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Omgruppert og justert regnskap og balanse

Kapittel 5 – Regnskapsanalyse

5.5 Omgruppert og justert regnskap og balanse

Cena do documentário em forma de filme, A opção ou as rosas na estrada de Ozualdo Candeias onde é mostrada, entre outras situações, a condição de transporte de trabalhadores canavieiros na década de 1980 nas cidades do interior paulista.

273 O conceito de indicialidade em ciências sociais resulta da transposição da lingüística, em sua análise

sobre a palavra escrita e oral, para as situações sociais. Nos estudos etnometodológicos, segundo Coulon (1995, p.34), “[...] quer dizer todas as formas simbólicas, como os enunciados, os gestos, as regras, as ações, [todas essas práticas sociais] comportam ‘uma’ margem de incompletude [...]”. Ganham sentido somente quando indexadas em uma situação de intercâmbio linguístico da vida de todos os dias, nesse aspecto, o significado das expressões passa a ter significação, a partir do contexto e de seu

conhecimento local. A indicialidade é, assim, essa incompletude que toda palavra possui e que só passa a ter “sentido completo” no contexto de sua produção. Do mesmo modo, ainda conforme

Coulon (1995, p. 35): ”As situações sociais, aquelas que fazem a vida de todos os dias, têm uma interminável indicialidade, e o sociólogo se acha diante de uma ‘tarefa infinita de substituição por expressões objetivas das expressões indiciais’”. (grifos nossos)

274

A interação se apresenta como um conceito de uso inicial empregado pelas ciências naturais e ciências da vida, mas passou a ser adotado pelas ciências humanas, sob o princípio da idéia de reciprocidade, a partir da metade do século XX, assim como as suas variações: correspondência mútua, encontro face a face (COSNIER, 2006; GOFFMAN,1992). A interação social, como observa Scheneider (1996), é o comportamento inter-relacionado de indivíduos que influenciam uns aos outros pela comunicação; concepção presente nas teorias do intercâmbio social em face das questões acerca do custo e das recompensas e do interacionismo simbólico, este último, fundamentando-se na idéia de que os indivíduos se comportam a partir das modificações dos significados provindos das próprias práticas interativas.

Sobre os agravos à saúde enquanto experiência social negativa, em meio à

interlocução dos meus informantes, surgiu, naquela ocasião, a seguinte questão:

Dona Olívia - Aquela vez que você andava com o corpo duro com a coluna, você tava na Vila Leal, né? Quase que você morreu lá fia, hein? Ela andava com o corpo duro fio – [a] coluna também.

Donizeti - De trabalho?

Maria - É de hoje que eu trabalho!

Dona Olivia - Sarou, hein Dona Maria? Sarô? Dona Maria – Sarô? Eu tava arregaçada esses dia. Dona Olivia - Ela tava com o corpo duro assim oh!

Dona Maria – Trabalhei segunda-feira, segunda não, quinta-feira [passada] trabalhei o dia inteiro... . É com problema de estômago, trabalhei cedo; sábado trabalhei até [as] duas horas só - o meu estômago cresceu. E agora que melhorou me atacou a escadeira.

Donizeti - A senhora não foi ao médico?

Dona Maria - [O posto de saúde] marca só sexta-feira. Só sexta que é marcado aqui. A semana que vem ainda [que vou passar por consulta]. Eu fui ontem lá, fui hoje, [mas] é só sexta que marca.

Donizeti - Para marcar consulta, [quer dizer] não é nem para passar pelo médico?

Dona Maria – Não é nem para passar. É prá marcar na sexta-feira, [e] passar na semana que vem. E nessa altura [...], se marcam prá outra turma tem uma remessa que passa segunda. Uma remessa que passa na terça. Então nóis vamo passá de quarta-feira prá lá.

Donizeti - Nessa vez que a senhora ficou ruim da coluna, foi o quê? Dona Maria: Foi muito esforço de trabalho mesmo.

Donizeti: A senhora estava trabalhando no que nessa época?

Dona Maria: Nessa época eu tava trabalhando era de carpir - carpindo cana.

Antes de, propriamente, tomar o repertório do trecho acima como objeto de

interpretação, é preciso dizer que o rumo dessa conversa em direção à enunciação dos

agravos relacionados à saúde seguiu como um desdobramento automático da

proposição inicial em que solicitei à trabalhadora canavieira que me relatasse a sua

história de vida e que diante das questões dos ex-vizinhos, permite perceber,

independente de sua vontade, o quanto sua experiência de vida era percebida e

compartilhada com o outro.

