• No results found

Paper II: Data Recovery and Security in Cloud 89

4.4 Execution Time

A edição de Roseira brava referente à nossa investigação é a de 1929. Ela se apresenta com capa desenhada com rosas entrelaçadas em uma trama de espinhos, com o nome da obra centralizado acima e o subtítulo em destaque à esquerda: “Roseira brava: versos de Palmyra Wanderley”. A ilustração singela sugere a própria aridez do adjetivo “brava”, associado à roseira, fato que revela, no campo semântico do título, a intenção da autora de romper com a singeleza romântica da rosa, alcunhando-a de “brava” e destacando os seus espinhos.

O exemplar sobre o qual se debruça é aquele que pertence ao acervo de Câmara Cascudo e que está no Instituto Ludovicus. Esse exemplar recebeu a seguinte dedicatória de Palmyra ao próprio Cascudo:

Pra você, Cascudinho, que faz a gente ficar tontinha de tanta boniteza, que

você tem lá dentro d’alma, pela devoção que eu lhe tenho, pelo culto que eu

lhe rendo, pelo bem querer que eu lhe quero, esta roseira brava carregadinha de espinhos.

Essa dedicatória manuscrita está assinada e com data de 29-6-1929. Por essas poucas linhas, evidenciam-se a amizade e o carinho que uniam esses dois escritores de uma mesma contemporaneidade. Curiosamente, o dia dedicado a São Pedro, santo católico de grande prestígio em Natal, padroeiro de antigos bairros como Rocas e Alecrim, marca a data dessa dedicatória.

A edição de 1929 foi impressa em Recife e se abre com o poema “Palmeira”. Em seguida, destacadas em uma página, duas citações de Goethe, das quais não são identificadas as origens. Essas citações apresentam, como tema, o próprio fazer poético e sugerem a consciência artística e a identificação da porção romântica de Palmyra com o grande poeta do Romantismo alemão.

Após as citações, inicia-se o livro com o poema “Palmeira”; e, em seguida, divide-se em quatro partes (roseiras), com 75 poemas: 1. “Rosas de Sol e de Espuma” (com 14 poemas); 2. “Rosas Tropicais” (com 20 poemas); 3. “Rosas de Sombra e de Neblina” (com 21 poemas); 3. “Rosas de Todo Ano”, que está dividida entre um poema (“Para nós dois”), que abre a subparte “Madrigaes” (com 10

poemas); e 4. “Rosas do teu Rosal” (com 9 poemas), totalizando, portanto, todo o livro, 76 poemas.

Em “Rosas de Sol e de Espuma”, primeira parte do livro, localizam-se, exclusivamente, poemas com a temática da cidade Natal. Neles, o leitor passeia pelos bairros (Rocas, Alecrim, Refoles, Barro Vermelho, Tyrol, Petrópolis, Passo da Pátria); viaja pela beleza exuberante das praias (Praia do Meio, Areia Preta); e lê a opulência das formas da natureza (Rio Potengy e Lagoa Manoel Felipe). Essa parte, revela o interesse da poetisa pela sua cidade e sua gente, pelo espaço de onde brota a sua escrita.

Na segunda parte, “Rosas Tropicais”, evidenciam-se poemas ainda com a temática da cidade e de seus arredores (Fortaleza dos Reis Magos, Extremoz e São Gonçalo). Além desse espalho urbano, o leitor encontra também os poemas nos quais se desenvolvem os temas e os motivos da natureza pródiga dos trópicos, representados nas diferentes formas e imagens de palmeiras, árvores, lírios, flores e pássaros.

A terceira parte, “Rosas de Sombra e Neblina”, como o próprio subtítulo sugere, traz poemas com as temáticas da saudade e da dor. Os versos apresentam um teor mais melancólico, mas que não exclui a representação do belo, procedimento estético que se caracteriza como um dos traços da poesia romântica, que permanece no Pós-Romantismo. No entanto, apesar da saudade, da dor e da melancolia dessa terceira parte, há ainda poemas de apelo à natureza, como “Mandacaru” e “Luar”.

A quarta parte, “Rosas de Todo o Ano”, detém poemas com a temática da desilusão amorosa, como também de temática religiosa, findando-se assim o livro, com 70 poemas.

A aceitação de Roseira brava pela crítica, encabeçada por Câmara Cascudo, revelou-se positiva e entusiástica, repercutindo nacionalmente com a Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, em 19306.

6 Segue trecho do parecer da Comissão Julgadora que conferiu a Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras a Roseira Brava, no concurso aprovado por unanimidade em sessão de 19 de abril de 1930: “A Academia faz trabalho de perfeita justiça distinguindo com Menção Honrosa a ‘Roseira Brava’ de Palmyra Wanderley para quem tem a comissão os seus melhores louvores e em que reconhece uma das vozes mais harmoniosas que nos vem do Norte do Brasil. Cantora das cousas natais é esta realmente uma nota que mais atrai no ‘Roseira’ e onde o plectro de Palmyra mais alto se define como na parte de seu livro: - Rosas de Sol e de Esmeraldas. A poetisa da Rainha do Potengi, da cidade oblata, sempre num gesto de elevação, das moitas tristes, das serenatas, dos cajueiros amorosos, das dunas brancas, coloca-se galhardamente para receber a Menção Honrosa

As edições de Esmeraldas e de Roseira brava, sendo esta última um dos livros mais vendidos em Recife, foram esgotadas, fato que indicia a aceitação dessas obras pela comunidade que lia poesia naqueles idos do início do século XX. Roseira brava, matéria de nossa investigação, é um livro de poesias de autoria feminina, escrito e celebrado no início do século XX, no Nordeste do Brasil.

