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ON CAMPUS Day 1:

Uma relação interessante tem sido estabelecida, por outro lado, entre algumas destas editoras, a digitalização e a internet. Como vimos no começo do Capítulo, os imperativos a que se refere Darton (2009) ao pensar o futuro dos livros são digitalizar e democratizar. Não é um dado isolado, portanto, que junto com o seu trabalho artesanal, algumas das editoras de papelão tenham levado adiante um processo de digitalização da literatura que editam, com o interesse de avançar ainda mais um passo na ampliação das possibilidades de acesso da comunidade à literatura. Sabemos que estas operações se vinculam também a vontade de construir redes fortes de intercâmbio e comunicação interna a rede cartonera, principalmente de criar laços e vínculos entre as editoras, como numa espécie de movimento. No site do facebook da editora Vento Norte Cartonera41, que tem uma vida virtual muito ativa, vemos

como o conjunto das editoras é colocado em termos de um “universo cartonero”, “mundo cartonero” e até “ pátria cartonera”, o que evidencia esta vontade de integração. Yerba Mala Cartonera (Bolívia) e Kodama Cartonera (México), são algumas das editoras que apresentam uma maior quantidade de literatura digitalizada e disponível para descarga gratuita. Desta forma evidencia-se que os canais através dos quais a edição alternativa tenta ampliar sua difusão são tanto o papel quanto o meio digital.

Neste contexto, assim como dois dos contos que analiso nesta pesquisa foram publicados em editoras de papelão, o terceiro (esta ordem é aleatória, com o único propósito de organizar a argumentação) foi posto em circulação de forma gratuita na revista eletrônica, Galerías. Cuadernos de traducción.42

40Descrição recolhida do blog da Mariposa Cartonera, que faz parte da Liga Cartonera, em uma matéria a raiz da

Bienal do Livro em Pernambuco em outubro de 2017 Disponível em:

<http://www.mariposacartonera.com/site/bienal-cartonera/> Acesso em: 13 mar.2018.

41 Disponível em: <https://www.facebook.com/ventonortecartonero/>. Acesso em 6 mar 2018.

42 Disponível em: <https://brasilpapelessueltos.com/about-2/> Acesso em maio de 2017. Ainda que a primeira

edição deste conto tenha sido feita em 2005, escolhi trabalhar com a edição da revista online justamente porque implica outra forma de colocar em circulação o conto. Acredito que a publicação gratuita e de livre acesso coloca- o em um espaço de produção que compartilha objetivos comuns com os outros dois, cujas formas de circulação, através das editoras “cartoneras”, também procuram um acesso maior e uma circulação mais ampla. A primeira edição apareceu na antologia Aquela Canção - 12 Contos Para 12 Músicas, São Paulo: Publifolha, 2005. Sobre

Esta revista surgiu através de um projeto da tradutora e editora argentina Julia Tomasini, quem por meio da página web “Paleles Sueltos, Literatura Brasileña en traducción”, onde é publicada a revista, tenta difundir e facilitar o acesso das comunidades hispano-falantes à literatura brasileira. Isto sem deixar de lado o próprio português, uma vez que a revista disponibiliza os textos em versões bilíngues e tem como objetivo “que a partir duma busca em espanhol os leitores hispano-falantes possam encontrar-se com a literatura brasileira e a língua portuguesa”43 (TOMASSINI, 2011, s/p. tradução minha), segundo Tomasini explica na

apresentação do projeto na página web.

Julia Tomasini é tradutora independente do português, licenciada em Letras pela Universidade Nacional de Buenos Aires, mestre pela Universidade de Maryland, College Park e atualmente realiza seu doutorado na Universidade do Estado de Rio de Janeiro.

A revista Galerías (2014) foi criada com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil através do Programa Nacional de Pesquisadores Residentes. No seu primeiro número, de 2014, em que apareceu o conto de Aquino, reúne seis escritores brasileiros traduzidos ao espanhol por cinco tradutoras argentinas: Andréa del Fuego por Bárbara Belloc; Teresa Arijón e Marçal Aquino por Aileen El-Kadi; Marcelino Freire por Lucía Tennina; Emilio Fraia, Paula Fabrio e Juliana Frank por Julia Tomasini.