Como uma das práticas sociais cotidianas mais comuns, a conversação é a

primeira das formas de linguagem em que estamos expostos e provavelmente, segundo

Marcuschi (2003), a única de que nunca abriríamos mão, pois é através dela que o “laço

social” se faz, seja ele conflituoso ou cooperativo entre dois ou mais atores sociais.

Marcushi (2003, p. 15) observa ainda que:

Iniciar uma interação significa, num primeiro momento, abrir-se para um evento cujas expectativas mútuas serão montadas. Em certos casos há alguém que inicia com um objetivo definido em questão de tema a tratar e então supõe que o outro esteja de acordo para o tratamento daquele tema, o que indica que além do tema em mente ele tem também uma pressuposição básica, que é a

aceitação do tema pelo outro. Iniciada a interação, os participantes devem agir com atenção tanto para o fato linguístico como para os paralinguísticos, como os gestos, os olhares, os movimentos do corpo, e outros.

O tema acerca dos agravos à saúde, introduzido pela ex-vizinha, oferece a

oportunidade de interpretar a enunciação da experiência do sofrimento físico e mental

em face da carga de trabalho sobre o corpo, assim como as questões acerca da queixa

em relação ao processo saúde-doença e o acesso ao sistema de saúde em um bairro,

cuja maior parte dos trabalhadores está direta e indiretamente vinculada à produção

agrocanavieira.

Do ponto de vista dos repertórios contidos no trecho desse diálogo, o que se

verifica é que os temas: trabalho-desgaste do corpo e a restituição da saúde, embora

inter-relacionados, necessitam ser apresentados em separado para que se possa

resgatar a ideia do sofrimento enquanto fenômeno social produzido a partir das

condições e situações da experiência individual

275

e pessoal da trabalhadora canavieira.

Ainda sobre essa questão, Coulon (1995), ao se reportar a Schutz, em face do

conceito de reciprocidade de expectativas, aponta para a questão clássica em torno da

relação entre indivíduo e coletivo, assim como entre singularidade e particularidade

quando se busca interpretar a biografia dos atores sociais.

Diz Coulon (1995, p.12-13):

Os homens nunca têm, seja lá no que for experiências idênticas, mas supõem que elas sejam idênticas, fazem como se fossem idênticas, para todos os fins práticos. A experiência subjetiva de um indivíduo é inacessível a outro indivíduo. Os próprios atores ordinários, que no entanto não são filósofos, sabem que não vêem jamais os mesmos objetos [...]. Ninguém vê a mesma coisa, quando vai assistir a uma partida de futebol, quer esteja sentado nas tribunas centrais quer nas arquibancadas [...]. No entanto estarão todos de acordo em dizer que todos os espectadores acompanharam a mesma partida. Em princípio, o fato de os atores não verem a mesma coisa deveria impedir toda possibilidade de um real intersubjetivo. Este, porém, não é o caso graças a duas ‘idealizações’ [...] trocas de pontos de vista [...] e da conformidade do sistema de pertinência de outra parte [...].

No caso do trecho da interlocução apresentada, a relação trabalho-desgaste do

corpo e a restituição da saúde – como categorias temáticas – sobrepõem-se em face da

275 Como observa Velho (2003), o indivíduo em sua singularidade deve ser percebido enquanto sujeito das

ações sociais, pois o significado dessas ações se dá a partir de redes sociais. A referência a essa perspectiva, cuja referência pode ser encontrada em Weber e Simmel, mas também em Mead, tendo-se em conta a concepção de self, isto é, o ver a si mesmo a partir do ponto de vista do outro ou dos outros, algo de fundamental importância para se entender a concepção de reflexividade e o significado enquanto produto da interação social.

enunciação e do seu enunciado na vida social cotidiana da trabalhadora canavieira, quer

dizer, a enunciação do repertório contido no diálogo permite observar o emprego e a

produção do sentido tanto ao nível da compreensão da frase, como a interpretação de

seu enunciado a partir da sua ação.

Pode-se mesmo dizer que o trabalho, como desgaste da saúde do corpo, permite

dar entendimento à condição identitária na vida de todos os dias. Na frase da

trabalhadora: “É de hoje que eu trabalho”, quando perguntada sobre a origem do agravo

à saúde, o sentido da palavra trabalho, em face do contexto em que é enunciado, além

de possibilitar a identificação biográfica, o vocábulo em sua indicialidade, propõe a sua

associação ao sofrimento

276

como condição de experiência rotineira.

