Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim... (“João e Maria”, Chico Buarque de Holanda)
Durante o desenrolar da narrativa de “Campo geral”, Miguilim se apega a várias estórias (ou projetos de estórias) para tentar entender o desalento e a inquietação que sempre lhe são presentes. O mundo ao seu redor é, na maior parte do tempo e, em especial, nos momentos de angústia, transformado e reinterpretado pelo seu fecundo poder de criação. No entanto, como exceção para confirmar a regra, Miguilim se identifica com uma estória que não é dele (criada por ele), mas que faz parte de uma tradição oral; o conto de fadas “João e Maria”. A afeição de Miguilim pelo conto vai além da identificação. Como acontece com a canção da Cuca, o conto é uma reafirmação de que ele conseguirá superar suas dificuldades e tormentos. A narrativa assegura que o menino, quando virar homem, ou tiver amadurecido o suficiente, poderá mudar o mundo repleto de injustiças que o cerca. O Conto de Fadas fala diretamente aos medos interiores da criança, não para simplesmente aumentá- los, mas para garantir que, a seu tempo, eles serão superados. Como afirma Bruno Bettelheim:
Os contos de fadas, à diferença de qualquer outra forma de literatura, dirigem a criança para a descoberta de sua identidade e comunicação, e
também sugerem as experiências que são necessárias para desenvolver ainda mais o seu caráter. Os contos de fadas declaram que uma vida compensadora e boa está ao alcance da pessoa apesar da adversidade – mas apenas se ela não se intimidar com as lutas do destino, sem as quais nunca se adquire verdadeira identidade. Estas estórias prometem à criança que, se ela ousar se engajar nesta busca atemorizante, os poderes benevolentes virão em sua ajuda, e ela o conseguirá. As estórias também advertem que os muitos temerosos e de mente medíocre, que não se arriscam a se encontrar, devem se estabelecer numa existência monótona – se um destino pior não recair sobre eles. (BETTELHEIM, 1980:32)
Durante a narrativa de “Campo geral”, Miguilim deve encontrar disposição e coragem para alterar o que, em seu espírito, ele considera que não está certo, desencontrado. Mas, quando castigado e atormentado pela perspectiva (mesmo que ilusória) de uma punição ainda maior, o exílio forçado, Miguilim se remete ao caso dos irmãos abandonados pelos pais:
(...) Mas o pai não devia de dizer que um dia punha ele Miguilim de castigo pior, amarrado em árvore, na beirada do mato. Fizessem isso, ele morria da estrangulação do medo? Do mato de cima do morro, vinha onça. Como o pai podia imaginar judiação, querer amarrar um menino no escuro do mato? Só o pai de Joãozinho mais Maria, na estória, o pai e a mãe levaram eles dois, para desnortear no meio da mata, em distantes, porque não tinham de comer para dar a eles. Miguilim sofria tanta pena, por Joãozinho mais Maria, que voltava a vontade de chorar. (CG: 38)
Não é esta a primeira ou única referência aos Contos de Fadas na obra de Guimarães Rosa. O autor demonstra ter consciência da gênese oral dos contos ao mesmo tempo em que brinca com a estrutura consagrada pelas
versões escritas pelos Grimm, Perrault, Andersen e outros. Desde Sagarana em que, à maneira de Kipling46 e das fábulas, os animais falam sua própria língua, até Ave, palavra, a obra rosiana guarda muitas semelhanças e motivos com esses contos maravilhosos populares. O sertão rosiano é como um reino que, apesar de poder ser localizado como o interior de Minas, possui um encanto e magia particular. Alguns de seus personagens também compartilham esse algo de maravilhoso ou de féerico.
