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As informações resultantes de depoimentos de produtores e ouvintes foram cruzadas para verificar se a radioescola implantada em Santana segue essas sugestões. A presença da rádio se naturalizou no cotidiano como um meio de comunicação que transmite as suas vivências de maneira mais abrangente. Eles já tinham o hábito de discutir e tomar decisões por meio dos Núcleos de Base45. A rádio contribuiu para dar publicidade a essas discussões e decisões.

A Rádio Cultura é traduzida pelos seus produtores e pela comunidade em geral como um espaço “democrático e democratizante”. Como se pode ler nesse depoimento de um deles.

Não... a gente tinha total liberdade...ate porque eu fiz parte da coordenação, a gente sempre discutia isso...mas a gente em si, na nossa formação mesmo, no nosso conceito de radioescola a gente já tinha uma ideologia formada sobre o que a gente ia veicular na rádio...pra gente não tá fugindo da função da radioescola... da contribuição na informação, da contribuição na educação... a gente não tinha uma visão pra que ela virasse uma rádio comercial. Então a gente não privatizava a questão do espaço... ou seja, o branco, o preto, o rico, o pobre, o da cidade vizinha, o do município vizinho, qualquer pessoa que vinha, podia participar da programação da rádio. (Entrevistado 13)

Essa professora explica como entende esse espaço democrático, no sentido de aceitar opiniões divergentes. Pelas participações que tive em reuniões desses grupos de educadores, considero que sua fala é representativa do que observei. As pessoas, reunidas, fazem um esforço para acolher a diversidade de assuntos que existem no interior das relações entre os assentados.

45 Os Núcleos de Base, segundo depoimento dos assentados de Santana, são a base organizativa do movimento. São constituídos entre as famílias da comunidade e, através dos mesmos, é organizada a divisão das tarefas necessárias para garantir a vida diária, além da promoção das discussões e estudos necessários para tomar as decisões sobre os próximos passos da luta. Os responsáveis pelas diversas tarefas compõem as equipes de trabalho e se reúnem sistematicamente para planejar e avaliar suas atividades. Há uma coordenação geral do assentamento que tem como responsabilidade principal dar unidade à atuação de todas as equipes e encaminhar o processo de negociação e de relacionamento com o conjunto da sociedade local e mais ampla. O fórum é a instância máximo de tomada das decisões sobe os rumos do assentamento.

A rádio, ela tem que tá com essa interatividade com a educação e a comunidade... todos fazendo parte. Ela não ser pode tão específica.. não!! ela só pode tratar de assunto X e esse outro assunto não deveria? Não. Ela tem que ser ampla, ser planejada com o núcleo gestor... nós educadores nos planejamentos. Como nós vamos utilizar? Quando será o dia? O que nós vamos utilizar na rádio? A divulgação até nos nossos produtos da comunidade o que temos pra vender, o que temos de melhor... tudo isso. (Entrevistada 7)

No entanto, essa abertura tem limites que são minimizados nos discursos. Por meio da observação e convivência, elegi duas temáticas que eu considero centrais nesse cotidiano: a religiosidade e a política. São assuntos que vêm sendo gestados desde a concepção do assentamento e fortalecidos pelas interferências externas, já explicitadas no terceiro capítulo: Dom Fragoso pregava a religião católica, de cunho mais libertador. A Comissão Pastoral da Terra - CPT46 foi, segundo seus moradores, uma presença marcante e também traz uma concepção de política, de cunho mais popular, cujo discurso é voltado para a religião católica. Prega também a libertação dos povos, mas não deixa de ser uma concepção específica, sujeita a críticas. O grupo mais atuante do assentamento que envolve a cooperativa, uma parte dos educadores e estudantes acolhe essas duas vertentes político-religiosas, mas existem pessoas que não compartilham dessas idéias. Um caso emblemático citado na pesquisa foi o de um grupo religioso, evangélico, que veio ao assentamento solicitar um espaço na rádio para expressar, sob os seus pontos de vista, “a palavra de Deus”. Essa mesma professora nos conta que se sentiram no dever de aceitar essa enunciação de falas e opiniões. Aqui ela fala do tempo que um programa de cunho “evangélico” era colocado no ar, ao vivo.

Religiosidade... aquilo ali ainda continuou. Foram feitos programas... aí começou... o pessoal da comunidade fez uma reflexão... se deveria mesmo abrir esse canal, se tinha que pensar melhor... era um pessoal de fora, mas tinha gente que gostava... mas era pouquíssimo. Mas elas participavam da programação, fazia aos domingos... (Entrevistada 7)

Eu participei dessa discussão, que ocorreu em meados de 2007. Os grupos de produção da rádio fizeram um esforço e acolheram um programa evangélico dentro do assentamento porque queriam manter a coerência sobre a democracia da Rádio Cultura. O programa evangélico foi ao ar, no contexto em que a fala da professora denota. Houve a aceitação com receio, com reservas, com o objetivo de manter a sintonia entre o discurso e a

46 A Comissão Pastoral da Terra (CPT) nasceu em junho de 1975, durante o Encontro de Pastoral da Amazônia, convocado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e realizado em Goiânia (GO). Inicialmente a CPT desenvolveu junto aos trabalhadores e trabalhadoras da terra um serviço pastoral

prática. O que eu problematizo é a primazia da religião católica, cujos ensinamentos são trazidos para a programação sem suscitar discussão de validade ou não. Embora o catolicismo seja uma opção da maioria, pelo que é relatado pelos entrevistados, existem pessoas no lugar que não partilham de tais concepções e crenças religiosas. Esses dois depoimentos de duas ouvintes da Rádio Cultura simbolizam a inserção da religião católica na programação.