Dona Olivia - Sarou, hein Dona Maria? Sarô? Dona Maria – Sarô? Eu tava arregaçada esses dia.

Falar sobre os agravos à saúde ou sofrimento, como anota Dejours (1991), é algo

que se apresenta aos trabalhadores sob a ordem da reticência, pois, quando se está

doente entre os estratos das classes trabalhadoras – o subproletarido em específico – é

comum se evitar, até mesmo, a pronúncia sobre tal estado, pois afastar-se do trabalho

para tratar da saúde corresponde ao sentimento coletivo de vergonha

277

.

O sarar é, antes de tudo, o não sofrer. No caso do diálogo mantido, para espanto

da trabalhadora diante da insistência da pergunta sobre o seu estado de sua saúde, o

sarar apresenta-se quase que como uma ofensa. Em forma de desabafo e de

questionamento, pergunta-se Dona Maria para, em seguida, ela mesma responder:

“Sarô? Eu tava toda arregaçada esses dia”. Em outras palavras, a convivência com o

agravo à saúde e a domesticação da dor – em oposição àquele que se encontra no

regaço – corresponde a um continuum.

276 De acordo com Abbagnano (2007), a palavra trabalho, em suas diferentes grafias (Grego – εργασία;

Latim – labour; Inglês – labor; Francês – travail; Italiano – lavoro) corresponde à atividade, cujo fim corresponde ao uso das coisas naturais, ou então, a sua mudança com a dinalidade de satisfazer as necessidades humanas. Dentre as implicações que permitem dar entendimento ao conceito de trabalho se encontram: 1) a dependência do homem em relação à natureza; 2) a reação do homem em face desta dependência; 3) e o grau de esforço dispensado para superá-la, isto é, o sofrimento, a fadiga. Este último, em seus efeitos, foi condenado pela filosofia antiga e medieval; a Bíblia, inclusive, o via como uma maldição.

277 A vergonha, como observa Sheff (2011), corresponde à emoção dominante e onipresente na

experiência humana e, enquanto força motriz da vida moral, ela é a reguladora das demais emoções, contudo, o que chama a atenção em relação a tal interpretação sobre a vergonha é que, do ponto de vista das relações sociais, essa emoção se apresenta como um sinal de ameaça entre aqueles que necessitam estar conectados uns com os outros tanto quanto precisam de ar para respirar. A conexidade pode ser considerada uma espécie de oxigênio social.

Outro aspecto a ser destacado é que a reflexividade parece acompanhar aquele

que descobre o corpo a partir da dor e, por isso, como retrata Chammé (1991, p.19),

“quando nada se possui, possui ao menos a si mesmo... ao seu próprio corpo”, muito

embora, a restituição da saúde do corpo, a partir da queixa ou da poliqueixa, apontar

para perspectivas distintas, ainda que complementares.

Assim, conforme Dejours, para o subproletariado, a procura pelo serviço de saúde

se dá em último caso e quando a dor se torna algo impossível de se conviver. Mas para

logo descobrir estando na presença do profissional médico que essa acabou de passar,

para Chammé, tanto os doentes das classes trabalhadoras como aqueles provindos das

classes dominantes – sob a ordem das múltiplas queixas – achar-se-iam insatisfeitos e,

por isso, aptos a darem continuidade as suas lamentações.

Para esses autores (Dejours e Chammé), a angústia e a ansiedade correspondem

ao estado afetivo patológico capaz de permitir a compreensão das representações dos

distintos segmentos sociais. Na perspectiva de Dejours, a ansiedade se apresenta ao

subproletariado como algo que deve ser contido, senão negado – uma “ideologia

defensiva” contra o que possa lembrar a doença e a destruição do corpo enquanto força

capaz de produzir trabalho.

Ao contrário desse teórico, Chammé observa que a procura pelos serviços

públicos e privados de saúde, em face da angústia pela busca do “desejado”, nas mais

diferentes traduções, faz-se presente tanto entre os “indivíduos de qualidade de vida

superior” como entre aqueles que se encontram limitados a terem, no serviço público de

saúde, o único meio e bem de que dispõem.

Os atores sociais de “qualidade de vida inferior”, independente de pertencerem ao

subproletariado em suas queixas e enquanto usuários do Serviço de saúde pública, ou

do sistema privado, cumpririam o que Chammé denomina como ritual de busca e

retomada do poder do corpo.

