4 Data og metode
4.1 Generelt om validitet
Ao fazer referencia ao nascimento psíquico, pressupomos sua não-existência a
priori, no instante do nascimento do bebê como realidade orgânica. Pelo contrário, o psíquico
se constitui, e para tal é necessária a intervenção do Outro cuidador. Portanto, aqui damos o sentido de nascimento psíquico ao nascimento humano por excelência, à própria subjetividade, que vai dos desejos inconscientes à identificação de si.
Consoante Freud – desde os estudos do Projeto, mais precisamente em 1900, quando formula o esboço do aparelho psíquico – o nascimento psicológico está atrelado à experiência de satisfação da necessidade. Segundo o autor, na experiência da satisfação da necessidade, encontramos os primeiros esboços de psiquismo nos traços mnêmicos da satisfação alcançada: “a alucinação decorrente da reativação desses traços pela necessidade que se atualiza mostraria exatamente a presença rudimentar do psíquico, como traços de memória e representações”. (CELES, 2004, p. 43).
Durante a experiência de satisfação, o bebê, em razão da sua prematuridade, não consegue, por si só, dar trâmite a toda a excitação que irrompe seu aparelho psíquico. O acúmulo de excitação faz surgir a angústia, que aparece nesse momento como sinal psíquico de sua própria falta, revelando uma insuficiência de psíquico: “A presença, portanto, da pulsão sem trânsito, exigindo trabalho, institui o nascimento psíquico”. (CELES, op.cit p. 43).
Dessa forma, a constituição psíquica em seu sentido originário tem o propósito de atalhar a angústia, pois dá trânsito à excitação, evitando que esta se acumule, que se some: “o nascimento psíquico é decorrência do imperioso trabalho de dar caminho à pulsão, evitando assim o desenvolvimento da angústia”. (CELES, op.cit p. 46).
O aparelho psíquico, porém, não consegue, pelas próprias vias, fazer o trabalho de descarga de toda a excitação acumulada. O ‘princípio do prazer’, instância encarregada para tal fim, é limitado, requerendo um suplemento para sua eficácia. A pulsão, livre e desligada, necessita percorrer um caminho (circular) que vai da fonte à meta pulsional: “a exigência da constituição psíquica para o trânsito da pulsão, evitando a angústia, revela uma ação de Eros, de vida: um esforço de ligação”. (CELES, op.cit p. 47).
Podemos, então, pensar o psíquico como relativamente desvalido, pois jamais poderá efetivamente dar trânsito a toda a pulsão. É nessa hora que entra em ação o suplemento de que falávamos há pouco. Referimos-nos à ação desempenhada pelo Outro primordial, o
próximo cuidador, aquele que pode, por intermédio de uma ação específica, ligar a pulsão, inicialmente desligada.
Tencionamos expressar a idéia de que os traços mnêmicos da experiência de satisfação trazem a marca da presença do outro, pois a mãe, além de cuidar de suas necessidades, é introdutora de Eros, fornece os meios de satisfação pulsional, dando trâmite e ligando a pulsão:
Assim, pelo viés do fundamento da satisfação primeira, encontramos uma outra presença, que não a presença pulsional: a presença do outro, do adulto, como aquele que proporciona satisfação (...). O amparo às necessidades e a intromissão na satisfação do bebê, pela presença do adulto, constituem os dois aspectos mais importantes do nascimento psíquico. (CELES, 2004, p. 53).
Desde a ocasião em que o Outro entra em cena, é possível fazer uma nova leitura da experiência de satisfação: as necessidades passam a ser entendidas como demandas, requerendo serem satisfeitas. Logo, o bebê humano, desde o momento em que entra em contato com o outro da relação, deixa seu estatuto de ser de necessidade para se transformar em ser de desejo.