Tomassini conta, na seção introdutória44, sobre a gênese da revista e o blog. Explica

que a revista nasceu a partir da sua inquietude como pesquisadora e tradutora, da vontade de criar espaços de conexão e difusão mais ampla, não só da literatura brasileira e sua tradução ao espanhol, mas também de crítica literária. O desenho arquitetônico da galeria é apropriado pela tradutora, que o metaforiza e pensa em “galerias literárias”. Estes espaços, afirma, situados ao ar livre ou embaixo da terra, se conectam nunca de uma forma só, nem tampouco de forma muito organizada. A revista se converte, para sua criadora, em um espaço de trânsitos. A galeria literária propicia o deslizamento através de janelas e portas que por sua vez podem conduzir a

esta primeira edição se explica no site da editora: “Doze canções da música popular brasileira servem de inspiração para doze escritores, que compõem suas narrativas em contraponto com a memória das letras e melodias. A obra conta com as participações de Miltom Hatoum, Beatriz Bracher, Moacyr Scliar, Marçal Aquino, José Eduardo Agualusa e Luis Fernando Verissimo, entre outros. Acompanha o livro um CD da gravadora Biscoito Fino, com as doze canções, interpretadas por Milton Nascimento, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Marisa Monte etc.” Informação disponível em: <http://livraria.folha.com.br/livros/contos/cancao-milton-hatoum-jose-eduardo- agualusa-beatriz-bracher-1011076.html> Acesso em. Jul.2017.

43No original: “Mi objetivo es que a partir de una búsqueda en español los lectores hispanohablantes puedan

encontrarse con la literatura brasileña y la lengua portuguesa.”

44 Páginas 5 a 11, Revista Galerías N° 1 (2014). Disponível em <https://brasilpapelessueltos.com/revista-

outros escritos, escritores, fragmentos, críticas, fotografias, outras traduções e outras literaturas, em redes inesperadas. Estas infraestruturas se sustentam na tradução, um profundo trabalho de leitura e de difusão.

No seu primeiro número, de 2014, pode apreciar-se quanto este trabalho e esta circulação estão situadas de forma difusa. Há relatos das viagens dos tradutores e de diversos cruzamentos: de fronteiras linguísticas e espaciais. Assim, vemos que na edição há uma circulação tanto das cidades que foram percorridas no caminho da tradução quanto daquelas que foram o chão a partir do qual a literatura surgiu.

Na capa da revista, cujo fundo é uma fotografia do que parece um corredor de uma casa antiga, a janela e parte de uma escada, o único texto, além do nome da revista, é o seguinte: São Paulo-Rio-Buenos Aires/ 2014. Também, muitas outras fotografias estão presentes na edição toda, mediando a leitura dos contos e localizando o leitor num espaço que não é o próprio, mas que também não é o espaço originário do texto. É como se a tradução tomasse corpo num olho que simultaneamente fotografa, lê e traduz. Temos assim fotos de espaços abertos e paisagens naturais, de bares e pessoas anônimas, condomínios, plantas, etc. As fotografias não são apresentadas com epigrafes nem referência alguma e acentuam, a meu modo de ler, uma sensação de viagem, trânsito e anonimato, em tensão com a especificidade outorgada aos autores, tradutores e pesquisadores. Estes são apresentados em relatos descritivos e em alguns casos, íntimos.

Parece-me que a singularidade com a qual revista trabalha com os contos e sua circulação colaboram para que a edição digital fuja da simples reprodução sistemática e despersonalizada da internet, o que a vincula com a singularidade dos livros de papelão, cujas capas são feitas duma matéria prima selecionada e recolhida cuidadosamente pelos cartoneros, e logo pintadas manualmente com gauche. Finalmente, vejo uma semelhança nessa forma de trabalho colaborativo, uma vez que o primeiro número da revista Galerías integra as vozes de diversos escritores e tradutores, de distintos países, que se reúnem ao redor da literatura e abrem suas vozes para o amplo público da internet, o que constrói uma ideia de mutirão de trabalho cultural.

Finalmente, assim como me referi ao modo como foi possível que eu tomasse contato com os contos das editoras cartoneras, é bom dar um espaço para explicar como o conto de Aquino publicado nesta revista chegou a meu percurso de pesquisa. Achei o conto na internet, navegando a procura de literaturas brasileiras contemporâneas que tocassem o tema da

cidade e os modos como as relações sociais acontecem nelas. Acredito que meu percurso como leitora e estudante deve ser considerado antes de afirmar simplesmente que este fato é uma prova da conquista do blog de Tomassini em relação a alcançar uma ampliação da circulação. Mas tendo em consideração meu contexto, mesmo dentro do âmbito acadêmico, certamente pode-se dizer que há capitais que hoje são mais accessíveis, e que isto é possível graças a projetos como o blog Papeles sueltos. Literatura em traducción, de Tomassini e a sua Revista Galerías. Cuadernos de traducción, assim como a outros projetos que priorizam a acessibilidade. Aproveito também para colocar que grande parte da bibliografia crítica desta pesquisa só esteve disponível para mim pelo fato de ter sido digitalizada e difundida, em blogs, revistas acadêmicas, portais gratuitos e livres de teses e dissertações digitalizadas, etc., como bem pode observar-se nas referências. Neste sentido, a luta que promove Darton (2009) para acompanhar o fortalecimento das bibliotecas públicas e acadêmicas com a digitalização e a democratização tem vigência também, e arrisco a dizer que especialmente, no nosso contexto latino-americano.

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