Como mais um traço da nova economia psíquica, Lebrun invoca e interroga Melman acerca do lugar da divisão subjetiva. Segundo este último, não há mais divisão subjetiva, o sujeito não é mais dividido, pois falar de sujeito dividido é dizer que ele se interroga sobre sua própria existência, que ele introduz em sua vida uma dialética, uma oposição, uma reflexão. Ele fala então de um sujeito inteiro, compacto, não dividido, ou seja, um sujeito que é universalizado, banalizado, comum, médio, qualquer. Embora ele seja novamente, e como de costume, taxativo quando diz que não há mais divisão subjetiva, no final do parágrafo ele recua um pouco e diz que hoje em dia quase não vemos a expressão do que seria a divisão subjetiva.
Recorremos ao glossário ao final do livro para um maior esclarecimento sobre ao que os autores se referem quando falam em divisão subjetiva:
DIVISÃO DO SUJEITO / DIVISÃO SUBJETIVA: O fato de estar “submetido” à linguagem tem como consequência, para o sujeito, não poder ter à sua disposição – contrariamente ao animal – um comportamento predeterminado. A perda que a “captura” na linguagem implica engendra uma incerteza irredutível para o sujeito quanto a seu desejo. Ele está condenado a buscá-lo sem nunca encontrá-lo (MELMAN, 2008a, p. 201, grifos do autor).
Parece ser um paradoxo, pois, ao mesmo tempo, o sujeito contemporâneo tenta buscar uma individualização, uma separação desse igual, desse universal. Nunca se falou tanto – nas vendas, nas propagandas – em produtos personalizados, atendimento personalizado ou diferenciado, roupas exclusivas, feitas sob medida. Os sites, tanto de vendas quanto as redes sociais, utilizam programas para “facilitar” a vida dos internautas. Por exemplo, em sites de livrarias, quando procuramos um livro, aparecem sugestões do tipo “Se você gostou do livro tal, deverá gostar de tal, tal e tal”. Tudo converge para que só precisemos navegar pelos produtos de nosso interesse. Nas redes sociais, acontece de forma semelhante. As lojas e produtos que são anunciados geralmente se encaixam no seu perfil de gostos e preferências. Na rede, a tendência é de nos tornarmos, cada vez mais, esses sujeitos universalizados, médios, banais, de que fala Melman.
Eli Pariser, ativista digital americano, é autor de um livro intitulado O filtro invisível, no qual alerta sobre essa personalização do conteúdo em sites na internet, usando os exemplos do Google e do Facebook. Numa entrevista para a revista Época, com o título “A internet
esconde quem discorda de você” 13, Pariser conta que em 2011, ao acessar seu perfil no Facebook, ele notou que as postagens de seus amigos republicanos tinham desaparecido. A fórmula usada pelo site para decidir quais postagens eram mais relevantes determinara que, como ele acessava mais links enviados por democratas, as atualizações desses amigos eram mais importantes que as dos outros e deveriam receber mais destaque.
O autor do livro afirma que o Facebook, por exemplo, edita o conteúdo do perfil dos usuários para dar mais ênfase aos amigos com quem estes costumam interagir mais e esconder as postagens de amigos com quem se interage menos. Ele explica que isso é feito por fórmulas matemáticas complexas, que levam em conta cada um de nossos cliques quando estamos no site, e funciona de acordo com regras obscuras para o usuário. Sendo assim, essas fórmulas, esses filtros, que são invisíveis para os usuários, acabam isolando as pessoas em grupos e sites que tenham relação com seus gostos e preferências pessoais, restringindo o acesso a opiniões diferentes.
Algo semelhante acontece com o Google. O autor afirma que, desde dezembro de 2010, quando o Google ativou as buscas personalizadas para todos os usuários, deixamos de ter um Google para todos, com os mesmos resultados, e passamos a ter resultados filtrados para cada pessoa. Desta forma, duas pessoas procurando as mesmas palavras ao mesmo tempo podem receber resultados muito diferentes. Para ele, isto foi uma mudança importante, pois os usuários imaginam que o Google seja neutro e imparcial, e ofereça respostas universais.
