que se constitui de elementos arquiteturais de suporte das cargas da construção desde a cobertura ao plano do solo. Sua geometria e proporções são determinadas pelo princípio estrutural, definidor do caminho das forças, sendo seus atributos relacionados às propriedades dos materiais e a estática.
No estudo da arquitetura fundamentado na cultura tectônica, parte-se do entendimento de que a estrutura formal arquitetônica necessita nascer concomitantemente a uma proposta de estrutura resistente, que lhe é intrínseca, para que a primeira não corra o risco de não ser exequível. Como é o caso da Opera House de Sydney, em que a ausência dos princípios estruturais portantes na concepção inicial de sua estrutura formal, tornou-a inexequível (Fig. 2.5 a e b). Somente após discussões e trabalho conjunto do arquiteto Jorn Utzon com a firma de engenharia Ove Arup & Associados, tentando resolver o quadrinômio: representatividade formal, adequação funcional, metodologia construtiva e eficiência estrutural, é que a obra foi construída, porém, com sua forma final consideravelmente alterada em relação à ideia inicial, como explica Frampton (1995) e Lopes (2006). Importa ressaltar que nem sempre a estrutura resistente aparece no edifício de maneira explícita, pois, ela pode ser integrada ao todo arquitetônico de diversos modos.
Estudos sobre os nexos entre arquitetura e estrutura, como os de Angus MacDonald (2001) e os de Lopes (2006), por exemplo, têm demonstrado as variadas maneiras que esses nexos se apresentam: desde a ignorância ou desconsideração deliberada dos requisitos da estrutura resistente - ou seja, quando pouca importância é dada aos requerimentos estruturais no momento em que a estrutura formal arquitetônica é determinada ou concebida - até as situações em que as formas adotadas têm um bom
(a)
(b)
desempenho por considerarem os critérios técnicos e estruturais, ao ponto de, em alguns casos, a estrutura resistente ser definidora da própria estrutura formal arquitetônica, como elemento significante de sua linguagem e expressividade.
Um dos exemplos de arquitetura, em que os requerimentos estruturais tiveram pouca importância na concepção do edifício, conforme citado por Angus Macdonald (2001), é o Museu Vitória e Albert (Fig.2.5), em Londres, projetado pelo arquiteto Daniel Libeskind em 1995, construída no final dos anos 1980. Nessa obra, a relação entre estrutura resistente /estrutura formal arquitetônica, não ocorre de modo satisfatório, o que implica no uso
Figura 2.4
Ópera House Sydney: (a) Concepção inicial; (b) Concepção final. Fonte: SCHMIDT, 2007.
ineficiente do sistema estrutural, podendo resultar, como considera Macdonald (2001, p. 110), “em estruturas que são desajeitados e
deselegantes”. Em suma, os elementos da estrutura resistente não
contribuem, em si, para a estética arquitetônica, o que ocorre também com a lógica construtiva do edifício.
No extremo oposto, são os casos em que os requisitos da estrutura resistente são determinantes da estrutura formal arquitetônica, ou seja, em que se busca alcançar os limites do que é possível estruturalmente como os grandes vãos (Fig. 2.6) ou as grandes alturas (Fig. 2.7) ou quando se deseja atingir extrema leveza (Fig. 2.8), apenas para citar alguns dos inúmeros exemplos existentes. São situações em que a dimensão do vão ou da altura ou a leveza que se deseja atingir a partir de elementos estruturais esbeltos, são tais que, em consequência, as considerações técnicas e estruturais se impõem como uma das prioridades nas decisões projetuais, a ponto de afetar significativamente o resultado estético do edifício. Situação esta que Macdonald (2001) classifica como “structure as architecture” (estrutura como arquitetura) e que se pode relacionar ao que Frampton (1995) considera “ontologically tectonic” (ontologicamente, ou essencialmente tectônico).
Figura 2.5
Projeto do arquiteto Daniel Libeskind, para a extensão do Museu Vitória e Albert, Londres, 1995. A seção transversal mostra um sistema portante convencional de pilar e viga, que não é
determinante da estrutura formal resultante. Fonte: MACDONALD, 2001.
Figura 2.6
Palazzetto dello Sport, Roma, Itália, 1960; arquiteto Pier Luigi Nervi. O sistema estrutural de laje nervurada auxilia no alcance do grande vão desejado e, neste caso, colabora na expressividade da arquitetura.
Fonte: Process Architectrue, N° 23, 1981.
Figura 2.7
Nas torres, ou edifícios de grande altura, que tem como um dos maiores problemas a enfrentar- a sua estabilidade às forças horizontais do vento - o sistema portante, o contraventamento e o formato da planta são fundamentais à sua estabilidade e determinantes da estrutura formal resultante. (a) Torre Millenium, Tóquio, não construída, Arquiteto Norman Foster.
(b) Place Victoria, Montreal, 1962-1966, Pierre Luigi Nervi e Luigi Moretti. Fonte: LOPES, 2006.
(b) (a)
O que se denominou de “arquitetura high tech” nos anos 1980, pode-se dizer, é um caso particular de “estrutura como arquitetura”, em que, intencionalmente se deseja expor os requisitos técnicos e estruturais, os quais participam fortemente do vocabulário visual da estrutura formal arquitetônica, como é o caso de algumas obras de Richard Rogers (Fig. 2.9).