Ai é muito bom! Ela vai trazer mais incentivo pra os cuidados ... da organização, da comunicação... da religião... tem pessoas que são mais acomodadas, não pegam nenhuma Bíblia pra fazer o estudo bíblico em casa... o evangelho do dia não lê. E você tando lá, você tá anunciando, você tá mostrando... que pra gente ser discípulo, ser evangelizado tem que tá lendo a bíblia todos os dias, fazendo a oração na família, compreendendo esse processo e também na comunicação na comunidade..e pra todo programa...educativo, da escola... ajuda!!! (Entrevistada 4)

Participei..fui lá..fizemos uma oração... e eu dava entrevista...e ia falar na radio... a romaria da terra que a gente foi em Iguatu..antes de ir a gente convidava o povo, mostrava o sentido das romarias...e que todo mundo que quisesse ir...e é muito importante... para uma comunidade é uma vitória. (Entrevistada 18)

As discussões sobre comunicação, sobre recepção crítica, ainda na época em que as oficinas estavam sendo ministradas, em 2007, geraram uma alteração na rotina do assentamento, mobilizada pelos estudantes.

Vale a pena, para ilustrarmos esse processo, destacar que nesse período existia uma lanchonete Pouso da Águia (um bar) na comunidade que funcionava diariamente com todos os tipos de bebida alcoólica e tocava qualquer tipo de música. Era o principal espaço de lazer dos estudantes e das famílias onde as mesmas se encontravam. Com o trabalho de formação dos educomunicadores e do acesso a outras formas de expressão musical houve uma mudança das escolhas das músicas do bar. Outro processo foi a percepção de que precisaríamos transformar aquele espaço, do bar, em um ambiente educativo, isto porque se passou a entender que todos os espaços do assentamento são ambientes de aprendizagem. Começamos a fazer uma reflexão na coordenação do assentamento sobre o tipo de música que estava tocando na lanchonete Pouso da Águia. (FERREIRA, 2009, p. 62)

Essa mesma estudante explica, em sua monografia, esse acontecimento que problematizou hábitos a partir da discussão da música como portadora de mensagem. A discussão a que a jovem assentada se refere se deu a partir do desenvolvimento da técnica de

“discodebate” ou “discofórum” 47 em que uma música é tocada e um grupo tece comentários sobre a compreensão que cada um tem sobre a mensagem que a música veicula. É que afirma, dessa vez, por meio de um relato oral em que fala das alterações geradas nas práticas pedagógicas do assentamento.

Renovou muito as praticas pedagógicas ...o discodebate é um ótimo recurso para discutir a própria música. O radio documentário também... as enquetes, as notícia. Essas técnicas foram pra sala de aula...e usam, né? Não precisa ir pro estúdio pra usar essas técnicas... na sala de aula mesmo eles podem tá utilizando. A gente desenvolve um projeto que uma das modalidades é algumas técnicas de rádio. Porque a gente oportuniza outras pessoas que não participaram da formação a conhecer as técnicas e a produzir também. (Entrevistada 16)

Esses exercícios tinham o objetivo de instrumentalizar os jovens a estabelecerem seus próprios critérios para a seleção musical que a rádio manteria, sem atuar apenas com proibição e censura. ”Essa problemática foi enfrentada em outras reuniões com a coordenação do assentamento e após várias discussões foi levantada a proposta de eliminar a venda de bebidas alcoólicas no assentamento. (FERNANDES, 2009, p. 61). Essa proposta foi discutida nos Núcleos de Base do assentamento. De acordo com a autora, foi decidido, por unanimidade, a erradicação da venda de bebidas no assentamento.

Esse caso simboliza o potencial educativo que a comunicação popular pode alcançar. No entanto, compreendo que um instrumento como o rádio, mesmo com um arsenal tecnológico se comparado às rádios comerciais ou mesmo comunitárias, como é o caso da Rádio Cultura de Santana, quando assume um lugar de reconhecimento como um meio de comunicação que atinge a comunidade como um todo, traz para esse coletivo sua carga potencial positiva e negativa. A formação ministrada pela ONG tem como uma de suas metas o incentivo aos grupos, a buscarem a participação de todos e a valorizarem todas as falas e opiniões. Sugere-se que o poder que a rádio concentra seja compartilhado com os ouvintes e que a gestão do meio de comunicação seja democrático.