Em relação aos aspectos qualitativos da água no alto curso do rio Dourados, o setor da bacia orientada pelo córrego Feio tem vasta área preservada e ocupação humana consideravelmente menor, como foi possível observar nos mapas 11, 12, 13 e 14. São uma questão diferente as áreas representadas pelos córregos Taquara, Estiva, Lavrinha, Cava e Preto, onde os empreendimentos humanos se diversificaram, desde a produção agropecuária, passando pela extração de areia e chegando mesmo a emissão de efluentes urbanos.
A existência de dados relativos as variáveis da qualidade da água permite tecer considerações sobre a situação do rio Dourados a montante da secção da Charqueada do Patrocínio (mapa 3), justamente a região com maiores impactos relativos aos córregos da Taquara, Preto, Cava, Estiva e afluentes menores. Foram consultados informações de 19 análises do corpo hídrico referentes a temperatura, potencial de hidrogênio (PH), oxigênio dissolvido (OD) e mais recentemente foi realizada uma análise de turbidez. Estas análises são resultados do trabalho de monitoramento da qualidade das águas realizado pela parceria da Agencia Nacional das Águas e do Instituto Mineiro de Gestão das Águas.
Avaliando os índices junto aos parâmetros sugeridos pela Agencia Nacional das Águas e pela Resolução 357/05 do CONAMA, aqui o alto curso do rio Dourados é classificado como classe 1 (por se tratar de uma área de nascentes), é possível obter algumas informações sobre a qualidade da seção do rio onde foram feitas as amostras, bem como da condição da bacia a montante deste ponto.
A temperatura, por exemplo, é importante por permitir uma compreensão da intensidade de calor, que influencia as propriedades das águas como densidade, viscosidade e os valores do oxigênio dissolvido. A temperatura da água pode variar por alterações naturais (exemplo a
energia solar), e antrópicas (como despejos industriais e águas de resfriamento de máquinas). Comparando as amostras de água com a temperatura do ar no local, a diferença média de 3° C entre a temperatura do ar e do curso fluvial, na Estação Charqueada do Patrocínio, revela que pouca influencia deve ter ocorrido das atividades antrópicas neste quesito.
Em relação ao potencial de hidrogênio (PH) que diz respeito ao equilíbrio entre os íons H+ e os íons OH, sua variação se da entre 1 a 14. O valor 7 representa água neutra, abaixo disso são águas ácidas, acima deste valor se têm águas básicas. A análise revelou índices ácidos, mas muito próximos a neutralidade, as médias das estações chuvosa e secas pouco diferiram e a média total é de 6,48. Do ponto de vista do consumo humano e principalmente da manutenção dos ecossistemas aquáticos, conforme a resolução CONAMA, sugere-se o PH na faixa entre 6 e 9. Mais delicada é a questão do Oxigênio Dissolvido (OD), as águas com baixos teores de OD indicam uma carga maior de matéria orgânica que, potencializada por bactérias aeróbicas, decompõem-se e acaba por gerar um elevado consumo de OD consequentemente há redução do mesmo. Em caso de mananciais com baixa capacidade autodepurativa os teores de OD podem cair, chegando a zero, extinguindo a vida aeróbica.
A resolução CONAMA 357/05 estabelece que toda amostra, da classe 1, deve apresentar OD acima de 6 mg/L O². Para a análise na secção do rio Dourados: a média é de 4,82 mg/L O², valor abaixo do nível estipulado, sendo que apenas em 3 situações ocorreram valores acima do limite. Alguns valores muito baixos como na amostragem de 19/09/2005 (3,2 mg/L O²), 03/06/2011 (2,06 mg/L O²) e 04/04/2013 (2,88 mg/L O²), os índices revelam uma séria ameaça a vida aeróbica.
Mas quais motivos levaram o OD daquela secção a índices tão baixos? A reposta pode estar na emissão de efluentes pelos bairros e algumas propriedades rurais (mapa 19). O esgoto lançado no rio Dourados, a menos de um quilometro da área de coleta das amostras, faz com
que a carga de matéria orgânica seja muito elevada. Gerando, deste modo, a proliferação dos organismos decompositores e a consequente queda nos índices de oxigênio dissolvido. A questão do esgoto, ao menos no que se refere ao bairro de Serra Negra, deve ser amenizada com o inicio da operação da Estação de Tratamento de Esgoto daquele bairro (foto 26)
Foto 26: Alto curso da bacia do rio Dourados - Estação de Tratamento de Efluentes – Unidade Bairro Serra Negra
Fonte: DAEPA (2011)
Em relação a turbidez apenas na amostra de 04/04/2013 foi realizada esta estimativa, o resultado também, não foi considerado satisfatório. A turbidez é causada pela presença de matéria em suspenção na água, como argila, silte, matérias orgânicas finas, organismos microscópicos, entre outras partículas. Desta forma a resolução 357/05 do CONAMA estabelece valores para os cursos fluviais, neste caso até 40 unidades nefelométricas de turbidez (NFT) é considerado aceitável. A amostragem apresentou um valor de 56 unidades NFT. O nível elevado sugere o lançamento de esgoto, e também pelo material sedimentar carreado principalmente pelos córregos da Cava e Taquara.
Mapa 19:
Alto curso da bacia hidrográfica Fontes poluidoras e unidades de
mitigação dos poluentes.
Como síntese desta analise ambiental tem-se o quadro 5 baseada na proposta do Ministério do Meio Ambiente, onde estão relacionados os indicadores da avaliação ambiental identificados durante o estudo na área.
Quadro 5: Indicadores conforme o MMA 2005.
Elementos de Avaliação
Indicadores de impactos ambientais
Dimensão Físico-Biótica Interferência
em aspectos físicos:
Áreas degradas e erosão.
Contaminação de solos por efluentes sanitários e agrícolas Interferência
em
Ecossistemas Terrestres
Perda e fragmentação de ambientes (devido aos vetores de ocupação em áreas anteriormente mais preservadas).
Alteração da Cobertura Vegetal
Alteração no uso do solo, fauna e flora, perda de áreas produtivas. Interferência
em
Ecossistemas Aquáticos
Extensão de rio com alteração de regime, inclusive com vazão reduzida.
Variação de regime hidrológico, possibilidade de cheias mais intensas. Contaminação de mananciais devido ao aumento da carga de efluentes
sanitários; utilização de insumos agrícolas (fertilizantes e agrotóxicos), suinocultura.
Alteração da produção e transporte de sedimentos a montante e a jusante, erosão de margens, sedimentação e alteração do leito do rio. Qualidade da água
Eutrofização
Existência de vegetação marginal Dimensão Socioeconômica Organização
do Território Alteração na rede urbana (núcleos urbanos atingidos) Infraestrutura de comunicação regional e local modificada (extensão de estradas, pontes)
Especulação imobiliária (aumento do preço da terra). Impacto sobre comunidades tradicionais