “Junto aos rios de Babilónia”, de
Salmos 137 (136)
“Salmo 136”411, de José Saramago “Salmo da Paz”412, de Carlos
Cabobo Junto dos rios de Babilónia
estávamos sentados e chorando, lembrando-nos de Sião.
Ali, sobre os salgueiros, suspendemos nossas harpas. Era lá que eles nos pediam —os nossos carcereiros—, cânticos; os nossos verdugos, alegria: «Cantai para nós cânticos de Sião». Como cantar os cânticos do Senhor
numa terra alheia?
Se de ti, Jerusalém, eu me esquecer, seja ressequida a minha dextra. Pegue-se a minha língua ao paladar, se me não lembrar de ti;
se não colocar Jerusalém
acima de todas as minhas alegrias. Lembrai-Vos, Senhor,
contra os filhos de Edom, no dia de Jerusalém,
quando gritavam: «arrasai-a»! Arrasai-a até aos seus fundamentos»! Filha de Babilónia devastadora, Feliz aquele que te retribuir A medida com que nos pagastes; feliz aquele que agarrar e esmagar Os teus filhinhos contra uma rocha!
Nem por abandonadas se calavam As harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos hebreusa não tocavam, O vento de Sião, nas cordas tensas,
A música da memória repetia. Mas nesta Babilónia em que vivemos, Na lembrança Sião e no futuro, Até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimentos nos pusessem, Mais do que os corpos, as almas e as [vontades Que mentimos já o ferro duro,
Se do que fomos deixaram as vaidades.
Têm os povos as músicas que merecem
O vento assobia Suavidade do tempo E perscruta o cântico [metafórico das vozes Há no silênciodas vozes O salmo da paz.
Não há nenhum resquício de dúvidas que Saramago e Cabombo decalcaram os seus textos do livro de Salmos 137 (136).
Neste caso, o sujeito poético de Saramago é mais ousado porque atribui o título “Salmo 136” tal como na Bíblia. O sujeito poético de Cabombo faz algo equivalente: “Salmo da Paz.”
A paráfrase sobre este texto sagrado não é tão recente quanto se possa imaginar, há séculos, outros autores inspiraram-se nele referimo-nos concretamente a Frei Heitor Pinto413, D. Jerónimo Osório414, D. Francisco Manuel de Mello415 e Camões416.
411 José Saramago, op. cit., p. 72. 412 Carlos Cabombo, op. cit., p. 35.
413 Frei Heitor Pinto, Imagem da vida cristã, ed. com prefácio e notas por P.e Manuel Alves Correia, 2a
ed., Vol. II, Lisboa,1956, p.15-20.
414 Jerónimo Osório, Ópera Omnia, vol.III. Antuérpia, 1596, p. 347.
A palavra salmo representa “cada um dos cânticos da Bíblia atribuídos a David, rei dos Hebreus (1015-975 a. C.?); hino em que se enaltece ou agradece a Deus. Do grego, psalmós, «ária tocada na lira», pelo latim psalmu—, «idem.»417
O texto sagrado traz a temática do exílio, que é refletida nos textos dos nossos poetas.
Verifique-se os topónimos que o sujeito poético de Saramago decalca da Bíblia: “Sião” e “Babilónia”, um verdadeiro contraste. Pelo texto sagrado entende-se “Babilônia como metáfora por excelência do mal, em contraposição à Sião, à Jerusalém que se torna celeste no Apocalipse.”418
O sujeito poético de Saramago recorre ao silêncio: “por abandonadas se calavam/ não tocavam/ Até o vento calou a melodia”, que muito se assemelha ao sujeito poético de Cabombo: “no silêncio das vozes”. O que leva o sujeito poético de Saramago a optar pelo “ferro duro.”
Outro fator a considerar é o saudosismo, tão refletido na Bíblia: “estávamos sentados e chorando, lembrando-nos de Sião/ Ali sobre os salgueiros, suspendendo nossas armas” como no sujeito poético de Saramago: “O vento de Sião nas cordas tensas/ A música na memória se repetia/Na lembrança de Sião e no futuro/ Se do que fomos deixaram as vaidades” como também pelo sujeito poético de Cabombo: “suavidade do tempo/ E perscruta no cântico metafórico das vozes.”
A valorização ao passado a que os poetas nos remetem é sinónimo da preferência dada à vida antiga. Àquela que jamais voltarão a ver e por isto o sujeito poético de Saramago é mais radical preferindo o luto: “os corpos, as almas.”
O Salmos 137 (136), longe de ser “O salmo da paz”, é um louvor ao descontentamento, à insegurança. O não saber o que se espera. É um desconforto interior. É acima de tudo a desvalorização do eu.
O salmista termina o texto com grande aversão: “Feliz aquele que te retribuir/A medida com que nos pagastes;/feliz aquele que agarrar e esmagar/Os teus filhinhos contra uma rocha!”
Aos poetas sobram apenas: “consentimentos” “metafóricos” e nada mais.
O sujeito poético de Saramago segue o mesmo padrão da Bíblia: da primeira à última estrofe. Outra curiosidade neste poeta é o monóstico, um dos poucos refletidos em toda a obra.
416 Manuel Augusto Rodrigues considera que “entre estes autores nenhum deles soube tão bem como
Camões penetrar no âmago e emprestar-lhe uma orientação cristocêntrica tão precisa e profunda” e cremos que foi nesta linha de pensamento que Saramago se reveste.
Manuel Augusto Rodrigues, As Redondilhas «Sôbolos Rios» e a Tradição Patrística, separata da revista da universidade de Coimbra vol. XXXIII – ano 1985, p. 241-268.
417 Grande Dicionário Língua Portuguesa, Porto, Porto Editora, 2004, p. 1375.
418 Luiz da Rosa, Como Analisar o Contexto de Salmos 137:8-9. 7.10.2010. Disponível em
http://www.abiblia.org/ver.php?id=867&id_autor=2&id_utente=&caso=perguntas. Acesso a 4 de janeiro de 2018.
A incorporação “nós” também é outro fator que chama a nossa atenção. A recorrência aos verbos: abandonar, tocar e viver cuidadosamente selecionados.
O sujeito poético de Cabombo, como já é de praxe, produz uma única estrofe que encerra a canção de exílio.
No caso deste poeta, pensamos que ele se tenha inspirado no espírito dos salmos em geral, e não exatamente neste salmo.
Pela ligação dos salmos enquadramos este intertexto na relação explícita. Primeiro porque os poetas denunciam, pelo título, a canção do exílio, segundo, a transposição dos mesmos termos fazem-nos assumir o maior grau de intertextualidade.