Observe-se o seguinte diálogo:

Dona Maria – Trabalhei segunda-feira, segunda não, quinta-feira [passada] trabalhei o dia inteiro... . É com problema de estômago, trabalhei cedo; sábado trabalhei até [as] duas horas só - o meu estômago cresceu. E agora que melhorou me atacou a escadeira.

Donizeti - A senhora não foi ao médico?

Dona Maria - [O posto de saúde] marca só sexta-feira. Só sexta que é marcado aqui. A semana que vem ainda [que vou passar por consulta]. Eu fui ontem lá, fui hoje, [mas] é só sexta que marca.

Donizeti - Para marcar consulta, [quer dizer] não é nem para passar pelo médico?

Dona Maria – Não é nem para passar. É prá marcar na sexta-feira, [e] passar na semana que vem. E nessa altura [...], se marcam prá outra turma tem uma remessa que passa segunda. Uma remessa que passa na terça. Então nóis vamo passá de quarta-feira prá lá.

Sob esse aspecto, o significado de corpo para aqueles que se ocupam de um

trabalho típico feito anteriormente por escravos, logo não reconhecido socialmente em

face da ordem dos antigos e novos processos de trabalho, torna ainda mais plausível,

em nossos dias, a proposição de Dejours em relação à ideia de que, em sua condição

subproletária, para serem aceitos, os trabalhadores canavieiros devem falar o menos

possível sobre o seu estado de saúde, pois se exige o “silêncio dos seus órgãos”,

contudo, deixar de falar não significa deixar de manifestar ou comunicar a produção de

sentidos e a percepção do corpo.

Nesse sentido, ao que tudo indica, pelo relato da trabalhadora canavieira ao

descrever a realidade por ela vivida, em sua busca pela restituição da saúde do corpo

em que as dificuldades e a experiência da falta se fazem tão presentes, o silêncio que

envolve as questões da saúde e da doença desses trabalhadores, parece-me estar

relacionado ao sofrimento social como resultado do poder político, econômico e

institucional, ou seja, o trabalho típico feito anteriormente por escravos e o abrigo na

favela como um espaço outro em termos de definição da hierarquia das relações de

dominação ao se perfazerem como invisibilização e silenciamento.

Em sua pesquisa sobre o poliqueixoso, embora não estabeleça qualquer relação

entre o trabalho e o processo saúde-doença, Chammé (1991) observa que o sujeito

doente não apresenta características clínicas que permitiriam diagnosticar

organicamente a sua queixa. Assim, esses sujeitos, em suas buscas por especialidades

na passagem pelo Sistema de saúde, encontrar-se-iam de posse de discursos cada vez

mais elaborados sobre a representação e narrativa sobre o corpo.

No caso desta pesquisa, ao que tudo indica, a interpretação de Dejours (1991, p.

35): “O calar sobre a doença e o sofrimento [...], de maneira coerente, a recusar os

cuidados, a evitar as consultas médicas e a temer as hospitalizações”, assim como a

rotina da procura pela cura perpassariam, antes de tudo, pela experiência da dificuldade

de acesso ao Serviço público de saúde, não chegando os trabalhadores canavieiros a

terem, nem mesmo, a oportunidade da procura pelos serviços básicos de uma unidade

de saúde e, muito menos, acesso a profissionais que atuam em questões diretamente

relacionadas com agravos à saúde do trabalhador.

Disse-me uma ex-estudante de enfermagem, ao se reportar a sua experiência

enquanto estágiaria no Posto de Saúde do jardim Porto Belo:

Donizeti: Você observava na unidade de saúde a condição dos trabalhadores do corte de cana...?

Tatiane: Vindo direto do trabalho [para passar pelo serviço de saúde]? Sim. Donizeti: Como de dava essa situação Tatiane?

Tatiane: Era aquela questão de chegar realmente sujo. Porque tava dentro da terra, suado, às vezes com fome. Porque já tinha passado o horário do almoço, [...] era um atendimento como os outros: [tal como] o da dona de casa que ia marcar consulta prá passá no ginecologista, ou levá [uma] criança prá tomá vacina, alguma coisa assim.

Donizeti: Então, eram mais as mulheres trabalhadoras que, propriamente, os homens...?

Tatiane: Sempre são mais as mulheres. Donizeti: Por quê?

