8. DISKUSJON
8.1 K OMMENTAR TIL BEKREFTEDE HYPOTESER
A pesquisa de campo verificou, nas práticas de produção para a radioescola, uma articulação entre ambas as tecnologias. A programação que foi veiculada durante um determinado tempo na radioescola mesclava dados da realidade local dos assentados com notícias e informações captadas por meio de pesquisas em sites da internet, como figura no depoimento de uma das produtoras do programa A Voz do Povo. Esse programa, de caráter noticioso, informava sobre notícias do assentamento e colhia matérias dos noticiários on-line para manter a comunidade em contato com o mundo. Além disso, discutia temáticas cujas informações eram colhidas de sites especializados. Pelos dados coletados, as notícias mais divulgadas eram aquelas provenientes de sites ligados aos movimentos sociais, como o MST. A veiculação desse tipo de notícias é mais restrita nos jornais on-line de grande porte. “Nós divulgávamos notinhas sobre os resultados das marchas, das lutas que aconteciam pelo país”, relata uma das produtoras do programa. Eventos ligados ao MST eram captados pelo site e divulgados pela rádio “(...) e aí a questão de reuniões que a gente sempre vai, tá divulgando... aí todo mundo fica sabendo.” (Entrevistada 12)
Todas as questões... a questão dos movimentos sociais...algum projeto que a gente procurava na internet... a gente pensava: ô! Isso é importante da comunidade tá sabendo... as marchas, né, que tavam acontecendo, que tinha gente daqui... bom, gente tá acontecendo isso em tal lugar! Então é importante que a comunidade esteja sabendo, do processo que tá acontecendo. E tem a ver também com o nosso processo de luta né... de história. (entrevistada 12)
Em articulação com a radioescola, a presença do Crid possibilita que as produções, as enunciações desenvolvidas pelos estudantes e professores de Santana sejam disponibilizadas no portal de radioescolas mantido pela referida ONG, e permite também que os usuários do local possam colocá-las em suas páginas pessoais ou coletivas como blogs, orkuts e ferramentas dessa natureza. Por meio dessa visibilidade, os sujeitos do lugar registram suas marcas na realidade circundante por um lado e, por outro, as pessoas de fora podem, pelo acesso a essas produções, ter novas alternativas para construir uma outra imagem do sujeito do campo que não aquele que está fadado a realizar o trabalho exclusivamente agrícola, relacionado ao trabalho braçal e totalmente dependente das intempéries do clima.
Não se tem clareza sobre a construção da identidade das pessoas e das comunidades rurais, no que se refere às suas reais características e na diversidade que existe entre um indivíduo e outro. Sujeitos do campo e de fora dele compartilham a mesma época, mas vivem em diferentes níveis de realidade e diferentes dimensões de sentido.
O uso do rádio, do ponto de vista da produção, tem a possibilidade de reconstruir as idéias a respeito do direito do homem do campo de fazer parte do mundo letrado. As emissões de rádio, antes de assumirem sua forma oral, são previamente escritas e, na maioria dos casos, requerem pesquisa. A produção radiofônica pode ser trabalhada com a perspectiva da pesquisa oral, através de informações colhidas por meio de entrevistas gravadas com a comunidade, e também com a pesquisa na internet, que vem sendo usada tanto para suprir a carência de livros informativos e científicos no assentamento, como pela sua versatilidade na busca da informação.
Já foram desenvolvidos documentários e outros formatos radiofônicos relatando e refletindo a própria realidade dos moradores, pelos participantes da Rádio Cultura de Santana. Essas produções radiofônicas podem servir como um dos instrumentos de distanciamento reflexivo da realidade em que os moradores estão concretamente imersos, estimulando-os a pensarem sobre as suas próprias ações no meio em que vivem. Assim como carregam o potencial de valorizar a sabedoria que está embutida no senso comum, evidenciando também
a necessidade de buscar outras informações que se complementam e fazem crescer o padrão de conhecimento do assentamento.
Como já foi dito, os povos do campo têm hábitos de utilização do rádio como meio de comunicação, mas como veículo de mensagem de mão única, só recepção. A mensagem é transmitida de fora pra dentro. O trabalho da radioescola tende a inverter essa posição e fomenta a produção da comunicação, em que as pessoas do assentamento experimentam expressar as suas falas e escutarem as vozes dos seus vizinhos e as suas próprias.
A possibilidade de expressão em um meio de comunicação que tem potencial pra ser escutado por muitas pessoas ao mesmo tempo pode ser um instrumento de emancipação e um canal de expressão das demandas sociais que tendem a ficar camufladas. A rádio não dá voz às pessoas porque isso elas já têm pela sua condição humana. O trecho escrito dessa moradora complementa esse comentário:
Observamos que a comunidade escolar e o assentamento a partir da inserção da rádio ganharam mais um espaço para difundir suas vozes. Passou a experimentar a possibilidade de falar para além da esfera privada, de desenvolver um trabalho comunitário especialmente quando se é um assentamento tão lutador como o nosso que passou a ser não só apenas um aglomerado de casa, mas também um espaço que pode vislumbrar a construção de um “outro campo possível” e, sobretudo, necessário, se aproximando da idéia de que alguns defendem que é possível viver e ser feliz no campo. (FERNANDES, 2009, p. 57)
O que ocorre é que essa voz passa a fazer diferença, a ser escutada, a ser comentada, inclusive podendo alterar, ou reforçar, as relações de poder dentro de uma comunidade específica, como é o caso do Assentamento Santana.