As unidades de produção domésticas, organizadas da maneira acima descrita, nos levam a uma discussão fundamental para a presente argumentação: como se relaciona o trabalho das famílias camponesas com o processo de modernização das sociedades dado a partir das cidades? A própria racionalidade fundamental segundo a qual se dá o funcionamento da economia doméstica não pode ser compreendida à parte do processo do capital, enquanto uma lógica produtiva específica que se encera em si mesma. Para apropriarmo- nos da noção de unidade de produção camponesa no estudo de caso em questão é preciso, portanto, conceber a possibilidade da forma da economia doméstica aparecer em diversas conjunturas históricas particulares.
Partindo da noção de unidade de produção doméstica, mas buscando mostrar a importância de contextualizá-la historicamente, a primeira contribuição da obra de Teodor Shanin que trazemos para esta pesquisa é justamente a da operacionalidade da noção de campesinato, já que esta faz referência a um fenômeno trans-histórico. SHANIN (1980), fazendo a mesma ressalva que já fizemos à obra de Chayanov, indica que o camponês não existe no sentido imediato e especifico. Trata-se de um modo de existência que atravessa a História e se manifesta nos mais variados lugares, alguns ricos, outros pobres, enriquecendo ou empobrecendo durante a vida, incorporando-se em um proprietário de terras, em um arrendatário, ou mesmo, temporariamente, em um trabalhador assalariado. Além disso, o campesinato existe sob conjunturas históricas particulares dentro desse amplo grupo de países que se encontram ou já se encontraram “em desenvolvimento” (entre aspas porque Shanin, apesar de localizar o problema do campesinato a partir deste termo, tem uma perspectiva
crítica quanto à idéia de linearidade do processo histórico de expansão capitalista). Sua obra não se pretende uma chave-mestra para o estudo do campesinato sem consideração de tempo, espaço, estrutura política e cultural (SHANIN, 1983).
Portanto, não é possível enxergarmos as populações do Sertão de Santo Amaro em isolamento. Antes, é necessário compreendê-las historicamente em sua relação, ainda que parca, com a Capital, e também com núcleos urbanos como Santo Amaro e Itapecerica. Sobre a relação destes subúrbios com a metrópole, temos a citação:
Cheios de contrastes são os subúrbios paulistanos e sua história reflete, muitas vezes, a da metrópole a que se acham tão estreitamente ligados. Ali se erguem velhos aglomerados, alguns mesmo venerandos, cujas origens remontam aos séculos coloniais; é o caso de Cotia, Itapecerica da Serra, Santo Amaro, São Bernardo do Campo, São Miguel Paulista e Guarulhos. (PENTEADO, 1958: 10).
Os sitiantes eram atuantes nesses subúrbios, tanto quanto na Capital. “Esses caipiras tiveram uma importância muito grande, durante um longo tempo, pois, como produtores alimentares, já atendiam o incipiente mercado consumidor de São Paulo” (VIEIRA, 1988: 27). A relação do caipira com os núcleos urbanos de maior expressão era assim descrita:
Durante um século, caipiras marcaram a paisagem cultural dos arredores de São Paulo, seus contactos com a metrópole sendo feitos à custa de uma atividade comercial modesta: utilizando cargueiros isolados, tropas pequenas ou carros de boi, levavam suas mercadorias para a cidade (PETRONE, 1964: 249).
Reforçando o que já foi mencionado anteriormente, comercializava-se parte desta produção agrícola em Santo Amaro, para onde também se levava palmito extraído da mata e algum excedente de ovos e de onde se traziam farinha de trigo, sal, açúcar, café, óleo (em substituição à banha de porco), tecidos e miudezas. Sobre essas trocas, fala o entrevistado:
Sr. Marinho Reimberg: (...) conforme a necessidade, conforme
a procura, principalmente dos produtos naturais… o palmito teve uma época que muito se explorou aqui, então era uma coisa que tinha naturalmente, eles colhiam aqui e iam pro centro de São Paulo vender. E muitas vezes nem vendiam, tinham que trocar por outras… trocar por sal, ou açúcar, que eles não produziam aqui. (...) eles iam pro centro já fazer o mercado, iam em lombo de burro e a cavalo (...). (Fonte: entrevista realizada por Giancarlo Livman Frabetti. Trabalho de campo, janeiro de 2008).
Inclusive, é importante lembrar: CHAYANOV (1986) ainda considera que, em função da razão básica sob a qual se determina a elasticidade da força-de- trabalho, pode ocorrer acumulação de capital no interior da unidade de produção: “(...) con una alta productividad de su fuerza de trabajo la familia campesina tenderá naturalmente no solo a cubrir sus necesidades personales sino también a ampliar la renovación de capital y, en general, a acumular capital” (CHAYANOV 1974: 133, apud LIMA, 2005: 143). O que este autor enxerga para a realidade russa é a tendência de que não só o campesinato não desapareceria, mas que as pequenas unidades econômicas agrícolas independentes incorporariam a técnica desenvolvida pelas grandes indústrias.
