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2.3 OPPFØLGING AV EVALUERING AV NORSKE SYSTEM ETTER INTERNASJONALE
O título acima se refere a um manuscrito de Leôncio Francisco das Chagas que narra, por meio de poemas, sua trajetória de vida dividida em três momentos. De maneira sutil, o autor deixa entrever seu envolvimento com a prática musical, apontando subjetivamente para o declínio de suas perspectivas de vida após a morte de sua esposa, capítulo de sua autobiografia que denominou “dolorosa”.
Sujeito de uma vivência musical pouco compreendida e experienciada nos dias atuais, sobretudo quando pensamos no ensino de música, Leôncio Chagas é um dos poucos casos em que é possível construir uma análise mediada pela sua comprovada atuação como mestre particular, preceptor e docente designado pelo Estado, em uma microrrealidade que conjectura um modelo dos arraiais e freguesias que nascem em Minas Gerais, cheios de peculiaridades históricas.
Leôncio Chagas nasceu em Itaverava, no ano de 1838, pela comprovada data de seu batismo em 30 de agosto do mesmo ano, segundo consta no livro de registros paroquiais de 1739-1901 da Freguesia de Santo Antônio de Itaverava, que se encontra no Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana. Foi registrado pelo pai, Francisco das Chagas de Jesus, como Leôncio Jesus, 11º irmão de uma família de treze filhos. O fato de Leôncio Chagas ser registrado sob um nome diferente do que assina nas fontes já consultadas criou grande dificuldade para que fosse encontrado seu registro de batismo, o que demonstra haver uma defasagem em relação à idade que lhe seria atribuída por meio de fontes musicais copiadas por sua filha, Annita Cândida, que fazem menção ao ano de 1845.
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Esses sete anos interfeririam no entendimento da época de infância em que Leôncio Chagas viveu em Itaverava e sua mudança para o distrito de Lamim, como localidade vinculada à freguesia de Queluz, abrindo uma nova perspectiva a ser explorada sobre quais foram seus mestres e que tipo de instrução teria recebido nos lugares em que viveu. Tem sido árido o terreno no qual tentamos acessar as informações acerca da infância de Leôncio, bem como sua formação. Em levantamento das datas e respectiva localidade de registro dos irmãos de Leôncio Chagas, é possível perceber uma permanência substancial de sua família em Itaverava.
Itaverava foi uma localidade importante na rota entre Minas e o Rio de Janeiro. Há diversos relatos de tropeiros e de viajantes que a incluíam como ponto de pouso. Itaverava possui uma igreja imponente, cujo orago é Santo Antônio, em mesmas condições elementares arquitetônicas da época em que Leôncio foi batizado.
FIGURA 9 - Imagem do teto da Igreja de Santo Antônio, em Itaverava
Fonte: Fotografia do autor; Pintura de Francisco Xavier Carneiro
A pintura da Matriz de Itaverava tem atribuição comprovada por documentação arquivística a Francisco Xavier Carneiro, datando a execução de 1823-1824 (OLIVEIRA 2003). Ressalta-se que, embora não haja estudos sobre a prática musical nessa localidade, podemos inferir que se trata de um preenchimento pictórico em total consonância com os
demais templos barrocos mineiros, cuja música religiosa foi de elevada elaboração, usando-se do coro e da orquestra para celebração das principais funções litúrgicas circulantes por meio do Theatro Eclesiástico21 naquele tempo.
Estabelecemos como uma correspondência possível entre este ambiente católico da música sacra e a religiosidade de Leôncio Chagas na presença frequente da invocação a Jesus em seus textos, além de um grande número de obras musicais sacras. Tal envolvimento só pode ter sido possível dada a proximidade da convivência familiar do catolicismo, parte da educação que recebeu.
