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P1

“Continuo igual, nem melhor nem pior, sou a mesma pessoa. Eu sinto-me bem, tenho paz, não guardo ressentimentos em relação a ninguém.

Senti-me bem, mesmo na morte do meu marido, tive com ele até ao fim, fui eu que lhe fechei os olhos.

Só não gosto de incomodar ninguém, nem incomodei ninguém, fiz tudo sozinha. Sempre fui muito independente, mesmo quando casada.

Não gosto de incomodar, sempre fui muito independente Sou a mesma pessoa.”

P2

“ (…) não admito que me ponham os pés em cima, não existe nem respeito nem

educação hoje em dia, e isso tem-me dificultado muito a minha vida pois há coisas, situações que eu não admito, nunca admiti. Sabe, eu sou muito directa e digo sempre aquilo que penso e isso tem-me trazido alguns dissabores, mas eu sempre assim fui. Eu sou pobre, mas não tenho de andar suja ou mal arranjada. Não é viver de aparências, mas eu tenho de me cuidar e não é por ser pobre que o vou deixar de fazer, não é por precisar que vou deixar que me ponham o pé em cima, nunca me calei não é agora que me vou calar.

Alem disso, não concordo que a pessoa se acomode à espera que as coisas caiam do céu. Sempre tive uma força, não sei explicar bem, possivelmente é o facto de falar muito comigo de eu própria arranjar forças para seguir em frente”.

M1

“ (…) era feliz. A minha vida continua na mesma, dou-me bem com toda a gente, aqui, com os vizinhos, continuo na mesma. Não sou infeliz, mas sou menos feliz. Sou a mesma pessoa, já não tenho o meu companheiro, mas eu sou a mesma. Os que ficam têm que viver a vida. Mas acho que sou a mesma.

Os meus filhos estão sempre a dizer-me para eu ir para A, pró pé deles …. Mas, não, vou lá de visita”

M2

“ Era uma rapariga muito trabalhadora, ajudei a criar os meus irmãos, porque a minha mãe ficou viúva muito cedo, eu tratava dos meus irmãos para ela poder trabalhar. Não fui muito feliz, ia à praça muitas vezes descalça buscar comida para dar aos meus irmãos. Trabalhava-se muito naquela época e a pobreza era muita. Não pude ir à escola, não sei ler nem escrever, mas nunca ninguém me pôs os pés em cima por causa disso. Sempre fui muito desenrascada, muito torta, muito senhora do meu nariz. Sou justa, não gosto de mentir, e tinha muito brio com a minha casa, tinha tudo sempre muito limpinho.

Depois, quando ele morreu, fiquei outra vez muito triste, continuava a mesma, mas muito mais triste, hoje, sou a mesma mas muito mais triste, falta-me ele. Sou a mesma, mais triste, e com mais doenças, mas sou e sempre fui uma mulher de “gancho” mas eu gosto assim.

Sempre trabalhei muito (…) nunca fui de ficar parada à espera, isso não é do meu feitio.

Nunca foi. (…) mas gosto muito de me arranjar sem estar atida a ninguém.”

M3

“Era muito alegre, trabalhadora, dava-me bem com toda agente, sempre fui

muito honesta, era uma boa pessoa.

Já não sou tão alegre, trabalho, também já faço pouco, porque fui operada ao coração, já não sou tão mexida, mas sou a mesma pessoa, mas mais velha e mais doente. (…) era um pouquinho refilona, agora sou capaz de ser mais.”

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M4

“Sempre fui muito alegre, gostava de cantar, dançar, organizada, era muito teimosa, mas não era rancorosa e sempre fui dona do meu nariz.

Sou a mesma pessoa, tal e qual. Logo a seguir à morte do meu marido e aí durante um ano, fiquei mais triste mas mandei dizer umas missas gregorianas, entreguei o meu marido a Deus e segui a minha vida.

Hoje, hoje, estou velha ajudo no que posso e vou tentando viver o melhor possível. Ainda faço alguma falta, eu sei, mas os meus filhos já não precisam de mim como precisaram naquele tempo. Agora é diferente.”

M5

“Era muito alegre e bem-disposta, ria-me muito, sempre fui muito senhora do meu nariz, nunca deixei que fizessem pouco de mim, era muito trabalhadora e orientada. Continuo a ser Senhora do meu nariz, mas nunca mais tive aquela alegria, fiquei mais triste

(…) eu era tão tolinha que até pensava que os militares não eram homens.

(…) Agora, tive de recordar para falar consigo, mas não gosto muito, porque fico triste. A vida que tive e a vida que tenho… É tudo tão diferente, minha filha… Não tenho palavras…”

M6

“Sempre fui muito trabalhadora, nunca fui mentirosa, sempre tive muita genica, muito alegre, gostava muito de brincar, gostava de fazer rir toda a gente e adorava dançar. Sempre gostei de tudo muito direitinho, sempre fui muito directa, a verdade é filha de Deus e mentir é defeito que não tenho. Nunca fico engasgada, o que tenho a dizer, digo logo.

Sempre fui uma mulher séria, continuo igual, mas a falta de saúde não me deixa fazer muitas coisas e fico entediada.

Continuo igual. (…) Não me sinto bem se não estou a fazer nada, Fico esmorecida e eu gosto de me sentir bem.

Isto é assim… Quem tem unhas é que toca guitarra… entende? Se eu não fosse como sou, se fosse mandriona, se não gostasse de trabalhar, como é que tinha criado tantos filhos? E naquela altura… não havia cá máquinas… foram estas mãos que me ajudaram.”

M7

“Era muito vivaça, muito alegre, dava-me bem com toda a gente. Ajudei a criar os netos, era muito trabalhadora. Não conseguia estar parada. Sempre fui muito calma.

Defeitos não tenho, estou igual, mas mais parada sabe, não vejo e não consigo fazer nada, então, estou mais parada, até deixei de sair. Tenho medo de cair. Estou mais triste, mais esmorecida. A vistinha é muito importante, preferia não poder andar.”

M8

“Era reles, tinha má vinho sem beber, era torta, muito refilona, mas dava-me bem com toda a gente: Nunca ouviu dizer: pica o manso, saberás o que é o bravo. Eu era assim, não me podiam pisar os calos… (risos), mas é bom sermos assim tesas, nunca ninguém fez pouco de mim.

Graças a Deus, sou a mesma, não mudei nada. Sou mais livre. Agora faço coisas que não podia fazer… mas, atenção, não sou leviana…

Eu gosto muito de conversar e de contar anedotas, gosto de me rir… Fiquei melhor depois dele ter morrido. Ò menina é a verdade e a Dr.ª A disse que tínhamos de dizer a verdade.

Sempre fui independente, não me custou nada. Assim como assim, eu já tratava de tudo. Agora, tenho tempo livre e só faço o que quero e o que me apetece ”

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