Tatiane: Eu não sei, mas eu acho que é aquela questão dos homens não se cuidarem muito [...]. Porque geralmente eles só vão quando estão mal. O que acontecia quando esses cortadores de cana iam [procurar pelo serviço]? Ou porque já tinham tido algum ferimento grave. E, na maioria das vezes, já iam pro [serviço de] pronto socorro [da Santa Casa de Jacarezinho], então, por isso que a gente não [os] via muito. Então iam ali [na unidade] quando tava acabando de chegá [do talhão de cana e o] ônibus parava próximo. [Eles] iam prá vê se tinha como fazê curativo, ou se era alguma coisa mais grave e [por isso] tinha que fazê sutura [e então] tinha que vim pro pronto socorro. Mas a maioria é mulher [que procurava pelo serviço de saúde]

Donizeti: No caso da mulher canavieira, a possibilidade de passar pelo serviço só se dá depois das 5 da tarde?

Tatiane: Às vezes eles chegam antes como, por exemplo, eles vão muito cedo para o trabalho, então, lá pras 4 horas da tarde os trabalhadores estão parando. Como disse antes, tinha uma enfermeira muito querida por eles [...].

Quando [eu] tava prá terminá [o] meu estágio, [ouvi dizer que] ia mudá a enfermeira [...]. Então já se começou a perceber a revolta das pessoas que falavam assim: “mas eu não queria que você saísse” [...] “Mas por que você vai saí”? Porque a gente percebe que tudo tem burocracia, mas ela facilitava muitas coisas. Então, por exemplo, uma pessoa que chegava e tinha perdido uma

consulta que era o um caso urgente [e] que não tinha como resolvê, [pois] não ia tê vaga prá sê atendido, ou às vezes a febre de uma criança [...]. Ela

não era médica prá atendê, mas como ela sabia que tinha uma Dipirona que podia ser dada. Ela mesma conversava e facilitava. Às vezes o ponto de uma [cirurgia] cesariana, eu presenciei casos em que, a maioria das vezes, a mulher [que sofreu com esse procedimento] tinha que vim até o médico para que então fosse retirado, porque às vezes tinha algum ponto inflamado. Prá facilitar, ela [mesma] ia na casa, prá comodidade da mulher [e retirava os pontos], ela facilitava. Coisas que percebi no período em que ela estava de folga, ou que não ia [ao trabalho] e que vinha outro enfermeiro, situações que [esse] poderia fazer e facilitá prá comunidade, ele não [o] fazia. Ele se mantinha naquela parte burocrática: “hoje eu não tenho mais agendamento”. “Hoje eu não atendo

mais” [...]. Só que as mulheres não procuram muito o atendimento não [e], até mesmo, o [exame] ginecológico, o preventivo. Elas não procuram [o serviço de saúde] e [só iam] procurá o médico quando estava muito mal, por exemplo, uma gripe [que] complica e virava uma pneumonia, ou que tá com alguma coisa que realmente [o] impossibilitava [de trabalhar]. Na maioria das vezes, eles acabam se medicando em casa mesmo [e]

continuam trabalhando com dor, ou as vezes machucado, com vacina antitetânica vencida [...]278. (grifos meus)

O jardim Porto Belo, com quase 14 mil habitantes, é formado tipicamente por

famílias de trabalhadores canavieiros e como se pode observar, a partir dos relatos

registrados, a busca pelos serviços do posto, em termos de saúde do trabalhador

restringe-se – mesmo que possa haver outros agravos – às consequências dos

acidentes típicos ocorridos por se trabalhar nesse tipo de atividade econômica.

Nesse sentido, ainda que às condições de trabalho no corte de cana possam

proporcionar situações que possibilitem a manifestação outrra de agravos, esses

permaneceriam desconhecidos. O que permite pensar que a recusa dos trabalhadores,

pela busca da resolução de danos sofridos no talhão, apresentar-se-ia como um reflexo

das dificuldades em ter acesso aos serviços médicos de especialidades clássicas e do

não oferecimento dos serviços de referência à saúde do trabalhador.

No caso dos dados relacionados a LER e a DORT, a sua subnotificação permite

observar, conforme a tebela 4, o grau de invisibilidade mantida por esses trabalhadores

em face do poder político, econômico e institucional em que se encontram submetidos.

Pois, por mais que as condições e o ritmo de trabalho nos talhões de cana sejam

ajustados em face da quantidadede de peças de canas cortadas em comparação ao

“braço mecânico” das colhedeiras, os possíveis eventos relacionados a agravos nesse

tipo de trabalho permanecem como condições próprias desse ramo produtivo, bem como