Figura 2.8
As lâminas, em membranas tencionadas ou cascas de concreto, são exemplos de sistemas resistentes que permitem alcançar grandes vãos com considerável leveza. A geometria alcançada, geralmente, constitui a própria forma do edifício e responde pelo resultado estético.
(a) Pavilhão Alemão, Exposição Mundial de Montreal, Canadá, 1967, projeto Frei Otto. (b) Restaurante Los Mananciales (1957058), em Xochimilco, projeto de Félix Candela. Fonte: LOPES, 2006.
Figura 2.9
Fábrica de Microprocessadores, Newport, South Wales, 1982. Arquiteto Richard Rogers. Busca-se um resultado estético que decorre da exposição dos elementos estruturais e das instalações técnicas, que influenciam a ordenação da estrutura formal arquitetônica com um todo.
Fonte: MACDONAL, 2001.
Entre esses dois extremos, dos nexos possíveis entre o sistema estrutural e a estrutura formal arquitetônica, ressalta-se aqui, os casos em que a expressividade do edifício não emerge necessariamente da visibilidade do sistema portante, mas, está diretamente relacionada a este. A estrutura resistente é geradora da estrutura formal, embora não colocada à vista. Uma das aplicações notáveis desse exemplo é a utilização da laje plana de concreto armado, projetando-se em balanço além do perímetro dos apoios da malha estrutural (Fig.2.10):
As vantagens da continuidade estrutural possibilitadas pelo concreto armado são admiravelmente resumidas na armação estrutural da Casa Dom-ino de Le Corbusier de 1914. Lajes delgadas abrangendo os dois sentidos (dos caminhos das forças) são apoiadas diretamente sobre uma malha de colunas. (MACDONALD, 2001. p.104).
Pode-se dizer que estão intrinsecamente relacionadas a esse esquema as possibilidades arquitetônicas que o princípio estrutural permite como aquelas reunidas por Le Corbusier em seus “cinco pontos para a nova arquitetura”, que tem como arquétipo a Villa Savoye (Fig.2.11) e que influencia sobremaneira a produção moderna da arquitetura, em particular a brasileira, a exemplo da obra ícone da implantação do modernismo no Brasil, o Ministério da Educação e Saúde (Fig.2.12). Assim como na Villa Savoye, o sistema estrutural de concreto armado contribui na determinação da estrutura formal, juntamente com os demais pontos da nova arquitetura, adaptados, no caso do MES, às condições de cultura, técnica e clima do Brasil, o que confere uma expressividade específica da arquitetura brasileira, a exemplo do plano de vedação composto por elementos de proteção solar (brise-soleil), que rompe com a pureza do prisma corbusiano.
Figura 2.10
Esquema gráfico do Dom-ino (1914) de Le Corbusier. Fonte: MACDONALD, 2001.
Figura 2.11
Villa Savoye, França,1928. Arquiteto Le Corbusier. Fonte: MACDONALD, 2001.
Figura 2.12
Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro, 1936, projetado por Lúcio Costa e equipe.
Assim, pode-se dizer que o sistema estrutural portante ou resistente equivale à estrutura-telhado de Semper ou ao core-form (núcleo estrutural ou forma essencial) de Bötticher. Entretanto, longe e livre de uma discussão estilística ou argumentação crítica, o que se busca neste trabalho é a investigação da correlação estrutura/arquitetura, ou seja, averiguar de que modo os princípios estruturais e sua materialização participam do resultado estético- formal do envoltório do espaço arquitetural moderno. Estudos sobre a cultura construtiva moderna têm demonstrado a importância da engenharia estrutural para criação/materialização desses espaços. A utilização de grandes coberturas – em concreto, aço ou ferro -, o uso de pilotis, a introdução do plano estrutural contínuo como as cascas de concreto armado, são alguns dos aspectos da linguagem arquitetural moderna que os novos materiais, princípios estruturais e técnicas construtivas permitem, em conformidade com o pensamento racionalista estrutural.
As junções entre os elementos da estrutura resistente também são estudadas nessa relação estrutura resistente/estrutura formal arquitetônica, uma vez que elas podem ser fonte de significado e de potencial expressivo da arquitetura, consideradas detalhes tectônicos. Um dos exemplos notáveis citado por Frampton (1995) é a ênfase que Louis Kahn dá as junções, considerando a dimensão humana do edifício e a concepção/execução deste como uma oportunidade do arquiteto criar vida. Para ele o modo como as junções e articulações da mão humana se une, por exemplo, faz com que o gesto como um todo seja belo e interessante. De modo análogo, as junções ou detalhes tectônicos, em uma obra arquitetônica não devem ser ocultados e colocados como em uma “luva de boxe”, devem, antes, ser evidenciados (Fig.2.13). (KAHN, 1957 apud FRAMPTON, 1995, p.227/228). Para Louis Kahn as junções que a luz permite ver revelam a probidade construtiva de uma obra, comungando assim com um dos fundamentos do racionalismo estrutural, como lembra Frampton (1995).