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Grensen mot humanitært arbeid

5 DELTAKELSE

5.2 Kvalifisert deltakelse

5.2.8 Grensen mot humanitært arbeid

Tabela 9: “Rico Avarento”, e “O Lázaro”, de Torga

“Parábola do Rico Avarento”, de S. Lucas 16:20-26 “O Lázaro”419, de Miguel Torga

Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao portão coberto de chagas.

Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; e até os cães lamber-lhe as chagas. Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. No inferno achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão, e Lázaro no seu seio. Então ergueu a voz e disse: “Pai Abraão tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar com água a ponta do seu dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas”. Abraão respondeu-lhe: “Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida, e Lázaro somente males. Agora ele é consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, entre nós e vós, não poderia fazê-lo, nem tão pouco vir daí para junto de nós”.

O Lázaro sou eu, não foi o Outro, O das migalhas e das chagas podres. O lázaro sou eu, aqui sentado à mesa do Vice-Rei

A mastigar com nojo estes faisões!... Sou eu, que disse não e me perdi. Que vi Deus e nunca acreditei. Que vi a estrada impedida. e passei...

Sou eu, que não sou feliz no Céu nem no inferno, porque no Céu há paz e no Inferno há guerra, e a minha paz é outra e a minha guerra é [outra... Sou eu, tão Grande e Pequeno

que nem sirvo para grão

Sou eu, que ou tudo ou nada, ou Vida ou Morte, e acerto sempre na Morte!

Sou eu, que me disse adeus e fiquei à minha espera!... Sou eu, o Alfa e o Omega

que o Anjo –Satanás me prometeu!... Sou este Nobre-Vilão descalço e de gravata, Sou eu— e mostro-me todo!

Quem puder, arranque os olhos e venha cheio de Fé

ver o Lázaro real

Que não vem nos Evangelhos, mas é!...

Servindo-se de anáforas, o sujeito poético de Torga começa por caraterizar o Lázaro: “O Lázaro sou eu, não o Outro/ O das migalhas e das chagas podres.”

Esta caraterização é necessária para não confundirmos com o outro Lázaro, o ressuscitado.420

O Lázaro do nosso poeta é um homem só, paupérrimo, que ficava à porta de um homem rico para saciar a fome: “um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão coberto de chagas/ Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as chagas.”

O sujeito poético de Torga transporta este estrato para o seu texto: “O Lázaro sou eu, aqui sentado / À mesa do Vice-Rei/ A mastigar com nojo estes faisões.”

O Lázaro do nosso poeta é tão criativo que se imaginava à mesa. Condição que ele nunca tinha ostentado. Mas ele logo acorda e percebe que é um pesadelo.

419 Miguel Torga, op. cit., p. 53. 420 Relatado por S. João 11:1-46.

Este Lázaro possui várias dicotomias: “Céu x Inferno”, “paz x guerra”, “Grande x Pequeno”, “Alfa x Ómega”, “Vida x Morte”, “Anjo x Satanás.”

Ele percebe que não cabe em nenhuma destas esferas. Primeiro porque ele é muito para si e ao mesmo tempo é pouco.

Ele não pode caber no Céu “Porque no Céu há paz e no Inferno há guerra/ E a minha paz é outra e a minha guerra é outra.”

Este Lázaro não se compadece com o céu que nos é refletido. Tão pouco o nosso inferno comparar-se-á ao dele.

O sujeito poético de Torga apresenta um Lázaro que é “tão Grande e Pequeno/ Que nem sirvo para grão.”

É grande para nós e é pequeno para si mesmo. Tão ínfimo que desaparece dentro si e o seu único acerto é “sempre na Morte.”

Este Lázaro é o único homem que se despede e encontra-se. Afasta-se das frustrações, dos insucessos, das chagas, mas a única pessoa que espera por ele é ele próprio: “Sou eu que me disse adeus/ E fiquei à minha espera.”

Nem no céu Lázaro foi poupado, senão pela mão de Abraão. Queria o homem rico e insensível fazer-lhe de criado: “envia Lázaro, para molhar em água a ponta do seu dedo e refrescar-me a língua. Abraão respondeu-lhe: filho recebeste os teus bens em terra e Lázaro somente males.”

O poeta apresenta um Lázaro que foi o seu princípio e fim simultâneo. Ninguém sequer ousou estar no meio dele: “Sou eu, o Alfa e o Ómega.”

O homem que antes de si nada existia e com ele se foram as maldades, acabou-se o sofrimento e a fome.

O sujeito poético de Torga não se cansa de apresentar o Lázaro: “Sou eu, vestido de holanda/ Sou eu, nado e criado para amar/ Sou eu, que disse não e me perdi. / Sou eu, que ou tudo, ou nada, /Sou eu, que me disse adeus/ Sou eu, o louco sem asas/Sou eu—e mostro- me todo!”

O nome Lázaro acarreta um significado forte: “Deus ajuda”421, um verdadeiro contraste quer na Bíblia como no sujeito poético de Torga.

Talvez seja por isto que este homem mesmo vendo Deus, não acreditou: “Que vi Deus e não acreditei.”

Poderemos culpá-lo por isto? De certeza que não! Ele já se culpa pelo fato de existir e isto lhe basta.

A última estrofe, apesar de contraditória, é real. Contraditória porque este Lázaro também aparece nos Evangelhos. Embora o poeta negue: “Lázaro real/ Que não vem nos Evangelhos”. É real porque é necessário ter olhos mágicos e “cheio de Fé” para olhar este Lázaro e não lacrimejar.

O poeta serve-se de 8 estrofes repletas de anáforas e encavalgamentos. As reticências muito predominam o texto. Os versos livres e irregulares é marca frequente do poeta.

421 Ana Bel, op. cit. p. 151.

Deduzir-se-á uma intertextualidade de tipo explícita e com o terceiro nível dos graus. Primeiro, pela transposição de termos: “Lázaro x Lázaro”, “chagas x chagas”, “morte x vida”, “chamas x inferno”, “Deus x Abraão”, “pobre x migalhas”. Segundo, pelo conteúdo semântico, pela descrição perfeita do lazarone.

Com este Lázaro aprendemos que o “Vice-Rei” e o homem das “Chagas” tiveram o mesmo fim: a “Morte.”

CAPÍTULO III. VIDA E OBRA DOS AUTORES