Daquele primeiro encontro com alguém que trabalhava na casa dos outros, a imagem de dona Sônia ficou gravada na minha mente pelo resto dos dias que lá me
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hospedei; identifiquei a distância que nos separava em outras casas e em outras relações. A situação narrada no capítulo dois em relação à irmã da Beatriz é exemplar nesse sentido: prefere viver em África do que na Europa porque naquele continente ela consegue viver com luxo, pela possibilidade de contratar três empregadas que fazem todo o trabalho doméstico, enquanto ela gasta seu tempo como quiser. Aos poucos compreendi que afirmações como essa não eram tão absurdas a partir do ponto de vista e do contexto de vida dessas pessoas. Presenciei algumas situações que mostraram o quanto o fosso de distâncias simbólicas (e físicas, certamente) presente na sociedade colonial (principalmente a partir da década de 1920) estava ali, revestido de uma camada de prestígio e “luxo” para quem os tinha. As relações de poder agora são outras e as circunstâncias em que elas se constroem são baseadas nas mudanças próprias às dinâmicas históricas que acompanham o fluxo da vida dos moçambicanos. A preguiça foi levantada como um atributo inerente às pessoas que trabalham em casas de quem "tem condição" de pagar por isso. Aliado a ela, observavam que as empregadas gastavam muito tempo em uma só tarefa, o que demonstrava lentidão de pensamento. A avó Sandra sempre tinha alguma reclamação a fazer a respeito da Dora, sua empregada, e da Mamã Aline, que trabalhava na casa da sua mãe. Ao mesmo tempo que colocava em destaque os erros fatídicos que elas cometiam, justificava que elas não têm capacidade para pensar em várias coisas ao mesmo tempo, não conhecem certos produtos de limpeza típicos das casas dos brancos e não entendem algumas regras básicas de organização de objetos.
Eis alguns exemplos:
Praticamente todos os dias eu jantava com a avó Sandra na casa da bisavó. Em um desses dias, enquanto colocava a mesa, como fazia de praxe, a avó me chamou para ver algo no fogão. Aproximei-me e, demorando para perceber onde estava o problema, ela me mostrou que uma das trempes estava encaixada de modo incorreto, apontando como aquilo era um absurdo. "Olha o que elas fazem, coitadas", redarguiu decepcionada. Explicou-me, ainda, que agiam daquele jeito porque foram ensinadas a fazer uma coisa só a vida inteira, trabalhar nas machambas, e esse era o motivo principal pelo qual não raciocinavam nas atividades da casa.
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Em outra ocasião, quando estávamos em casa, a avó me mostrou uma toalha de mesa branca com alguns bordados. Queria que eu visse outro absurdo que a empregada tinha feito, ao dobrar o lado bordado do avesso. De acordo com ela, aquilo era falta de aprendizado de certas etiquetas. Novamente sentiu pena: "coitadas, não sabem que a parte mais bonita tem que ficar à mostra...". Contou-me outra situação, na qual a bisavó ganhou um lenço de presente e a empregada não dobrou a inicial do nome bordada para o lado de cima. Ao finalizar a narração desses episódios, concluiu que essas pessoas só sabem escrever o básico, fazer contas simples e seus filhos vivem correndo pela rua, de qualquer jeito, porque os pais não os ensinam a se portar como deve ser.
Dentro de diversas casas em que tive oportunidade de entrar, as chaves das portas ficavam do lado de fora dos cômodos. Com o tempo entendi que era uma medida preventiva contra os possíveis furtos das empregadas. O dia em que cheguei para me hospedar na casa da avó Sandra, esta me mostrou o quarto onde eu ficaria e disse para eu trancar a porta sempre que saísse, se eu deixasse computador, dinheiro ou outros objetos de valor no local. Beatriz me chamou a atenção para observar que não eram só os quartos que ficavam trancados, mas principalmente as despensas onde os alimentos são guardados. Essa prática existe, segundo ela, porque os moçambicanos gostam de estocar comida, muitos até possuem freezers nessas despensas, para conservar produtos congelados. Exemplificou esse fato contando que a irmã tinha demitido uma das suas empregadas há pouco tempo porque descobriu que ela tinha roubado um pouco da comida do jantar que tinha feito para levar para o marido.
O trabalho doméstico nas casas que frequentei em Maputo não é vivido sem conflitos entre as empregadas, as senhoras e os patrões, conflitos esses que revelam muito dos dispositivos de diferenciação social entre aqueles que possuem ensino superior, principalmente se feito em outro país. A distância aumenta quando aqueles que saíram começam a colocar em ação os múltiplos aprendizados conquistados no exterior. É como se, através de graus mais avançados na educação formal, as pessoas justificassem sua posição privilegiada em relação às outras, aumentando o grau de
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exigência nas tarefas domésticas diárias. Muitos utilizam justamente o envolvimento em tantas atividades profissionais como explicação para as cobranças e reclamações em relação às empregadas. Comentários relativos à diferença de complexidade entre trabalho realizado em ministérios do governo, na universidade e em organismos internacionais e o trabalho doméstico − mais simples e sem necessidade de capacidade intelectual para sua realização − foram enfatizados algumas vezes.
As duras realidades vivenciadas pelas empregadas dificilmente eram pauta de conversas com meus interlocutores. Era com a Beatriz que eu compartilhava minhas inquietações sobre o tema. Em uma ocasião, quando a Denise já estava em Maputo,52 saíamos as três e o assunto foi abordado. Algumas sextas-feiras, após seu trabalho, Beatriz gostava de sair para um happy hour, como chamava. Sua preferência era o Mundo's, porque lá tinha gente diferente (leia-se estrangeiros). Em uma dessas sextas, sentamos as três nesse restaurante. Em determinado momento da conversa, entrecortada por mil assuntos, Beatriz comentou que uma conta que pagássemos ali seria o salário de um mês de uma empregada. Denise sublinhou que a moça que trabalhava na casa da tia Marta, onde ela estava hospedada, ganhava 1000 MT (aproximadamente R$50,00) por mês. Beatriz confirmou que esse era geralmente o salário pago, às vezes até menos. A falta de leis trabalhistas que as amparem é o que faz com que sejam tão mal remuneradas, segundo ela. Isso também pode servir como desrespeito por parte dos patrões, que as podem demitir a qualquer momento, contratando outra pessoa que melhor corresponda às suas inúmeras demandas.
4.3 Trabalho nos auspícios da colonização portuguesa: indígenas e assimilados no