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In document 2015 FINANSIELL INFRASTRUKTUR (sider 25-29)

No campo das Ciências da Educação, são considerados vários tipos de instituições educativas como objetos de pesquisa, mas vale notar que a família emerge como o arranjo primário da convivência humana, situação ideal em que o sujeito, ao nascer, convive com o outro. No século XIX a palavra família foi dicionarizada como “pessoas de uma mesma casa” (PINTO, 1832, n.p.). Falar da família é um dos tipos de construção em que mais se arrisca incorrer no problema do anedotário, por isso, tentamos buscar métodos de análise e entendimentos do núcleo em outros campos do conhecimento, com vistas a uma abordagem teórico-metodológica multidisciplinar.

Se tais pessoas conviveram em uma mesma casa e educaram-se umas às outras, seus nomes podem emergir da prática escrita cotidiana, não só pelo trato diário, mas também, no caso do núcleo familiar de Leôncio Francisco das Chagas, pelas missivas, pelas celebrações de natalício e morte e pelas dedicatórias. Por meio desses nomes, quando tratados como dados arquivológicos, apropriamo-nos do campo procedência/pessoas, usado na catalogação da CDO, como um repositório a partir do qual foi possível cruzar os nomes que, de alguma maneira, estiveram relacionados a essas fontes musicais.

Leôncio Chagas escreveu uma espécie de diário em versos. Por meio de suas representações, transporta-nos à sonoridade da sua dinâmica doméstica. Aspectos como a estruturação da casa, a presença de espaços em que viveu na infância, sua relação com a música, tornam-se elementos importantes para saber como esse núcleo familiar funcionou e como, além de sua própria conformação, podemos alcançar uma macropercepção do conceito de família no contexto educativo mineiro, entrevisto como uma das mais consolidadas estruturas de transmissão cultural em que a música esteve presente.

O levantamento sobre a família nos conectou a outras instâncias educativas, à medida que perpassamos a ocupação desses sujeitos, além de situá-los numa constelação de interlocutores musicais, demonstrando suas ligações interpessoais e educativas. Nessas conexões, há aquelas em que sobressai a música enquanto necessidade humana, em constante processo de transmissão, em evidência por meio de suas funções sociais.

A análise que realizamos coloca Leôncio Chagas no centro dessa comunidade, partindo de informações que levantamos, tendo como ponto de partida seu arquivo pessoal. Serão possíveis outros pontos de vista que nos possibilitem constatar qual a centralidade irradiadora desse agente nos grupos nos quais atuou? Tentemos, então, guiar criticamente

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nossa decomposição, pesquisando suas relações sociais de dentro da família para fora, ao buscar também as outras instâncias de sociabilidade, considerando que, de maneira essencial, elas possam se entrecruzar, sempre sob seu ponto de vista.

Iniciamos nossa análise no nível A do genograma, onde se situa Manoel Vaz de Lima, o avô de Leôncio Chagas. Os dados que conseguimos levantar sobre esse sujeito possibilitam inferências muito limitadas. Trata-se de um nome com grande incidência de homônimos em decorrência do período e local em que viveu, mas as poucas informações são muito pertinentes, justamente por serem pregressas a Leôncio Chagas, pois é exatamente onde podemos inferir um elo intergeracional entre suas práticas culturais, entre as quais estaria a música.

Por meio de busca no banco de dados genealógicos do site origem.biz, identificamos Manoel Vaz de Lima como pai de Francisco das Chagas de Jesus, conectado ao nível B do genograma. Em decorrência desse processamento de dados, foi possível realizar a descrição genealógica de uma das irmãs de Leôncio Chagas:

Quadro 2 - Descrição genealógica de Cândida de Jesus, irmã de Leôncio Francisco das Chagas

Fonte: http://origem.biz/ver_cadastro1.asp?id=2770

Foi possível constatar ainda que Manoel Vaz de Lima, tendo vivido na região de Queluz, na segunda metade do século XVIII, subscreveu o auto de fundação da “Real Villa de

Queluz”. Em nossa análise, essa informação o coloca em papel de destaque para aquela comunidade, além de que seria, possivelmente, português em terras brasileiras.

Nesta inteligencia notoria aos superiores conhecimentos de V. Excia. se oferecem os Suplicantes a contribuir para a nova fundação com os mesmos direitos, proes e precalços que pagão as Villas antigas /em que vivem desmembrados, sujeitos, coprimidos / a cujo fim se assinão e farão os mais termos necessarios, na Secretaria do Governo e Tombo da nova Camara que prtendem – E receberão Graça e Mercê (Revista do APM, Ano II 1897, p. 105).

Esses são elementos suficientes para deduzir que o avô de Leôncio Chagas teve posses e estava em plena conexão com as classes politizadas e economicamente bem posicionadas dessa vila. Se ele mesmo não tiver sido musicalizado, o que é pouco provável vivendo na “elite” desse contexto, certamente proporcionou a todo o seu “clã” uma distinta vida cultural.

Mas, ao precisar a época de nascimento de seu filho, Francisco das Chagas de Jesus, considerando nossa hipótese da transferência de Manoel Vaz de Lima de Portugal para a Capitania das Minas, este certamente habitou Minas Gerais contemporaneamente à miríade de mestres compositores presente nessas terras, no ponto culminante do ciclo do ouro, imerso em uma prática musical essencialmente conduzida pela Igreja.

Em relação ao seu sobrenome, há duas questões que consideramos pertinentes: a primeira, em relação aos aspectos toponímicos do nome Vaz de Lima, pois, segundo o site “origem do sobrenome se trata de um sobrenome protuguês. “A origem da palavra Lima vem do latim, “limes”, que significa cercas destinadas a proteger a fronteira ou fortificações militares romanas. Essa era uma palavra utilizada no sentido de limite, fronteira, cerca”.