(...) O lirismo rosiano abrange a visão poética da natureza e a ênfase no lado sentimental das personagens. Em certas estórias breves o teor sentimental se entrelaça a uma idealização característica de contos de fada. Entre essas podem ser citados os contos breves “Seqüência” e “Substância”, de Primeiras estórias e “Arroio-das-Antas”, de Tutaméia, verdadeiras filigranas de prosa poética. (...) Nessas estórias, transborda o pendor do escritor para o surpreendente, o ilógico, o sobrenatural, o “milmaravilhoso”. A vida, que é inexplicável, imprevisível, é bafejada, às vezes, por milagres e a crença na possibilidade do milagre alimenta a esperança, justifica o desejo de viver. (MARTINS, 1996:77-8)
Além dos contos citados, podemos destacar mais alguns exemplos. Mesmo não tendo o poder de concretizar desejos, como a Ninhinha (“A menina de lá”), Lélia (“A estória de Lélio e Lina”) pode ser vista como uma fada do sertão47. As curtas estórias de Tutaméia modificam as desgastadas
46 É inegável que Guimarães Rosa foi influenciado pelo o autor d’O livro da jângal (ou
“jungle”). Em entrevista à Revista do Livro (45, Outubro de 2002), sua filha Agnes Guimarães Rosa afirma que seu pai tinha Rudyard Kipling como autor fundamental, que as filhas teriam que “ler, ler e reler” (p. 14). Não seria despropósito uma aproximação estilística entre os dois autores.
47 Ver “Rosalina,a fada do Pinhém” de Nilce Sant’Anna Martins, artigo publicado na revista
fórmulas de abertura e desfecho dos contos: “Conte-se que uma vez” (TU: 91), “Nos tempos que não sei, pode ser até que ele venha ainda a existir” (TU: 140), “Foram infelizes e felizes, misturadamente” (TU: 53). Com “Fita verde no cabelo (velha nova estória)” de Ave, Palavra, Guimarães Rosa utiliza o tema de “Chapeuzinho Vermelho” para contar uma estória em que a Morte, e não o Lobo Mau, é o grande vilão. Mesmo um fato real, como o transporte por avião de 15 colibris do Brasil para o Jardim Zoológico de Copenhague em 1946, é emoldurado por essa aura mágico-poética na crônica sugestivamente intitulada “Histórias de fadas”.
A presença de “João e Maria” como conto tradicional em que Miguilim espontaneamente se reconhece é de inegável valor simbólico. “João e Maria” (no original, “Hänsel und Gretel”) foi recolhido pela primeira vez pelos irmãos Grimm na sua famosa coletânea Contos da infância e do lar que, após várias edições, se tornaria o mundialmente conhecido Contos de fadas, conforme nos assegura Maria Tatar.48 Desde essa primeira publicação, popularizou-se e espalhou-se pelo mundo em versões diferentes, mas que mantiveram a essência do conflito dos irmãos abandonados e da sua aventura pela floresta hostil. No Brasil, uma versão de Natal (RN) foi divulgada por Câmara Cascudo em Contos tradicionais do Brasil (CASCUDO, 2000:163-5). Monteiro Lobato pôs na boca de Tia Nastácia outra versão, também próxima da oralidade, em Histórias de Tia Nastácia (LOBATO, 1960:64-71). Só para ficarmos nos domínios da nossa língua, também há uma versão de Portugal, curiosamente chamada de “Os dois pequenos e a bruxa” e recolhida em
48 A versão traduzida do conto aqui utilizada e grande parte das informações adicionais foram
retiradas do trabalho de fôlego de Maria Tatar (professora da Universidade de Cambridge em Massachusets) Contos de Fadas – Edição comentada & Ilustrada. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
Contos populares portugueses (PEDROSO, 2001:115-17)49. Não se pode afirmar com certeza qual dentre as muitas versões Miguilim escutou, pois não há mais elementos em “Campo Geral” para tanto. Mas não seria leviano supor que Guimarães Rosa conhecesse um bom número de variantes do conto e, dentre elas, a versão escrita dos irmãos Grimm. Utilizaremos, portanto, a versão dos Grimm, por já estar cristalizada e por ser a mais rica em simbologias e imagens. No entanto, antes de passarmos ao estudo mais esmiuçado de “João e Maria”, retomaremos o tema geral dos Contos de Fada e algumas de suas características que serão pertinentes adiante.
49 Há, como se devia esperar, algumas diferenças no enredo de cada versão. A maioria das versões orais não tem tanta riqueza de detalhes e de símbolos quanto a dos irmãos Grimm. Na versão que Lobato recolheu, curiosamente, a estória continua só com João, depois que ele sai de casa, e enfrenta um monstro de sete línguas para casar-se com uma princesa. Fica claro que houve o acréscimo de episódios de outras estórias, como normalmente ocorre quando uma estória é passada de contador para contador, através dos tempos. É curioso, ainda, notar que Dona Benta atribui a Hans Christian Andersen a versão escrita de “João e
Maria”, que é, na verdade, dos irmãos Grimm: “– Não – disse Dona Benta. Andersen nada mais fez do que