O Padre Francisco Pereira de Assis batizou Leôncio Chagas, ordenou-se presbítero em 1815, foi capelão do segundo regimento de Cavalarias de Milícias da Comarca de Ouro Preto em 1825. Vereador da Câmara de Queluz em 1833, participou da Revolução Liberal de 1842, foi deputado provincial entre 1856 e 1862. Toda essa trajetória é marcada por eventos decorrentes de seu convívio com a Família Chagas, o que nos ajuda a perceber Leôncio Chagas como herdeiro22 de uma convivência intelectual em que estão presentes instituições sociais (religiosa e militar) decisivas para certo privilégio em relação ao seu acesso a uma educação qualificada. Essa percepção nos ajuda a inferir que, dado o domínio da escrita e a destreza teórico-musical de Leôncio Chagas, seus preceptores realizaram um trabalho substancial em relação à sua formação.
Temos, assim, evidências para nos perguntar se esses preceptores ensinavam as letras e os números associados às notas musicais, se teria sido por meio do ensino individual, simultâneo ou não, em contexto doméstico, ou mútuo, em alguma das instituições escolares, de Itaverava ou de localidades do entorno, contemporâneas ao seu estudo primário e secundário.
FIGURA 10 - Recorte do fac-símile do manuscrito Cantos de saudade do amor paternal, trecho do poema “Biografia do Auctor, poema em um só canto”
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Publicação realizada em 1817, por Frei Domingos do Rosário, o representante mais moderno de uma linhagem de tratadistas litúrgicos históricos. A publicação serviu à consolidação e difusão normativa dos cânticos litúrgicos em cantochão.
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O termo “herdeiro” incorporado à linguagem corrente para designar os filhos das famílias mais cultas e mais bem favorecidas economicamente. (BOURDIEU & PASSERON, 1964)
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Já mesmo liberto das leis da escola, Me punha a estudar;
Nas noites serenas, tocando viola, Cantava ao luar
Com a doce harmonia soava repleta Bonita canção;
Eu tinha p’la musica a mais predileta Cabal vocação.
Fonte: Arquivo Leôncio Francisco das Chagas (ALFC), sob custódia de Maria José Reis
O poema acima é um dos poucos momentos em que Leôncio das Chagas faz menção ao tempo em que estudava, que frequentava a escola, sem deixar de afirmar sua vocação para a música.
Sobre as possibilidades de entendimento deste espaço escolar, o censo realizado no ano de 1831 (o levantamento mais próximo do nascimento de Leôncio Chagas), em
Itaverava, havia uma escola de primeiras letras em que estudavam 49 meninos, sendo 19 brancos, 25 pardos, três crioulos e dois cabras, ou seja, 61% de negros e 39% de brancos. Embora não tenha sido possível comprovar sua participação como aluno dessa escola, esses dados servem-nos como apontamento da existência de uma instituição formal de ensino na localidade onde passou sua infância.
Por meio do trabalho de Neves e Veiga (s.d.), pressupomos um circuito político geográfico correspondente ao período em que Leôncio Chagas frequentaria o secundário, em que constam, até o momento, os seguintes colégios:
QUADRO 4 - Levantamento dos colégios do ensino secundário na circunscrição geográfica de Leôncio Francisco das Chagas
Colégio Localização Data Tinha
cadeira de música
Colégio de Nossa Senhora de Assunção
Ouro Preto 1840-1854 Não
Liceu Mineiro Ouro Preto 1854-1860 Não
Seminário São José Mariana 1750 Não
Colégio Roussin Mariana 1852-1827 Não
Colégio Congonhas do Campo Congonhas 1841 Não
Colégio Barbacenense Barbacena 1853-1857 Não
Colégio do Caraça Catas Altas (do Mato Dentro)
1822-1849 1857
Sim
Colégio Piranguense Piranga 1854-1857 Sim
Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Neves e Veiga (s.d.)
Em que pese a falta de dados para afirmar em qual destes colégios Leôncio Chagas poderia ter estudado, tenderíamos a iniciar a investigação pelo Colégio Piranguense, tendo em vista a proximidade espacial e o fato de que há cópias de obras de Leôncio procedentes desse município, não fosse o fato de haver uma passagem textual em um de seus poemas em que ele faz a seguinte afirmação:
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3 A IGREJA COMO INSTÂNCIA EDUCATIVA – OS SUJEITOS E SUAS PRÁTICAS MUSICAIS