Nesta entrevista, Pariser enfatiza que existe um dilema ético nessa personalização dos sites, pois quando não temos contato com opiniões diferentes das nossas, corremos o risco de perder o senso de falibilidade. Ele diz: “Quando todas as pessoas a seu redor concordam com você, é fácil acreditar que sua opinião é a verdade para todos, e não apenas para alguns de seus amigos. E, se ninguém enfrenta seus argumentos, é natural que você imagine que está certo e que não há espaço para discussão. Isso vale para tudo, desde as grandes questões políticas aos pequenos preconceitos. Com o tempo, essa falta de debate pode tornar as pessoas mais intolerantes”. Esse apagamento das diferenças é também uma característica marcante do campo da perversão.
Sobre esta questão, podemos encontrar relação com o que Melman assinala sobre a nossa economia ser capaz de nos fornecer objetos sempre mais fantásticos, mais próprios a nos fornecer satisfações, tanto objetais quanto narcísicas. “Graças a eles, não se trata mais de
13 <http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2012/08/internet-esconde-quem-discorda-de-voce.html> Acesso
se satisfazer com representações, mas com o próprio, autêntico, com o objeto não mais representado, mas efetivamente ali, presente na realidade” (MELMAN, 2008a, p. 28). Ele diz que é nesse campo que ele situa o lugar que adquire hoje a teoria cognitivista, “pois, justamente, ela é organizada com base nesse princípio. A aprendizagem direta dos caminhos de acesso, tanto ao objeto quanto a si mesmo, deve assegurar uma trajetória quase feliz e sem complicações” (Ibid, p. 28).
Uma das características do sujeito que se encontra dividido é de se questionar. Para Melman, então, a teoria cognitivista teria um grande espaço hoje justamente porque não é necessário que se questione sobre motivações, sentimentos, etc., pois a aprendizagem de novos caminhos, a “correção” de pensamentos ou comportamentos proporciona uma melhora na qualidade de vida – pelo menos aparentemente – muito mais rápida e com menos sofrimento. Juntamente com as terapias cognitivas, muitas vezes entram as medicações, as drogas lícitas que, segundo Melman, tem o propósito de aliviar a dor da existência.
Alivia-se a dor da existência também quando se perde a necessidade de se questionar sobre a vida, sobre si mesmo, sobre os acontecimentos. Não se pode dizer que essa saída não seja legítima ou que seja difícil compreender que muitas pessoas prefiram buscar este caminho. Afinal, por que alguém escolheria passar por um processo doloroso de questionamentos (como é um processo de análise, por exemplo) em que não se dão garantias, ao invés de escolher amenizar o sofrimento de forma mais rápida, menos complicada e dolorida?
No entanto, um dos perigos desse caminho é o da simplificação de todas as situações e a universalização. Mais uma vez, o apagamento das subjetividades. A medicalização também é preocupante especialmente em crianças (como temos visto com frequência atualmente), pois se simplifica qualquer situação que fuja à norma, acreditando que o remédio tem o poder de eliminar o desconforto produzido na própria criança e, principalmente, nas pessoas do entorno, como os pais e professores.
Em 2004, um ano após o lançamento de O homem sem gravidade, Melman veio ao Brasil e participou de um seminário sobre os laços conjugais na modernidade. O evento, com o título “Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem?” aconteceu no Rio de Janeiro e foi promovido pela associação psicanalítica Tempo Freudiano. Em sua passagem pelo Brasil, Melman concedeu uma entrevista à Revista ISTOÉ, intitulada “A era
do prazer”14, na qual fala sobre a nova economia psíquica. Percebemos que, nessa entrevista, ele tenta condensar os muitos pontos que trata no livro O Homem sem Gravidade. Obviamente, como se trata de uma entrevista (com tempo para a fala reduzido), ele somente cita alguns pontos, não sendo possível detalhá-los, como ele faz no livro. Relataremos aqui alguns trechos da citada entrevista no intuito de dar mais visibilidade a algumas questões que o autor julgou importantes para alcançar um público diferente do que frequenta os eventos psicanalíticos, ou seja, um público leitor da revista, e possivelmente não familiarizado com a psicanálise.