Mas por que ainda falar do período ditatorial no Brasil? A ditadura é um passado que é recente, que nos chama a todo instante, que nos leva a procurar por respostas. Não se trata apenas de discorrer sobre os “entretempos”, buscar no passado reflexões acerca do presente ou do futuro (como o fato da desestabilização da economia, a intensificação da corrupção e incoerências políticas atuais serem efeitos em grande parte produzidos pela ditadura), pois a história não é feita apenas de situações visíveis e registradas, como antes se concordava, mas também do desbravamento de outros territórios. Dentre eles, a posição da mulher. Segundo
124 Ana Maria Colling, “a história da repressão durante o regime militar é uma história de homens” (COLLING, 1997, p. 65).
A ditadura produziu corpos marcados pelo governo repressivo, corpos que se dedicaram à militância clandestina em oposição ao regime. Neste período obscuro, sabe-se que muitas mulheres militantes precisaram viver na clandestinidade e fazerem de seus corpos instrumentos “invisíveis” para combaterem a repressão. Corpos “invisíveis”, pois era necessário tornarem-se nulas ante a sociedade, chegar e sair sem serem percebidas nos encontros e reuniões clandestinas e mudar constantemente de nomes, lugares, identidades. Susel Oliveira da Rosa nos fala que “transformar seu corpo em máquina de guerra passou pela experiência da clandestinidade” (ROSA, 2013, p. 46), referindo-se às experiências vividas por suas entrevistadas que foram militantes na ditadura.
Nesse contexto, no qual a ordem era dissolver qualquer voz discordante, as mulheres militantes cometiam um duplo crime, o de se opor ao regime e o crime enquanto gênero, visto que a figura de “mãe e esposa” voltava-se para a figura da “prostituta”, estigma que perdura até hoje, associado à identidade da mulher que se arrisca a ser ousada em qualquer campo social: “A natureza é sempre invocada na condenação das mulheres que exercitam sua liberdade, que abrem voos muito além dos limites domésticos” (SWAIN apud ROSA, 2013, p. 37). Elizabeth Ferreira salienta este pensamento lembrando que as mulheres não eram só condenadas por serem terroristas, mas acusadas duplamente, por serem terroristas e mulheres (FERREIRA apud ROSA, 2013, p.59). Ao corpo social da mulher, é instilado o que a autora chama de “maternidade social”, lugar onde a procriação biológica é acentuada. Os filhos e a amamentação seriam os argumentos para excluírem a mulher do campo social. As militantes viviam num universo masculinizado, pois a figura universal do militante era masculina. Eram induzidas a tomarem a forma masculina e assim muitas mulheres precisaram se dessexuar para atuarem na luta armada, gerando muitas denominações depreciativas, verdadeiros estigmas contra a mulher, como “feias”, “mal amadas”, “prostitutas” ou “machonas”. Passavam por um processo de aniquilamento de identidade, advindo muitas vezes também dos próprios companheiros dos grupos dos quais faziam parte. O ato de se “enfeiar” ou de se masculinizar é muito presente nos relatos de muitas militantes que atuaram na ditadura no Brasil, no uso de roupas largas e cabelos curtos, no não uso de maquiagem ou de qualquer acessório que as tornassem femininas, ao passo que “os homens
125 militantes não precisaram passar por nenhuma transformação visual”, segundo Nilce, uma das militantes entrevistadas por Rosa (ROSA, 2013, p. 32).
Os discursos dos movimentos esquerdistas propagavam a igualdade, mas a verdade é que as “mulheres puderam sentir muitas discriminações por parte de seus próprios companheiros, tanto pela superproteção, quanto pela subestimação de sua capacidade física e intelectual” (TELES apud ROSA, 2013, p.34). Assim, a partir do que era conveniente para os militantes masculinos, a “invisibilidade” da mulher era imposta, forçadas a uma discrição exacerbada, anulando parte da presença puramente feminina na luta contra a repressão (afinal, teoricamente, eram todos militantes) ou eram impostas a fazerem “serviços de mulher”, como servir café ou fazer a faxina para os homens. Atuavam como ajudantes dos militantes masculinos, eram meras coadjuvantes nos trabalhos de militância.
Além de terem seus corpos dessexuados e serem vítimas de discriminações de gênero por parte dos próprios companheiros, o corpo da mulher militante na ditadura era alvo não só das atrocidades físicas e psicológicas advindas das torturas: era alvo também do castigo masculino, que visava punir as mulheres também por serem mulheres. Atitude puramente misógina, a diminuição do gênero feminino também fazia parte dos processos de torturas. É certo que tanto as torturas físicas (inclusive nos órgãos sexuais) e psicológicas eram aplicadas em ambos os sexos, mas para a mulher foi reservada a submissão do poder masculino sobre o feminino, pois o estupro era realizado neste período especificamente contra os corpos das mulheres. Eram agentes masculinos que utilizavam a diferença de gênero como mais uma forma de atingir as mulheres “porque são mulheres, pois se não são propriedade de um homem, pertencem, no sistema patriarcal, a todos eles”, (SWAIN apud ROSA, 2013, p.59). O relato de Inês Etienne Romeu27, diz o seguinte:
A qualquer hora do dia ou da noite sofria agressões físicas e morais. “Márcio” invadia minha cela para “examinar” meu ânus e verificar se “Camarão” havia praticado sodomia comigo. Este mesmo “Márcio” obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante este período fui estuprada duas vezes por Camarão e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros (CHIAVENATO, 2005, p. 187).