Câmara Cascudo foi grande entusiasta da obra de Palmyra Wanderley. Sobre ela e sua obra, o autor de Alma patrícia teceu variados comentários, como o leitor pode perceber no seguinte trecho:

[...] Na minha opinião, “Esmeraldas” não recomenda a auctora; a auctora é que recomenda “Esmeraldas”. Nunca admiti a acção do Meio sobre o indivíduo. È comum, espíritos superiores, alçarem-se fora do círculo vicioso das literatices patrícias, e desfaldarem largas velas a sua inspiração. Palmyra Wanderley já vencera o Meio, escrevendo versos, tomando parte nas festas literárias, sendo vista triumphar, onde aparecia. [...] Salva “Esmeraldas” trez cousas. Primeiro, ser o vôo, naturalmente hesitante, de uma inteligência promissora. Segundo, a expontaneidade d’alguns versos. Terceiro, o facto que ser um dos pouquíssimos livros publicado pelas nossas patrícias (CASCUDO, 1921, p. 35-36).

O então jovem Câmara Cascudo aprova Esmeraldas com ressalvas, isto é, ao afirmar que “’Esmeraldas’ não recomenda a auctora; a auctora é que recomenda ‘Esmeraldas’”, o crítico mantém certa reserva quanto à qualidade do texto da poetisa. Para tanto, evidencia “trez cousas: o vôo, naturalmente hesitante, de uma inteligência promissora, a expontaneidade d’alguns versos, o facto que ser um dos pouquíssimos livros publicado pelas nossas patrícias”. Tais evidências apontam para três importantes aspectos na obra de Palmyra Wanderley, os quais serão abordados nesta pesquisa: a criatividade e a inteligência da poetisa; os versos, já indicando uma linguagem mais coloquial, típica do Modernismo e a prevalência de uma voz feminina em contraste com tantas outras varonis.

Mais tarde, em 26/06/1940, Cascudo, em uma crônica publicada no jornal A República, apela para a necessidade de uma antologia de poetisas norte-rio- grandenses. Nesse passeio pela poesia feminina, o pesquisador cita a já madura Palmyra: “Palmira Wanderley (Mme. Raimundo de França) antes de mergulhar na

que a comissão resolveu dar ao seu livro. – Adelmar Tavares – Olegário Mariano – Luiz Carlos Guimarães” (WANDERLEY, 1965, p. 215).

doce penumbra amorosa do lar, ergueu-se nos pilônes de porfírio de dois livros radiosos: - Esmeraldas e Roseira Brava” (CASCUDO, 2002, p. 49).

Na edição de 1965 de Roseira brava, há um resumo da Fortuna Crítica da poetisa potiguar, no qual são mencionados alguns dos nomes mais representativos da crítica e da poesia produzidas no Brasil, naquele contexto, como Tristão de Atayde, Agripino Grieco e Alberto de Oliveira. Dentre essas leituras críticas, em torno de Palmyra e de sua poética, destacam-se as seguintes:

Um sabiá que tivesse as penas de ouro. Andrade Murici

O maior poeta feminino do Nordeste. Tristão de Atayde

E que feliz és tu, alma ansiosa. Abres de verso em verso, rosa a rosa.

Alberto de Oliveira

Palmyra Wanderley é sem contestação possível a primeira poetisa do Norte do Brasil.

Henrique Castriciano

Canta tudo em estrofes que cheiram a baunilha e possuem um sabor meio amargo de pitanga. Nota-se a influência de Tagore. Algumas gotinhas da água do Ganges misturam-se ao orvalho matinal de que se nutre essa cigarra dos trópicos.

Agripino Grieco

Palmyra Wanderley é uma expressão nova diante da velhice da poesia.

Acy Coelho

Entre seus amôres, à terra: Natal. A cidade tôda lhe quer bem. Sabe fazer versos e rir como as crianças que recebem brinquedos. À maneira de William Blake, canta como os pássaros, as cigarras e as fontes.

Pascoal Carlos Magno

Palmyra Wanderley alarmou, como o “Roseira Brava”, o rebanho passadista, dos remanescentes. Mentalidade alta, a primeira inteligência no campo literário do meu Estado. Jorge Fernandes e Palmyra Wanderley são os dois casos mais brilhantes que eu conheço.

Luiz da Câmara Cascudo

O teor dessas críticas afirmativas, por parte de intelectuais renomados, mostra o impacto positivo que Roseira brava causou por ocasião de sua publicação. Esses elogios significativos alcançam maior valor por se referirem aos versos de uma jovem mulher que habitava no Nordeste do Brasil quando a cena intelectual de nosso país era ocupada por homens do Sul e do Sudeste brasileiros.

Roseira brava, portanto, matéria de nossa investigação, é um livro de poesias, de autoria feminina, escrito no início do século XX, no Nordeste do Brasil.