• No results found

Freire afirma que sua visão de mundo inclui a crença em Cristo, em combinação com leituras de Karl Marx, para poder se localizar na terra não dicotomizando jamais a transcedentalidade da mundanidade. As duas dimensões são colocadas em diálogo por Freire, para fazer a sua interpretação do momento. Essa dialética de dimensões revolucionou sua práxis, abrindo horizontes para novas abordagens dos problemas educacionais e sociais nas suas mais diversas relações e reciprocidades onde a realidade se produz e se reproduz continuamente. (FREIRE, 2008, pp. 46, 47, 107, 146)

Os conceitos que Freire empresta de Marx e de outros autores recebem leitura própria. Quando usa o termo “alienação”, conceito emprestado de Karl Marx, a ideia de separação do mundo e da história parece se harmonizar ao pensamento marxista com relação à divisão de trabalho, o que significa “alienação” em Marx, “alienação” no processo de produção, nas relações de trabalho. Em Freire, a dicotomização, ou separação entre ação e reflexão, homem e mundo, homem e palavra, ser e ser mais, é incompatível com a “vocação para mudança”, com a “vocação ontológica” e com a vida que se desenvolve no presente. A dialética, na pedagogia de Freire, se expressa nas contradições que permeiam todo seu pensamento educativo e sua percepção da realidade. A consciência amortecida pode ainda ser relacionada ao conceito de “alienação”, o que não autoriza a conclusão de que Freire seja marxista; inclusive, ele se declara não marxista e não teólogo; apenas, empresta ideias para sua filosofia educacional, sem se deixar aprisionar. (FREIRE, 2008, p. 89)

Paulo Freire afirma (2005, pp. 41- 44) que, quando muito moço, foi às favelas, aos mangues, movido por certo espírito religioso, mas que, ao se deparar com a realidade dura do favelado e do camponês, e a tendência ao conformismo, foi remetido a Marx. (FREIRE, 2005, pp. 41-44)

Em relação às classes sociais, Freire refere-se à classe trabalhadora a partir do ponto de vista da “educação popular” objetiva. Para ele, o trabalhador tem o direito de aprender a razão dos procedimentos técnicos, como surgiram, por que razão, levado

assim à curiosidade de refletir sobre o que aprende e sobre o que faz. O processo de conhecer faz parte da educação prática, do treinamento técnico; sem a reflexão sobre a própria ação, o processo educativo fica interessante para a classe dominante, que “reproduz” a classe trabalhadora constantemente. A tecnologia, entretanto, não deve ser “divinizada” nem “demonologizada”; deve estar a serviço do ser humano e não o contrário. Do ponto de vista freiriano, a formação da classe trabalhadora tem de caminhar junto com o direito de saber. Nos tempos modernos, o ato de apertar parafusos, a produção em escala e os procedimentos tecnológicos, precisam ser submetidos ao crivo da razão; o trabalhador tem o direito de saber como funciona a sociedade, porque as coisas são como são. Saber sua própria história, no que concerne ao trabalho; suas relações dialéticas com o mundo e ideologias; classes sociais e educação, deveriam ser um direito inalienável. (FREIRE, 2008, pp. 132, 133)

O que ocorre no tecnicismo pedagógico é que deste pode resultar um ser humano descaracterizado, que não sabe a razão de se apertar um parafuso numa linha de produção, despolitizado. Paulo Freire responde à crítica de que sua pedagogia está ultrapassada devido à necessidade de mão de obra especialmente técnica na atualidade da seguinte maneira:

[...]. Não importa em que sociedade estejamos, em que mundo nos encontremos, não é possível formar engenheiros ou pedreiros, físicos ou enfermeiras, dentistas ou torneiros, educadores ou mecânicos, agricultores ou filósofos, pecuaristas ou biólogos sem uma compreensão de nós mesmos enquanto seres históricos, políticos, sociais e culturais; sem uma compreensão de como a sociedade funciona. E isto o

treinamento supostamente apenas técnico não dá. (FREIRE, 2008, p.

134)

Em síntese, Freire critica, na Pedagogia do Oprimido a negação do sonho, imposta pelo Neoliberalismo, ao impossibilitar mudanças. Na Pedagogia do Oprimido, aprende-se que é necessário criar condições para realização desse sonho utópico; por isso sua pedagogia é dialógica e dialética. O objetivo da sua pedagogia é o de uma escola pública e popular, em busca de cidadania; novos alunos, novos professores, novo histórico escolar no qual prevalece a vivência do estudante, que permita pluralidade de organização e umaa reorientação curricular voltada para os problemas atuais. (GADOTTI, 2001, pp. 5-7)

3. 5 A Pedagogia da Esperança

O reencontro com a Pedagogia do Oprimido realiza-se através da experiência de quem já foi; não por mero saudosismo, mas pelo fato de que, sem essas memórias arquivadas e reeditadas por Freire, a Pedagogia do Oprimido não se realizaria, não teria sido escrita. Suas experiências do passado foram fundamentais para a elucidação de uma filosofia educacional para a libertação. Na verdade, a Pedagogia do Oprimido ocorreu a Freire ao ser arguido pela realidade da pobreza e da opressão que ele ainda não havia visitado, ele que pensava saber, que pensava educar. Foi o desafio de lidar com sentimentos, história e necessidades, de quem tem uma leitura de mundo marcada por limitações e desesperança, pelo cansaço da lida diária, de quem volta para uma casa onde não há conforto nem paz. Ignorar essa realidade prejudicaria a comunicação em grande parte, porque alguma coisa os oprimidos, isolados da realidade, conseguem compreender. (FREIRE, 2008, pp.26- 35)

Paulo Freire surpreendeu-se com as mudanças ocorridas entre 1964 e 1969. Quem proclamava a opção pela transformação da sociedade, agora voltava medroso do meio do caminho, tornando-se reacionário; mas, tal processo serviu para identificar quem estava comprometido com a causa dos oprimidos e quem não estava. Essas mudanças radicais no âmbito político e social, talvez não tenham tido nenhuma outra que se equiparasse à sua riqueza problematizadora. Os camponeses foram empurrados à análise de suas realidades local e nacional. Os discursos camponeses eram de afirmação, vontade de melhorar, de ter um mundo mais bonito, relacionados com melhor leitura de mundo, leitura que impulsiona à mobilização e à organização para luta pelos direitos; é a vontade de ter “o opressor fora de si”. (FREIRE, 2008, pp. 40- 44)

As experiências, segundo a visão freiriana, precisam ser revistas, reeditadas; sua pedagogia é progressista, mas também reversiva; os saberes se constituem criticamente e se consolidam ao longo da história de vida. Assim, a Pedagogia do Oprimido começou no Brasil e se cumulou em trânsito por outras geografias e realidades. (FREIRE, 2008, p.44)