Lacan, no texto Subversão do sujeito e dialética do desejo (1966), propõe o grafo do
desejo, que nos ajuda a compreender melhor esse momento mítico da experiência de
satisfação. O primeiro momento desse grafo é marcado pelo real do corpo do recém-nascido. Representa a necessidade. O grito e as agitações motoras do bebê servirão de descarga ante o montante de tensão, mas se revelarão incapazes de sozinhas ajudarem o sujeito. A linha da necessidade, porém, encontra o grande Outro, encarnado na personagem maternal; ou seja, a necessidade vai encontrar, naquele que a acolhe, uma resposta humana. É o reconhecimento do grito enquanto apelo.
Na perspectiva lacaniana, é nesse momento que o bebê entra no mundo da linguagem. Suas produções, antes encaradas como pura descarga de tensão, passam a ser lidas como mensagens endereçadas ao Outro, geralmente encarnado pela mãe.
Aquele ou aquela que ouve o grito da necessidade, e que se posiciona como seu destinatário, transforma esse grito, não emitido por ninguém, em um ato de alguém. Esse ato é fundador, já que nesse momento o bebê é promovido ao estatuto de sujeito falante.
É importante sublinhar, todavia, o fato de que o Outro não só codifica as manifestações do bebê, introduzindo-as num código, lendo-as como significantes, mas também responde com uma resposta específica, capaz de apaziguar tal tensão e possibilitar o contínuo movimento do circuito pulsional. Chamamos a isso de Encontro Inaugural. A partir daí, antes de qualquer linguagem propriamente dita, o bebê fala; ele é
promovido ao estatuto de sujeito falante. Dessa forma, a mãe organiza o real pela coerência de suas respostas.
Ao apelo do sujeito a mãe responde por uma escolha de significante e assim por uma perda. É a mãe que fixa a significação da demanda e torna presente na palavra um ou outro significante (...). A partir da intencionalidade da necessidade, a demanda convoca o Outro para o lugar do código, de onde a mensagem adquirirá sentido (...). Além da satisfação da necessidade a demanda se constitui como presença sobre um fundo de ausência, e é nesse além da demanda, do lado do desejo do Outro, que se constitui o desejo do sujeito. (PIRARD-VAN DIEREN, 1998, p. 146).
Esse momento em que se formaliza a resposta que o outro, como Outro, dá ao apelo do sujeito corresponde à segunda etapa do grafo do desejo, conforme Van-Dieren (1998): “É nessa etapa que o sujeito vive a experiência do desejo como desejo do Outro. Ele vive a experiência da ordem simbólica”. (P. 146).
A terceira etapa constitui o tempo do especular, momento em que o bebê passa ao reconhecimento de si enquanto unidade corporal. Esse reconhecimento, no entanto, só se torna possível porque há um Outro que lhe fornece essa imagem, com a qual ele se identificará.
A terceira etapa constitui o recurso à experiência especular na medida em que ela é fundadora do eu e que vem prevenir o desespero na relação ao desejo do Outro. Tempo de identificação imaginária ao pequeno outro encarnando o Outro. (VAN-DIEREN, 1998, p. 147).
Muito mais do que uma ordem cronológica, essas três etapas dizem de um tempo lógico no qual o bebê, antes mesmo de nascer, já existe no desejo dos pais. É isso que favorece o seu reconhecimento como sujeito e possibilita ao Outro toma-lo como um objeto de satisfação; vale dizer, quando o bebê se põe no lugar de objeto da pulsão para o Outro, que se mostra, de então, desejante em relação a ele.
Divisamos, amiúde, a noção de que o processo de constituição do sujeito é algo complexo. É necessário que haja a ilusão antecipadora materna, capaz de transformar o bebê em ser de linguagem, o que não é, senão no primeiro tempo, puro real. Esse olhar, que não se confunde com a função orgânica da visão, trata-se de uma forma particular de investimento libidinal e é o que permite tal ilusão antecipadora, na qual eles percebem o real orgânico aureolado pelo que aí se representa. Só assim o sujeito pode advir.