Todavia, nessa época, a influência do crescimento da cidade de São Paulo sobre o Sertão de Santo Amaro ainda não havia chegado a criar condições que provocassem transformações significativas no modo de vida dessas populações, a ponto de “fazê-los evoluir para novas formas, fundamentadas em atividades agrícolas basicamente comerciais, que o crescimento da cidade passava a possibilitar” (SEABRA, 1971: 3).
Mas se ainda não eram intensas e modernas as trocas comerciais entre Santo Amaro e seu sertão, elas certamente foram importantes para que ocorresse uma série de transformações, das quais destacamos inicialmente a abertura de novas estradas. ZENHA (1977) aponta uma disposição maior à incorporação de novidades onde se instalaram os alemães e seus descendentes, citando como exemplo: “As inúmeras estradas que cortam a grande área ocupada pelos alemães foram todas abertas por eles ou seus descendentes. A Henrique Schunck se deve um trecho importante da atual estrada denominada dos Parelheiros” (ZENHA, 1977: 111). Outro autor coloca
que “(...) os alemães estavam prontos a aderirem ao progresso, e foram os primeiros a proverem-se de luz elétrica, primeiros motoristas de Santo Amaro (…)” (PENTEADO, 1958: 59). Como já visto, os camponeses tiveram importância ao mesmo tempo estratégica (para expulsar posseiros e escravos foragidos, a princípio) e econômica:
Sr. Marinho Reimberg: (...) [antes da colonização] havia
algumas grebas já com os portugueses, algumas pessoas ligadas ao governo, então as vezes a gente ouvia alguma conversa desse tipo, que eles também colocaram esses alemães aqui porque as terras tavam sem estrada, sem nada, era um pessoal que tinha ganho essas terras do governo, era um pessoal ligado a política, então era uma forma de desenvolver as terras deles, a região deles, eles colocando aqui os alemães pra trabalhar e que foi de fato o que aconteceu, tinha poucas grebas e poucas pessoas aqui, a não ser os alemães, e encontraram também … pouca gente, mas encontrou já família de escravos que haviam fugido, não propriamente um quilombo, porque eram famílias isoladas (...). (Fonte: entrevista realizada por Giancarlo Livman Frabetti. Trabalho de campo, janeiro de 2008).
Nesse tempo, o transporte realizado por carros de boi era feito sobre estradas de terras, muitas vezes percorridas também a pé pelos moradores da região:
Pesquisador (P): [O pai do entrevistado] vendia essa farinha de
milho e mandioca para quem?
Hermenegildo Hessel (H): Ah, ele vendia… o pessoal vendia no
mercadinho de Santo Amaro. Ele levava de carro de boi. Naquele tempo não tinha asfarto, não tinha estrada, era carro de boi, né?
P: Ia por qual estrada prá chegar em Santo Amaro?
H: Era essa mesmo, aí [a antiga estrada de Parelheiros, na altura em que ela é, atualmente, denominada estrada de Engenheiro Marsilac], só que era tudo de terra.
P: A Estrada de Parelheiros… Quando o senhor nasceu, essa estrada já estava aberta, já?
H: Já. Só que era terra.
P: O senhor mesmo já chegou fazer essa viagem até Santo Amaro prá vender farinha lá?
H: Não, não cheguei fazer. Mas daqui a Santo Amaro eu já fui a pé, fui a pé uma vez que meu pai ficou doente, aí foi eu e minha mãe, o único lugar que tinha remédio era em Santo Amaro. Comprar remédio, essas coisas.
P: No caso, que outras coisas o senhor comprava em Santo Amaro? O que é que não tinha aqui e o senhor tinha que buscar lá em Santo Amaro?
H: Às vezes farinha de trigo, essas coisas… Açúcar, que naquela época era racionado.
P: Tecido era necessário comprar?
H: Era… tecido era. (Fonte: entrevista realizada por Giancarlo Livman Frabetti. Trabalho de campo, janeiro de 2008).
Contudo, essas estradas eram sempre muito difíceis de trafegar. Para resolver este problema, os próprios camponeses faziam mutirões para sua abertura e conservação; décadas depois, em outro contexto histórico, os próprios caminhoneiros (ver Foto no 24), descendentes dos primeiros imigrantes a trabalhar com indústrias rurais, passariam também a realizar mutirões para manutenção de estradas. Com o desenvolvimento dos meios de transporte, especialmente com a chegada do caminhão, estas estradas antigas viriam a ser pavimentadas, dando origem à rede viária local.