27“Brasil: nunca mais – Um relato para a história”, traz depoimentos de mulheres vítimas não só de estupros, mas
126 O estupro é, inclusive, segundo Marzano, quando das vezes em que a vítima permanece viva, “[...] um homicídio sem cadáver. A vítima continua viva, mas algo dentro dela ficou irrevogavelmente destruído, pois o estupro é um atentado não apenas à feminilidade, mas também à maternidade” (MARZANO, 2012, p. 429), além de transpor o corpo a uma outra realidade, onde não acontece sua reconstituição, é um “abuso de todos os sentidos no qual nenhuma parte do corpo continua realmente no lugar” (MARZANO, 2012, p. 429).
Com a nudez e a humilhação diante de homens imorais e truculentos, qualquer confissão inventada era mantida. Sabe-se, pelo simples bom senso que, dentro das leis democráticas, qualquer confissão à base de tortura é nula porque o torturado fala o que o seu torturador quer ouvir. A tortura mostra-se como poder absoluto sobre o corpo da vítima impotente, que está à mercê deste poder. Ela anula a vítima pela desarticulação da identidade, através de violências físicas e morais e o próprio corpo da vítima passa a ser seu “[...] inimigo disfarçado que está exposto aos excessos dos carrascos [...]” (MARZANO, 2012, p. 973). Nesta perspectiva, as mulheres militantes resistiam não só às torturas e à ação misógina por parte dos homens, mas algumas, em alguns casos, às agressões produzidas pelos estupros e em geral, aos limites dos próprios corpos. Corpos resistentes à antidemocracia e à injustiça social. Corpos femininos, marcados pelo regime da ditadura, que exalavam o desejo libertário da igualdade social e das diferenças humanas.
Diferentemente das mulheres militantes, que precisavam se esconder para atuarem contra o regime, as atrizes faziam o oposto: se expunham para discordar da situação sociopolítica vigente, visto que, obviamente, o teatro é uma atividade de exibição. Como as militantes, em alguns casos foram necessárias as fugas ou os exílios de atrizes ou ainda algumas tiveram que passar pela experiência da clandestinidade, devido ao teor subversivo e politizado que permeavam as montagens teatrais dos grupos em que atuavam, como a pernambucana Ilva Niño, atriz do Teatro de Cultura Popular, como visto anteriormente. Algumas atrizes que se opuseram ao regime usaram seus corpos, em alguns casos nus, como Ivonete, atriz do Vivencial, com os mesmos propósitos que os das mulheres militantes, que eram os de discordar da ditadura. Se o nu para as militantes, era usado para a propagação das torturas, no teatro ele transgride e passa a ser arma contra a repressão. Ao assumir a militância política, algumas militantes negam sua sexualidade, como precondição para chegar
127 a uma relação de suposta igualdade com os homens. E em alguns casos particulares de atrizes, como no Vivencial, acontece o oposto: elas enfatizam a feminilidade e usam o nu em seus trabalhos artísticos para mostrarem sua posição contrária aos desmandos ditatoriais. Quais mecanismos se concentrariam na esfera teatral que permitiram essa diferenciação ou liberação? Para Ivonete Melo,
[...] o teatro tem meios que você pode dizer uma coisa de vários modos, entendeu? Você pode usar várias inflexões, assim como o corpo, a gente pode introduzir ele (sic) por essa inflexão que vai passar despercebido para as pessoas que procuravam censurar. O teatro tem o poder de dar o duplo sentido [...] (MELO, Ivonete. 2014a).
Ivonete pensa sobre os artifícios que o teatro pode desenvolver através dos seus elementos. Na iluminação cênica que, ao mesmo tempo que esconde, incita reflexões; nos figurinos e maquiagens que denunciavam, através dos personagens que simbolizavam o poder, com suas características que representavam os desmandos da ditadura; nos textos dramatúrgicos e cênicos, que apontavam os horrores causados pelo regime.
Para Suzana, “[...] o teatro tem uma força diferente do que falar normalmente” (COSTA, Suzana. 2014a).“Normalmente”, seria o cotidiano, a vida real. Ela também reflete sobre o fato de, no caso do Vivencial, o grupo ter mecanismos particulares, pois não era desenvolvido no grupo um teatro puramente político, não era partidário, voltava-se mais para a liberdade de expressão e do corpo. Havia, para ela, uma permissão implícita para com o Vivencial, porque era um grupo de jovens que não representava perigo. Neste sentido, talvez a nudez do Vivencial tenha driblado a ditadura, ela explicitava-se, atraindo maior atenção do que o próprio teor político, protestando implicitamente através do cômico e do escracho.
Para Stella, as estratégias das metáforas nos contextos dos textos dramatúrgicos, nas sonoplastias e nas encenações em geral, no intuito de despistar o olhar dos censores, eram a força que permitia o confronto com a ditadura, a forma pela qual o teatro de teor subversivo afrontava o regime e não era percebido. A montagem de “Os fuzis da Senhora Carrar”, de Bertolt Brecht, experiência vivida por ela neste sentido, trazia para a cena contextos semelhantes aos que estavam acontecendo com o Brasil naquele momento, falando do regime ditatorial espanhol e o franquismo num período antecessor. A mesma reflexão é desenvolvida por Zélia, que observa as metáforas e ambiguidades como os mecanismos principais utilizados pelo teatro na época para driblar o poder político.
128