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Paper I: Resource Allocation in Cloud-Based Distributed

5.2 Data Analysis:

Além de jornalista e escritora, Palmyra Wanderley atuou como educadora. Embora não tenha recebido formação pedagógica, a poetisa exerceu esse mister a partir, principalmente, de sua participação na Aliança Feminina, entidade formada

por senhoras de Natal. Como o próprio nome revela, trata-se de uma entidade de orientação católica, que objetivava “apoiar a influência da mulher na família e na sociedade para o predomínio dos princípios cristãos” (CARVALHO, 2004, p. 122). Assim, sob a égide dos princípios católico-cristãos, Palmyra atuou como secretária dessa aliança e exerceu papel fundamental nas ações promovidas por essa instituição feminina, em que se destacam o Curso Comercial Feminino, a Casa de Proteção às Moças Solteiras e a Escola Primária Noturna, ações que atendiam à mulher operária natalense a fim de que pudesse atuar no então mundo do trabalho restrito à indústria têxtil e ao comércio.

De acordo com Carvalho (2004), em março de 1921, Palmyra Wanderley proferiu conferência no Salão de Honra do Palácio do Governo, dando ênfase às ações da Aliança Feminina no que diz respeito à proteção e ao amparo da mulher operária do Rio Grande do Norte:

Atribuindo ao isolamento da operária a causa principal dos seus sofrimentos e misérias e considerando que a fome e a ignorância são as grandes inimigas da virtude, a Aliança Feminina cria por toda parte onde irradia a claridade de sua luz, escolas noturnas, casas de proteção às moças solteiras, sindicatos mistos e separados, patronatos produtores, casas de pensão, a fim de combater o grande número de infelizes que são muitas vezes, a troco de uma migalha que lhe mate a fome e de um conselho amigo que lhe reconforte a alma (CARVALHO, 2004, p. 125).

Observam-se, nesse trecho da conferência, o âmbito sociocultural das ações da Aliança Feminina e o interesse da escritora Palmyra com relação à sorte dos operários e operárias que recebiam a assistência da entidade. Dessa forma, como poetisa, Palmyra apresenta uma visão ampla do mundo e da vida que não se limita a defender os interesses do capital, na figura do empresário industrial ou do comerciante do algodão. Como a maioria dos intelectuais modernos e engajados do século XX, ela fala em nome do outro que não tem voz. Fala em nome dos menos favorecidos economicamente e, nesse contexto, ganham relevo o operário e, notadamente, a mulher operária, cujo salário foi sempre inferior.

Palmyra Wanderley, portanto, apesar de não ter tido formação escolar pedagógica, atuava como educadora intuitivamente e, assim, contribuiu para a educação de seu Estado. Era convidada a participar de solenidades de entrega de diplomas, sendo reconhecida por seus pares como uma educadora atuante.

Ao lado dessa vertente da educadora, Palmyra mantinha um comportamento religioso exemplar. Católica assumida, participava dos eventos da Igreja, compunha versos para hinos religiosos e produziu muitos poemas com essa temática, como o leitor pode ler em “Adeus Maria!”.

Atento às várias faces de Palmyra, Câmara Cascudo (1921) registra que a “voz” da autora “se erguia” “em quermesses, em versos, em palestras”. Mas a voz do amigo ilustre também foi bastante cultuada pela poetisa. Na dedicatória de Roseira brava com que presenteia “Cascudinho”, está escrito: “pelo culto que eu lhe rendo, pelo bem querer que lhe quero, esta roseira brava carregadinha de espinhos”.

Os preceitos cristãos alicerçados pela Igreja Católica foram fundamentais na formação da escritora e da cidadã Palmyra Wanderley. Tais princípios evidenciam- se em suas crônicas, em seus versos, em sua prática cotidiana de frequentadora dos rituais e das festas promovidas pela Igreja Católica do Rio Grande do Norte, como se pode observar na crônica a seguir, publicada, em 1937, no jornal A República:

[...] Amanhã é o dia da festa de Sant’Anna, a esperança de quem sofre, a padroeira singular da caridade Christã. Envolta na bondade de seu manto colorido a mãe de Nossa Senhora traz sempre, nas mãos, um livro aberto, na atitude maternal de quem ensina à Filha as primeiras lições. Sant’Anna representa na gravura em que destaco, no vital da capella, a mãe e a mestra. A mãe no desempenho da sublime tarefa de zelar o coração daquella que será, mais trade, a casa de Deus, dádiva divina que Sant’Anna havia de entregar como recebeu das mãos do Senhor; mais pura que o lírio, mais brilhante que o Sol! A mestra a apontar o verdadeiro sentido da vida christã. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos” [...] (A REPÚBLICA, 25/07/1937, p. 3).