O segundo aspecto onomástico que nos chamou atenção foi a discrepância entre o nome de Manoel Vaz de Lima e o nome de seu filho, Francisco das Chagas de Jesus. Caio Boschi (2011) chama atenção para as funções relacionadas aos nomes, às associações feitas pelo senso comum e aos ofícios no século XVIII, o que faria com que um indivíduo tornasse pública a mudança do próprio nome, de acordo com os seus interesses e conveniência, não sendo possível basear-se na manutenção intergeracional para garantir o vínculo consanguíneo. Leôncio Chagas, conforme detalharemos adiante, também o fez, pois, como consta, todos os seus irmãos receberam apenas o sobrenome Jesus.

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Sobre as inferências musicais possíveis, sabe-se que a “modinha”19, famosa na aristocracia portuguesa entre o século XVIII e o XIX, foi o gênero canção em uso corrente mais presente no ambiente familiar. Vale chamar a atenção para o fato de que, mesmo que saibamos que o processo de reunião documental que Dom Oscar de Oliveira realizou tivesse, como filtro, manuscritos de música sacra, no acervo do Museu da Música de Mariana, o fundo CDO.27 – Lamim é a seção documental de maior concentração de modinhas, sendo a maioria assinada ou conectada às práticas musicais de Leôncio Chagas.

Havia, naquele período, outras possibilidades da aprendizagem cultural que pudessem proporcionar a um sujeito o contato com o “gênero canção modinha”, porém, ao comparar Leôncio Chagas a outros compositores próximos, suspeitamos que tenham sido os fatores “cotidianos” que o tenham estimulado a compor nesse gênero, como, por exemplo, o fato de ter convivido diretamente com portugueses.

Há evidências de uma atuação de LFC como compositor: suas habilidades com a pena revelaram-se também no contato com outros campos das artes, pois seu nível de letramento e suas “mobilizações”20 junto com as culturas do escrito permitiram que escrevesse peças de teatro, poesia, romances e criasse representações textuais da própria vida. Nessa sequência de experiências extraescolares, provavelmente se desenrolou tal contato com uma cultura em que se sobressaíram suas habilidades, seu traquejo, sua inserção na cultura escrita e musical, afinal, as escolhas das representações musicais que um compositor realiza são decorrentes de seu capital social.

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A origem da modinha está relacionada a um fenômeno europeu – e não apenas português – da segunda metade do século XVIII. Com a progressiva ascensão da burguesia e, consequentemente, com a mudança de hábitos da nobreza, surgiu uma prática musical doméstica ou de salão destinada a um entretenimento mais leve e menos erudito que aquele proporcionado pela ópera e pela música religiosa. Assim, a música doméstica urbana, praticada por amigos e familiares em festas ou momentos de lazer, privilegiou formas de pequenos números de intérpretes, de fácil execução técnica e de restrito apelo intelectual. CASTAGNA Apostila do Curso de História da Música Brasileira. Instituto de Artes da UNESP.

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Mobilizações: diz-se daquelas causas que são internas, diferentemente das motivações que são causas externas na tomada de decisões de um sujeito.

2.3 No silêncio dos Cantos de amor paternal

Embora haja um de seus manuscritos intitulado Cantos de saudade do amor paternal, o “autor”, como Leôncio Francisco das Chagas refere a si mesmo, deixa entrever vários momentos da sua trajetória de vida, mas não menciona situações relacionadas a informações substanciais sobre seus pais. Logo, os dados coletados nas fontes primárias relacionadas às fontes textuais literárias manuscritas não indicam aspectos substanciais acerca de seus antepassados. O levantamento desses dados, como o nome do pai, só foi possível durante busca por notícias sobre o professor público Leôncio Francisco das Chagas nos jornais que circularam contemporaneamente à sua atuação.

RECORTES DE NOTÍCIAS 1 - Menção ao nome do pai de Leôncio Francisco das Chagas

Natural de Itaverava, filho de Francisco das Chagas de Jesus, cujo nome elle gosta tanto de pronunciar–com 68 anos de edade, forte e bem disposto, de superior e firme talho de letra, tem na sua escola matricula de 48 assiduos e dedicados alunos, por elle paternalmente conduzidos ao bem.

Fonte: Annuário de Minas Geraes, 1903, p. 712

O Tenente Francisco das Chagas de Jesus, pai de Leôncio, nasceu no ano de 1778 e foi casado com Marianna Cândida de Jesus, nascida em 1798. Esses dados, levantados por meio das listas nominativas do censo de 1831, cuja coleta de dados aconteceu precisamente no dia 22 de setembro, nos valeram para a busca de outras informações acerca do núcleo familiar em que nasceu Leôncio Chagas.

Por meio do trabalho que Marcus Vinícius Fonseca (2007) realizou com as listas nominativas do século XIX, foi possível localizar o foro em que nasceu. A partir do cruzamento entre os registros disponíveis na lista nominativa de 1831 e o que foi possível alcançar nos registros paroquiais decorrentes dos nomes dos pais de Leôncio, após sua instalação em Itaverava, chegamos a um número de 13 filhos, dos quais seis foram batizados na mesma localidade, incluindo o próprio Leôncio Chagas, sugerindo que os outros sete possam ter nascido em outros locais onde a família teria se instalado anteriormente. O Tenente, como não seria incomum naquela época, teve uma família extensa. Não foi possível, comprovar o envolvimento dos doze irmãos de Leôncio Chagas com as práticas musicais,

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