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3 Vitenskapelige publikasjoner – omfang, definisjon og variabler

3.2 Omfang og avgrensning av vitenskapelig publisering

Os primeiros contatos de Manassés com um instrumento musical foi aos 4 anos de idade quando, escondido, pegava o violão de um irmão mais velho para tocar. Quando o irmão descobriu, criou um desentendimento que foi intermediado pelo pai:

[...] as primeiras músicas comecei a tocar com um violão do meu irmão mais velho, escondido dele, porque ele não deixava uma criança de 4 anos pegar no instrumento, tem ciúme e tudo. Então, quando ele não tava em casa eu me trancava lá no quarto, ninguém via e comecei a pegar o violão, até que um dia me pegaram com a boca na botija, digamos assim, e eu levei uns tabefes dele, levei uns tapas dele. Mas aí meu pai entrou na história e eu falei: “Não, mas eu já sei tocar, não sei o quê.” E o meu pai falou: “Olha, então você vai tocar, se não tocar você vai levar mais uns tabefes.” E eu toquei uma música e pronto. A partir daí o meu pai mandou meu irmão liberar o violão pra mim estudar.20

A criança Manassés logo aprendeu a converter a adversidade em vantagem. Escapou de ―uns tabefes‖ tocando violão. E esta tem sido a caminhada desse operário da música, pois sua sobrevivência depende diretamente da sua execução instrumental. Essa sina de tocador que sobrevive da música foi lhe apresentada muito cedo por seu em pai em uma viagem de Maranguape para Fortaleza.

[...] ele um dia me chamou pra ir a Fortaleza com ele – meu pai – eu fui, ele mandou eu levar o violão do meu irmão. Eu tinha uns 5 anos. Aí a gente chegou na Praça do Ferreira, ele mandou eu sentar num banco, mandou eu tocar. E eu não entendi muito bem aquilo, aí

20 Todos os depoimentos de Manassés para esta pesquisa foram dados em uma entrevista realizada

no dia 12 de março de 2010. Portanto, não colocaremos a referência em cada fala dele, a fim de não repetir essa informação. As referências aparecerão apenas nas falas de outros agentes.

comecei a tocar. Ele pegou o chapéu e começou a passar o chapéu na praça. Começou a juntar gente na Praça do Ferreira, aí eu toquei uma meia hora mais ou menos, ele mandou eu parar e ali na Praça do Ferreira tinha – onde era o Hotel Savaná – tinha uma loja de instrumento musical. “Vamos ali comigo” [Chamou o pai]. Aí ele comprou meu primeiro violão com esse dinheiro, dessa maneira e o dinheiro que a gente arrecadou deu pra comprar um violão. Não era um grande violão, mas era um violão que dava pra tocar e tudo.

A cidade Maranguape faz parte atualmente da região metropolitana de Fortaleza e fica muito próxima da capital. Contudo, a noção de distância decorrente da diferença de acessibilidade entre as duas cidades em 1959 em relação a 2011 nos permite dizer que Manassés e seu pai realizaram uma pequena viagem. Logo, seu primeiro deslocamento já está relacionado à música, e dessa forma Manassés começou a adquirir os dois capitais centrais para a nossa pesquisa: ―de mobilidade‖ e ―musical‖.

O pai de Manassés foi um visionário, pois de alguma forma percebeu que o violão poderia trazer mais possibilidades para seu filho. Era como se estivesse falando para Manassés: ―A sua enxada será o violão e seu plantio trará frutos socialmente mais reconhecidos.‖ E realmente Manassés transformou, inicialmente, o violão e depois a viola em sua enxada, ou seja, em seu instrumento de trabalho para sobreviver. Esse aprendizado com seu pai foi fundamental para a compreensão da trajetória deste músico considerado um virtuose da viola. Seu instrumento tornou-se a chave de acesso ao mundo.

Essa experiência prática de deslocamento de uma cidade pouco desenvolvida para o centro da capital, tocar em uma praça que era um ponto de encontro da sociedade fortalezense, conseguir chamar a atenção e, a partir daí, angariar fundos com sua habilidade acima da média dos garotos de sua idade, para investir na sua profissão do futuro comprando um instrumento, é realmente emblemática para toda a vida do violeiro que circulou o mundo com a vibração das cordas de sua viola.

No decorrer do relato de Manassés, perceberemos que sua viola é como a lira de Orfeu, que abre as portas por onde passa ao tocar seu instrumento, encantando a todos que o ouvem.

Aos 7 anos de idade ele tocou em um circo na sua cidade natal com dois outros colegas. Em pouco tempo, pelo fato de serem crianças, se tornaram uma das principais atrações do circo.

Então a gente passou a ser atração do circo. E foi muito interessante pra mim isso aí porque aí me viram começar na cidade, eu passei a ser conhecido na cidade. Isso foi o começo de tudo. Já apareceu, o “Jornal O Povo” fez uma matéria comigo, não sei o quê, aquela coisa toda.

Estas foram as primeiras experiências com o público que o tornaram uma pessoa pública em sua cidade.

Ainda em sua cidade natal, aos 7 anos de idade, Manassés integrou um grupo chamado Os Dissonantes, nome dado pelo líder da banda, que era o tecladista, filho da professora Maria José Gurgel, do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Apesar do nome, os adolescentes não tocavam bossa nova, e sim Beatles. Percebemos o capital simbólico de um conservatório que representava a ―música oficial‖ do Estado: o líder do grupo não era só um tecladista, era um tecladista filho da professora do conservatório. Interessante notar como os agentes mesmo que ligados a campos diferentes como, por exemplo, música erudita e música popular, não se isolam completamente. Não obstante, os campos não se confundem, existem forças de atração, pois ambos estão ligados à música, mas diferem em suas especificidades do tratamento musical e do papel que assumem e desempenham na sociedade. Com Os Dissonantes, Manassés começou a fazer pequenas viagens dentro do Ceará: ―Aí eu comecei a viajar, viajar o Ceará.‖

Depois, Manassés viveu uma experiência musical que proporcionou suas primeiras viagens para fora do Estado.

Aí fui tocar num conjunto chamado “Barbosa Show Bossa”. Que era de um baterista muito famoso que tinha aqui no Ceará, considerado o melhor baterista do Nordeste. Então ele tinha um grupo, ele formava um conjunto todo ano pra viajar pelo Piauí, Maranhão, Pará, aquelas regiões todas ali. E ele era muito conhecido e aí essa foi minha primeira viagem grande, assim... Eu saí do Estado, eu tinha 17 anos e foi muito legal. Foi muito difícil, mas a experiência foi muito legal. Passamos por muitas situações.

Nesse relato Manassés declara explicitamente seu aprendizado com a viagem na qualidade de músico do conjunto Barbosa Show Bossa – grupo que fez

algumas viagens pelo Ceará. Os conhecimentos adquiridos foram de ordem musical, mas também de experiências múltiplas que os músicos vivenciaram. A expressão ―passamos por muitas situações‖ envolve uma variedade de dificuldades a serem superadas. Dessa forma, o habitus musical é mais amplo que a questão técnica do instrumento, o músico em viagem aprende nas relações com outras pessoas, no contato com novas realidades, nova culinária, novas formas de hospedagem, novas instalações, o que requisita uma grande capacidade de adaptação. São experiências que vão sendo incorporadas e acumuladas na qualidade de capitais de mobilidade.