Sr. Marinho (M): A estrada principal que chegava até
Parelheiros, como todo mundo usava o mesmo trajeto, que era o mais perto pra ir pra Santo Amaro, então você sabe… uma família ou outra, ela encalhava o carro-de-boi. Aí, no outro dia, ela ia lá e tinha que passar novamente, então dava uma melhorada e tal... e foi surgindo o caminho principal que foi a estrada de Parelheiros, que vinha até a Colônia. Em 1940, o meu avô foi uma das primeiras pessoas aqui a comprar um caminhão e, meu pai me conta isso, meu pai também foi um dos primeiros motoristas aqui da região, talvez seja o primeiro, porque quem trouxe o caminhão do meu avô foi quem veio ensinar depois o meu pai. Aí eles contaram que o caminhão chegou até Parelheiros só. Então de Parelheiros a Colônia tem mais 5km, até a fazenda lá do meu avô ainda tinha mais quase dois, então ficou quase 7km longe do local, e essa estrada foi tendo que ser feita aos poucos. A maneira que… entulho quase não tinha, então tinha que cavar pedras de algum lugar que tinha cascalho, mas a maioria do sistema aqui era o sistema de estiva, que se chama: cortava-se varas média assim (mostra com gestos), colocava algumas mais grossas no sentido do pneu e as outras transversais, ao contrário. Aí… cê vê… daqui pra Parelheiros era tudo brejo, tudo baixadas, então tinha que pegar carga pequena e passando por esses… formando as estradas, com o tempo ela foi firmando, colocava um pouco de pedra ali, outra ali e esses donos de caminhões foram fazendo as próprias estradas. Ajuda pública mesmo, veio por volta dos anos de 55/60
por aí, que aí começou tomar conta, o Estado… mas antes era os próprios donos dos veículos que tinha que se virar.
Pesquisador: Eles mesmos abriam caminho nas estradas pra
poderem passar…
M: Ah! Sim… eu cheguei pegar tempo, que meu avô… tinha o
cunhado dele, chamava Adão Glasser Bueno, o outro tio por parte de pai aqui chamava Zico Lopes, que tinha caminhão, eles formavam os mutirões de cada dois, três meses… principalmente quando antecedia a época das chuvas, pra poder arrumar as estradas, ficavam semanas com todos os empregados e tal… arrumando as estradas pra poder sair. (Fonte: entrevista realizada por Giancarlo Livman Frabetti. Trabalho de campo, janeiro de 2008).
Foto no 24: Adão Glasser Bueno e seu caminhão
Notamos o antigo morador do bairro da Colônia junto ao seu veículo de carga, em meados do século XX. Trata-se de um dos primeiros trabalhadores a comprar um caminhão de porte suficiente para carregar materiais pesados. Notar suas iniciais gravadas na porta do caminhão. (Fonte: acervo exposto no bar do sr. Hélio Satori, no centro da Colônia. Reprodução fotográfica
da imagem original por Giancarlo Livman Frabetti. Trabalho de campo, janeiro de 2008).
Constatamos, portanto, que o trabalho livre do colono que vivia no entorno rural, além de gerar os meios de vida e a renda familiares, também adicionou à terra transformações que passaram a valorizá-la, num contexto de surgimento da propriedade privada da terra, dado com a edição da Lei de Terras. Essa metamorfose do trabalho vivo que, incorporado à terra, transforma-
se em renda fundiária nas mãos do proprietário, se deu seja por meio da derrubada das matas, seja pela abertura de estradas, seja na capitalização que ela gerou nos centros urbanos de menor porte na época, como Santo Amaro. Algumas famílias chegaram a enriquecer pela abertura de empreendimentos como as indústrias rurais (vide foto no 25, mostrando a família Reimberg e sua casa) ou explorando a condição de proprietários fundiários.
Foto no 25: membros da família Reimberg em frente à sua casa
Notamos, por meio da sofisticação da casa (ao fundo) e das vestimentas dos membros da família Reimberg (em primeiro plano), e da fina edificação de sua casa (em segundo plano) o padrão de vida relativamente abastado alcançado pela condição de proprietários fundiários e de donos de serrarias, olarias e outros negócios no meio rural correspondente à antiga vila de Santo
Amaro (Fonte: acervo exposto no bar do sr. Hélio Satori, no centro da Colônia. Reprodução fotográfica da imagem original por Giancarlo Livman Frabetti. Trabalho de campo, janeiro de
2008).
Registra-se que a região do sertão de Santo Amaro “viveu sonolenta e obscuramente durante dois ou três séculos” (COSTA, 1958: 115). Grande parte dos seus núcleos regionais eram “simples povoados, algumas vezes meros bairros rurais, com poucas dezenas de habitações, uma ou duas casas de
comércio, localizados geralmente em pequenas planícies alveolares e nascidos em virtude da presença da estaca ferroviária, de uma capela ou de vendas de beira de estrada´ (COSTA, 1958: 149). Com o trabalho camponês, “à volta da cidade criou-se progressivamente apesar da pouca fertilidade do solo, uma região de exploração intensiva, região não contínua, mas distribuída em ilhas, por manchas, cada qual com suas especialidades” (Pierre Deffontaines, 1935 apud PENTEADO, 1958).
Em um momento seguinte, no qual começa a despontar com maior vigor o crescimento de São Paulo, esta paisagem rural, com suas matas, seus campos, suas vias e pequenos núcleos de povoamento, será a condição criada para que aconteça a especialização tanto da indústria rural quanto da agricultura.