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Kapittel 3: teori

3.2 Kapitalbinding og lagerkapasitet

3.2.2 Omløpshastighet

Nesta seção, nossa atenção estará voltada aos níveis de realização lingüística, conceitos estes apresentados na Enciclopédia EINAUDI, relativamente ao verbete que trata da enunciação (DUCROT, 1984), e no livro Polifonía y Argumentación (DUCROT, 1990).

Em Ducrot (1984), a definição de realização lingüística é apresentada com três sentidos possíveis. No primeiro, a realização lingüística é o enunciado ou o discurso, o produto da enunciação. É “uma seqüência sonora (ou gráfica) que apareceu em tal ponto do espaço e do tempo, objeto físico de tipo particular, que pode ser registrado por meio de aparelhos de observação acústica (ou gráfica)” (DUCROT, 1984, p. 368). No segundo sentido, a realização lingüística é o acontecimento da enunciação, o momento em que o enunciado é produzido, o fato de terem sido emitidas seqüências de sons. No terceiro sentido, a realização lingüística é o processo de produção da atividade lingüística cujo produto é a palavra. É a atividade psicofisiológica realizada pelo locutor e que tem como produto o enunciado/discurso. Ao longo do desenvolvimento da Teoria da Argumentação na

Língua, o autor irá estudar o produto da enunciação, que é a realização lingüística definida no primeiro sentido.

Assim concebida, a realização lingüística pode ser de dois níveis: nível elementar e nível complexo. As unidades lingüísticas de nível elementar são a frase e o enunciado, as de nível complexo são o texto e o discurso. Distinguem-se, ainda, as unidades abstratas, que são a frase e o texto, das unidades concretas, que são o enunciado e o discurso.

2.1.1 A frase e o enunciado

Conforme Ducrot (1984), a frase e o enunciado constituem o material lingüístico de que o locutor se serve para produzir linguagem. A frase tem a propriedade de fornecer instruções que levam a descobrir aquilo a que o enunciado se refere. O enunciado tem a propriedade de fazer referência a objetos, estados ou acontecimentos do mundo real ou imaginário. Vejamos o exemplo:

(1) Ontem encontrei o Pedro no cinema.

Nessa frase há instruções que levam a buscar o sentido no enunciado. Há referência ao encontro com Pedro, num determinado lugar, cinema, e num tempo anterior ao momento em que a frase é produzida, ontem.

Frase e enunciado também se distinguem pelas intenções dos interlocutores. Tais intenções são alusões não decifráveis diretamente a partir da frase, mas essenciais para a compreensão do enunciado. É o caso do uso da conjunção mas, no seguinte enunciado:

Nessa frase, a conjunção mas introduz uma conclusão diferente da que se supunha possível a partir do argumento. Poderíamos ter:

(2a) Ele trabalhou muito na vida, portanto ficou rico.

Usando o mas, o locutor dá a entender que seu interlocutor concluiria portanto ficou rico e pede ao interlocutor que não tire essa conclusão. Cumpre-nos observar que o critério da intenção do locutor, adotado por Ducrot (1984), para estabelecer a diferença entre frase e enunciado, foi abandonado nas formas posteriores da teoria.

Conforme a primeira conferência do livro publicado em 1990, obra em que Ducrot apresenta a segunda forma da TAL, as definições de frase e enunciado não são muito diferentes das anteriores:

Suponhamos que alguém diga três vezes seguidas faz bom tempo. Direi que neste caso temos três enunciados sucessivos de uma única frase [...]. Isto significa que o enunciado é, para mim, uma das múltiplas realizações possíveis de uma frase. Disso resulta que o enunciado é uma realidade empírica, é o que podemos observar quando escutamos as pessoas falarem. A frase pelo contrário é uma entidade teórica. É uma construção do lingüista que lhe serve para explicar a infinidade de enunciados. Isto significa que a frase é algo que não pode ser observado: não ouvimos, não vemos frases. Somente vemos e ouvimos enunciados. (DUCROT, 1990, p. 53)13

Observa-se que a frase é uma entidade teórica, lingüística, construída pelo lingüista (digamos abstrata). O enunciado é a realização da frase, é a realidade empírica, observável (digamos concreta).

2.1.2 O texto e o discurso

Conforme Ducrot (1984), texto e discurso, unidades lingüísticas de nível complexo, diferenciam-se de frase e enunciado, unidades lingüísticas de nível elementar, pelo ato de enunciação. O autor ensina que:

a realização de uma seqüência de signos constitui um só enunciado quando implica, da parte do locutor, um só acto de enunciação. Contém vários, pelo contrário, quando é possível dividi-la em segmentos implicando cada um, durante a enunciação, um investimento particular. (DUCROT, 1984, p. 373).

As unidades de nível complexo são compostas por frases/enunciados sucessivos cada um dos quais reflete investimento particular. No entanto, para que uma seqüência de enunciados constitua um discurso deve atender à condição de “que os actos de enunciação sucessivos não sejam acontecimentos independentes, mas se apóiem uns nos outros” (DUCROT, 1984, p. 373). A simples sucessão de dois enunciados não é condição única para formar o discurso. É preciso que um enunciado faça alusão ao precedente, o que é chamado por Bally (apud DUCROT, 1984) de relação de coordenação, em que o primeiro enunciado serve de tema ao seguinte.

Da mesma forma, para que um texto seja considerado um texto, e não uma simples seqüência de frases, é preciso que a realização dessa seqüência dê lugar à realização de um discurso. Nesse caso, as conjunções de coordenação e de subordinação, alguns advérbios, e até mesmo sinais de pontuação, constituem marcas do discurso no texto. De outro lado, é possível estabelecer, com um pouco de imaginação, uma relação semântica entre enunciados de duas frases, por mais díspares que elas possam parecer. Dessa forma, qualquer seqüência de frases pode constituir um texto.

Em seu livro Polifonía y argumentación (1990), Ducrot não retoma especificamente os conceitos de texto e discurso, uma vez que sua teoria se propõe

a analisar o enunciado. Mas, por algumas observações feitas na obra, pode-se deduzir que os conceitos de texto e discurso permanecem muito próximos dos conceitos apresentados por Ducrot (1984), conforme destacamos a seguir:

“Em minha opinião todo discurso está constituído por uma sucessão de enunciados. Se tenho um discurso D, este pode fragmentar-se nos enunciados e1, e2, e3, etc, e cada um desses enunciados é a

realização de uma frase.” (DUCROT, 1990, p. 53).

Nessa mesma obra, o autor expõe o problema da segmentação do discurso em enunciados, apresentando uma regra que ele próprio considera insuficiente para tal fragmentação. Se num discurso temos dois segmentos sucessivos S1 e S2, e, se

S1 tem sentido somente a partir do S2, então a seqüência S1 + S2 forma um único

enunciado. Uma vez que o primeiro segmento tem sentido somente a partir do segundo, e isso constitui um discurso, percebe-se a concepção de discurso como uma rede de relações que constituem um sentido. Além disso, parece que o enunciado, visto anteriormente como entidade lingüística de nível elementar, pode dar lugar à realização de um discurso.

Em algumas partes dessa obra, Ducrot explica que um discurso argumentativo é composto por um argumento e uma conclusão, ligados pelo conector donc (portanto). Diante dessa utilização do termo discurso, que difere da utilização feita até então, adotaremos no presente trabalho, a concepção de discurso apresentada por Ducrot (1984).