• No results found

4 Data og metode

4.6 Operasjonaliseringer av uavhengige variabler

Por que o fenômeno especular aufere tal importância, não somente no funcionamento, mas também e sobretudo nas instaurações precoces e fundamentais do psiquismo humano?

Como vimos, a instauração precoce do psiquismo humano acontece na dependência do Outro primordial, quando os primeiros traços mnêmicos da experiência de satisfação com este Outro são impressos. A qualidade deste traço depende diretamente da qualidade do laço que o bebê estabelece com o Outro.

Podemos dizer que esses traços mnêmicos correspondem ao psíquico no seu estado mais primitivo e que o rudimento de um eu está prestes a se formar. Antes, porém, que o eu se constitua, o infans passa pela categoria de objeto, instaurando o desejo do Outro.

A experiência óptica de Bouasse é um modelo que permite metaforizar a instauração primeira da estrutura do aparelho psíquico, instauração que vai justamente permitir que se constitua a imagem do corpo. É uma experiência que une um objeto real (no caso, o real orgânico do bebê) a uma imagem (projeção do desejo da mãe). Essa experiência se opera no inconsciente da mãe e é com essa imagem real que o sujeito estará um dia em posição de se identificar. Chamamos a essa projeção, efeito da montagem do espelho, de ilusão antecipadora materna.

Com efeito, o que vem constituir para o bebê mais tarde a vivencia de seu corpo, supõe uma articulação complexa entre sua realidade orgânica e o que

eu chamo a erolhar1 dos pais. Este olhar não se confunde com a visão. Trata- se sobretudo de uma forma particular de investimento libidinal, que permite aos pais uma ilusão antecipadora onde eles percebem o real orgânico do bebê, aureolado pelo que aí se representa, aí ele poderá advir (...). Este olhar é o que funda a possibilidade mesma da constituição da imagem do corpo e da relação com o semelhante. (LAZNIK, 1997, p. 39).

O que vemos acontecer é que a mãe atribui a esse bebê, tornado seu, os objetos de seu desejo e que é o bebê assim olhado que se tornará aquele que um dia perceberá sua imagem no espelho. Este olhar é o que funda a possibilidade mesma da constituição da imagem do corpo e da relação com o semelhante.

É esta imagem originária que permitirá que o bebê vá reencontrar com júbilo na sua imagem especular a primeira imagem fundadora que dá sua unidade e assim buscar a confirmação de tal imagem no olhar do outro.

Então, o primeiro momento do Estádio do Espelho é aquele em que a criança fica identificada ao desejo da mãe: “Há um Outro que recorta seu corpo, que o investe, que lhe atribui significantes e lhe devolve uma imagem unificada do seu corpo”. (WANDERLEY, 1999, p. 142).

Até agora temos visto que a imagem “falicizada” do bebê se forma somente no campo do Outro, ou seja, a possibilidade de “falicização” não ocorre no espelho, porque aí nos vemos como somos na realidade: faltantes. O outro é quem está posicionado adequadamente na estrutura simbólica e é somente no olhar deste que vem a se constituir o conjunto formado pelo orgânico e pelo investimento libidinal. Para isso, no entanto, é preciso que o aparelho psíquico da mãe seja capaz da ilusão antecipadora, ou seja, que ela veja o que não está lá.

Este conjunto formado pela visão antecipadora daquilo que o bebê não é – ou seja, dessa divindade que se tornará – reunida ao real desse organismo que é, é o que possibilita a unidade do corpo do bebê. Somente assim o bebê vai poder, mais tarde, olhar-se no espelho e voltar-se para ver os olhos dos pais. E o que ele vê, neste olhar parental, é o orgânico aureolado por este investimento libidinal de que é objeto. (LAZNIK, 2004, p. 162).

Outra condição essencial para que se forme essa imagem falicizada de que estamos falando está no fato de o Outro conter uma falta. Somente assim, o Outro poderá conceder atributos fálicos ao bebê, indo pois em busca da realização do seu desejo, constituído desde a época da problemática edipiana. Mas para isso, o bebê tem que também ser posto no lugar de um ideal.

1

É somente no segundo momento do Estádio do Espelho que o infans se deparará com essa imagem que vem do Outro. Para que o infans possa ver a si próprio, no entanto, é necessário que haja uma modificação nesse esquema inicial, introduzindo aí um espelho plano, que permitirá então ilustrar o Estádio do Espelho propriamente dito, este momento em que o sujeito, ainda

infans, se reconhece na imagem que lhe é proposta.

O sujeito infans vai de fato se projetar na imagem totalizante de si mesmo que a ele vem do campo do Outro. A Jubilação que Lacan descreve no estádio do espelho traduz um domínio antecipado que se paga com uma dimensão alienante: pois a imagem especular, cadinho do eu e da imagem do corpo do futuro sujeito, se constitui em um tempo princeps, no olhar do outro, sustentando o lugar do Outro, do qual ele tira seu poder. (CABASSU, 1997, p. 24).

O Estádio do Espelho é de fato um momento fundador em que a antecipação sobre a imaturidade motora conduz à constituição da imagem do corpo,importa dizer, além da constituição do eu como instância psíquica, o espelho também funda a imagem do corpo. Na verdade, ambos estão intimamente relacionados, já que o eu é antes de tudo um eu corporal.

O que de fato, no entanto, é o Estádio do Espelho? Podemos entendê-lo como a ocasião em que o bebê, ainda num estado de pré-maturidade orgânica, quando nem ao menos consegue se apoiar em seu corpo, se olha num espelho e reconhece aquela imagem que ele vê como sendo a sua. Então, ao se reconhecer nessa imagem, o bebê vira em direção daquele que lhe segura nos braços para receber deste a confirmação da imagem que vê. Como nos diz Lacan (1949), a identificação com essa imago produz uma transformação no sujeito.

A assunção jubilatória de sua imagem especular por esse ser ainda mergulhado na impotência motora e na dependência da amamentação que é o filhote do homem nesse estágio de infans parecer-nos-á pois manifestar a matriz simbólica em que o [eu] se precipita numa forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito. (LACAN, 1949, p. 97).

Jeruzalinsky (2002), por sua vez, ao se referir a esse momento lógico teorizado por Lacan, esclarece:

A constituição do Eu se dá pela alienação do bebê a essa imagem que o Outro encarnado lhe apresenta como sendo a dele (do bebê). Produz-se aí a identificação imaginária: o bebê se identifica com essa imago que lhe oferece a imagem antecipada de um corpo próprio. Tal imagem virtual é um reflexo do espelho constituído pelo investimento do narcisismo materno no bebê, e efeito da antecipação imaginária que a mãe produz para ele. (P. 22).

Essa antecipação acontece quando a mãe, por exemplo, “adota” essa criança, incluindo-a na sua cadeia parental, formulando para ela uma história. Para que possa ocorrer a

constituição do sujeito, pois, é preciso um Outro encarnado que sustente em relação ao bebê a temporalidade do desejo.

Quando se sustenta a suposição de um sujeito no bebê, num tempo em que ele ainda não o é de fato, se produz uma antecipação. Trata-se aí de uma antecipação que é constitutiva do sujeito, que aposta na constituição do EU da enunciação, desde o qual um bebê poderá vir a apropriar-se das aquisições instrumentais em nome de um desejo. (JERUZALINKY, 2002, p. 88).

Por fim, falaremos sobre esse laço mãe/bebê e como a qualidade desta relação pode comprometer a saúde orgânica do bebê.

2.7 O laço pais/bebê – a função do próximo prestativo como estruturante da organização