O trecho acima denota a devoção de Palmyra Wanderley a Sant’Ana como mãe e mestra de Maria, imagem fundamental ao credo do catolicismo. Essa devoção, presente nos versos de muitos de seus poemas de Roseira brava e na autoria da letra de diversos hinos religiosos, acompanhou a escritora por toda a vida. Em relação a seus poemas, podem-se citar, dentre outros, os seguintes versos:

Adeus Maria!

Adeus, Maria!. . . O teu olhar responde, Cheio de affecto, à minha despedida... O teu profundo amor não há quem sonde! Olha-me, sempre assim, por toda a vida!

Adeus, Maria, adeus! Ai, quem me esconde Do mal que, às vezes, traz a alma vencida? Onde me abrigarei, Senhôra, onde?

Quem me concede a graça prometida? Adeus, Maria!. . . A noite se avizinha. Ouço o canto final da ladainha, Vejo os círios chorando de saudade. Adeus, Virgem de Maio – a flôr descóra... Sem ti, o que há de ser, Nossa Senhora, Desse meu sonho de felicidade?!. . .

(WANDERLEY, 1929, p. 110).

Nesse soneto de despedida de Maria, quando o mês de maio finda e a flor perde a cor, a voz poética apresenta sua devoção a Maria e a importância que essa figura do credo religioso católico assume na vida desse eu lírico, a ponto de depender dessa proteção divina a realização do sonho de felicidade. Nesse e em outros poemas, a temática da religiosidade visita o universo poético de Palmyra Wanderley, seja nos versos dedicados à cidade Natal, seja nos poemas voltados para a natureza tropical, seja nos textos mais intimistas.

Além disso, Palmyra é autora das letras dos hinos a Nossa Senhora da Guia, Padroeira de Acari/RN, e a São José, em parceria com o músico Felinto Lúcio Dantas; e, juntamente com a prima Carolina Wanderley, escreveu a letra do Hino a Sant’Ana, padroeira de Caicó, em parceria com o músico Manoel Fernandes.

Afora esses exemplos de composições sacras, Gumercindo Saraiva musicou o poema de Palmyra Wanderley: “Eu quero ainda sonhar” e traz o seguinte depoimento, em seu livro Trovadores Potiguares:

Autora de hinos patrióticos, hinos sacros, modinhas populares, PALMYRA WANDERLEY compôs uma canção que venceu as fronteiras da Pátria, ancorando na luminosa Paris de Lamartine. Trata-se de “PALMA DA RESSUREIÇÃO”, musicada em Paris, quando ali se encontrava o maestro Valdemar de Almeida. Distante de sua terra Natal, Valdemar de Almeida, certo dia, sentindo a nostalgia que lhe dominava pela saudade da terra amada, senta-se ao piano e folheia as páginas de “Roseira Brava”. Encontra um poema que definia a sua solidão. Aí nasceu a melodia de “Palma da Ressureição”, que tem sido cantada pelas vozes mais credenciadas do populário brasileiro (SARAIVA, 1962, p. 132).

Sabemos que, na historiografia literária brasileira, a musicalidade caracteriza a produção literária de vários autores românticos e modernos, tais como Gonçalves Dias, Manuel Bandeira ou Cecília Meireles. A musicalidade também é audível em alguns poemas de Roseira brava, cujas formas melódicas podem ser aferidas no poema “Palma da Ressurreição”. São esses versos que comoveram o maestro Valdemar de Almeida em seu exílio em Paris, conforme se pode perceber no soneto:

Palma da Ressureição

Letra de Palmyra Wanderley Música de Valdemar de Almeida Da escarpa, na aridez, ela arrebenta

Filha das selvas, nos sertões nascida, Parece haver brotado da tormenta De uma alma que venceu e foi vencida É um gôsto de dor, não se lamenta,

Porque a dor mais calada é a mais sentida... No entanto, adivinha-se que é sedenta D’água que baste para lhe dar vida Contraste desta folha milagrosa. Que do batismo sai, nova, viçosa E de verde se veste e se refaz

É uma antiga lembrança que ainda abrigo, É um velho sonho que murchou comigo, É qualquer coisa que não volta mais!

(SARAIVA, 1962, p. 133).

Há, no título do poema, alusão à Ressurreição de Cristo, pois os ramos da palmeira simbolizam o acolhimento a Jesus, quando chega a Jerusalém no conhecido “Domingo de Ramos”. Esse domingo, data móvel na liturgia cristã, inicia a Semana Santa, que culminará, segundo esse credo, com a Ressurreição de Cristo. No formato do soneto tradicional, o poema revela o amor do eu lírico pela natureza do chão que habita. Expõe a nostalgia pungente, exaltando a capacidade de regeneração da palma, que não se realiza no coração desse eu lírico.

Dessa forma, a educadora, a jornalista e a religiosa representam faces da poetiza que se imbricam e latejam em sua obra poética.