É, portanto, através de um espaço mais "mundano" que os estudantes se movem. As conversas corriqueiras e as imagens que emanam do Brasil em Maputo dão um pouco da ideia de que muitas vezes as decisões mais importantes não dependem dos gostos "sofisticadamente" forjados. A relação da mídia e, principalmente, das novelas brasileiras, também é algo que não deve ser desconsiderado, pois elas estão presentes no cotidiano de muitos desses estudantes e influenciam, inclusive, na imagem que têm do Brasil e na decisão de vir estudar em universidades, como discutido acima. Jardim e Magalhães provocaram os antropólogos a darem mais espaço para a mídia em trabalhos que analisem trajetórias migratórias, pois esse aspecto é quase sempre invisibilizado, mesmo tendo um grande potencial de revelar relações de poder, tensões e ambigüidades. Assim,
Esta ausência relativa da mídia no trabalho seria perceptível no silêncio a respeito da descrição das práticas das pessoas investigadas, quando o trabalho de campo não aborda diretamente a cultura massiva, como é o caso do fenômeno imigratório. (2009: 90).
O espaço pelo qual os estudantes transitam é um espaço de relações. Dificilmente alguém deixa de se comunicar por estar “temporariamente em outro país”. Basta dar uma olhada nos perfis do Facebook (com muitas fotos de viagens e carros), na quantidade de e-mails, telefonemas e mensagens de celular que são trocados por dia para notar um pouco da dimensão desse universo. A circulação é construída nesse espaço. Pouca atenção tem sido dada a esse aspecto do fluxo de estudantes, embora saibamos que manter laços de parentesco, reciprocidade, amizade, enfim, pertencimento, é algo completamente possível em contextos de descontinuidade espacial (Trajano Filho, 2010: 18).
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Essa circulação, entretanto, é resultado de múltiplas mediações, tendo os acordos internacionais educacionais papel importante nisso. As novelas evocam intrigantes fontes de pertencimento por parte daqueles que estudaram no Brasil. Além de transmitirem imagens poderosas na reconfiguração de várias práticas − com o regresso, o envolvimento com elas aumenta, principalmente através da disponibilidade de material na internet −, as novelas figuram como reprodutoras de um país aberto a várias possibilidades de se viver bem. Pesquisas mais atentas e focadas nesse aspecto com certeza trariam elementos intrigantes para repensar essas relações que se estabelecem através de projetos de cooperação internacional. Até porque, como bem apontou Silva, nesse campo os "fenômenos estão longe de ser percebidos como puramente técnicos" (2008: 163). Quando argumento que as pessoas se movem por seus desejos, estou querendo dizer justamente algo que vai em direção a esse ponto: é inconcebível que políticas internacionais de dimensões tão amplas não mobilizem vontades mais sutis em relação aos sujeitos que delas participam.
No próximo capítulo, faço uma discussão bibliográfica sobre "trabalho" em Moçambique, narrando situações acerca da recorrência dos discursos sobre "estar ocupado". Reflito sobre as dinâmicas advindas das diferenciações produzidas pela escolarização superior, apontando que as viagens ao exterior promovidas pelos acordos de cooperação para o desenvolvimento são fontes de pertencimento a um mundo cosmopolita, conformando pontos centrais da análise sobre o sistema de prestígio em Maputo.
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Capítulo 4
Pedagogia do trabalho e práticas de fabricação de diferenças
“A 'missão civilizadora' deveria, portanto, caminhar sobre dois carris: o trabalho, em primeiro lugar, e a acção educativa, como esforço complementar.” (Cabaço, 2009: 106)
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O primeiro alerta que recebi ao chegar a Maputo foi que começasse a pesquisa logo, porque as pessoas com quem eu queria conversar eram muito ocupadas e dificilmente eu as encontraria. Um alerta comum, a princípio: da mesma maneira poderia escutá-lo em Brasília ou, com mais facilidade, em São Paulo. Entretanto, esse comentário foi tão repetido, por diferentes pessoas, que começou a chamar minha atenção. Tamanha era a obsessão em narrar a falta de tempo e a ênfase no trabalho que resolvi compreender como, através de um discurso contínuo sobre trabalho, aqueles que voltaram do Brasil reproduzem um sistema de prestígio por terem saído para estudar, diferenciando-se de quem não o fez.
O trabalho enquanto categoria e enquanto prática social passou por diversas fases na história de Moçambique, dependendo das políticas dominantes em cada época. Sua força teve como origem o projeto civilizatório desenhado por Portugal. No entanto, ao longo do tempo foi objeto de múltiplas apropriações políticas, sendo alçado pelo poder revolucionário dos partidários da FRELIMO e sua posterior proposta socialista. Interessante essa palavra ser tão citada entre os moçambicanos que estudaram no Brasil. Qual o sentido dado por eles ao se expressar tão veementemente em termos de ocupação laboral quando o assunto é a vida após a volta para Moçambique? Por que todos os assuntos estão cercados do dizer que se está sempre trabalhando? Que tensão é essa que acompanha as narrativas daqueles que, a respeito
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de si próprios e da vida na cidade, relatam o compromisso de ter que cumprir tantas jornadas em diferentes locais de trabalho para manter um bom padrão de vida?
Este capítulo é uma tentativa de adentrar no universo dessas questões. Proponho uma reflexão para que olhemos os dados apresentados nos primeiros capítulos tendo como pano de fundo discussões de aspectos históricos do desenvolvimento da categoria trabalho a fim de alavancar possíveis compreensões acerca das dinâmicas laborais tão comentadas por meus interlocutores. Como abordei no capítulo dois, a entrada em um circuito formalizado de prestígio depende da maneira como alguém se apresenta na vida pública, através da circulação com os carros que possui e da maneira como se veste, além do universo cosmopolita a que pertence, no caso, pelo fato de ter estudado em outros países.
A distinção que se tenta produzir alicerça-se em uma oposição em relação àqueles que não fizeram curso superior, especialmente as pessoas que trabalham como empregados domésticos. Também há diferenciações entre os que saíram para estudar fora e quem se formou em universidades nacionais, com professores moçambicanos.50 Além disso, a distinção é construída entre eles mesmos, no sentido de mostrarem, como um grupo, sua capacidade de ter uma vida moderna e civilizada, comprovada através da ocupação em diferentes atividades laborais.
O capítulo está dividido em cinco seções. Na primeira, apresento algumas situações relacionadas à construção do "estar ocupado" entre meus interlocutores. A segunda também é uma apresentação de situações vividas no contexto da pesquisa; o tema abordado nessa parte, contudo, é o trabalho doméstico: narro os modos como algumas pessoas se referem àquelas que trabalham em suas casas. A terceira parte é uma discussão bibliográfica acerca da categoria trabalho em Moçambique no período colonial, o que remete à quarta seção, uma continuidade dessa discussão no período
50 Muitas comparações foram feitas a esse respeito. Nesse sentido, há uma certa hierarquia entre quem
estudou em universidade moçambicana, mas teve aulas com professores estrangeiros. Esses seriam melhor formados do que os que tiveram aulas com professores moçambicanos. Liberato (2011) mostra como essa diferenciação também opera no caso angolano. Apesar do aumento da oferta de formação superior dentro do país, não houve uma diminuição da busca dos estudantes pelo ensino superior no exterior.
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pós-independência. A última seção é uma tentativa de costurar dados empíricos e históricos, dando inteligibilidade à questão da ocupação pelo trabalho incessante.