3 Vitenskapelige publikasjoner – omfang, definisjon og variabler
3.4 Variabler og informasjonselementer i publikasjonsdata
3.4.8 Kvalitetsnivå
Mais uma vez o violeiro arruma as malas e busca subir a escada social no campo musical. A experiência em uma capital de primeiro mundo trouxe aprendizados na qualidade de músico em contato com outras técnicas e outras sonoridades, mas também trouxe o desencanto daqueles que quiseram explorar o talento musical de Manassés de forma desonesta. A desilusão se fez presente novamente na trajetória desse corajoso viajante, que conseguiu desenvolver estratégias de sobrevivência através do seu capital de maior volume, o talento musical. A viola era sua salvação, sua sobrevivência, dessa forma, era na qualidade de músico que ele conseguiria superar os inesperados obstáculos. O viajante nos relata mais essa travessia que começou ainda na casa de doze quartos em São Paulo, através do amigo conterrâneo Belchior.
[...] chegou um cara que era amigo do Belchior, foi visitar o Belchior lá na casa, e ele morava em Paris, era músico, chamava Beltrano [...] ele trabalhava em uma boate em Paris e tinha vindo ao Brasil pra formar um grupo. Ele trabalhava na boate de um mafioso português. E os caras levavam os grupos formados daqui, então como os grupos eram formados eles já existiam numa política de amizade, de entrosamento e reivindicava as coisas, ficava mais fácil e ele teve problema com esses grupos. Então, o que ele fez? Ele mandou o Beltrano pro Brasil pra escolher um músico em cada lugar diferente, que não se conhecessem. Porque o contrato era de 6 meses, até a gente se conhecer o contrato terminava e ele não tinha problemas com a gente. E por acaso eu tava com o Belchior nesse dia [da visita]. Aí o Belchior falou: “Pô, taqui o Manassés cara!” E aí ele: “Pô legal.” Aí eu fiz o contrato com ele, viajei, aí ele já me trouxe pro Rio de Janeiro, já comprou os instrumentos que eu não tinha: cavaquinho, bandolim, essas coisas [...]. Aí fui pra Paris. Foi outra viagem muito louca, porque Ceará/Maranguape – São Paulo, São Paulo – Paris.
Importante observar que Manassés estava determinado a sobreviver no mundo da música. A decisão de viajar, de se manter em viagem foi feita com afinco. O pouco que contou com seu capital de mobilidade foi muito bem capitalizado pela necessidade de fazer a empreitada dar certo. Manassés podia voltar para Fortaleza, tentar outra carreira, realizar outras atividades, desistir da música? Sim, poderia. Mas nada indica que ele encontraria vantagens com outra decisão que não fosse a
de aproveitar as oportunidades na qualidade músico em deslocamento espacial e social.
As dificuldades decorrentes de um habitus interiorano do Ceará foi algo a ser superado nos grandes centros financeiros e culturais como São Paulo, e agora Paris. ―[...] muito novo, eu, uma pessoa criada no interior, sabe que eu tive dificuldade com isso [...].‖ (Manassés).
Manassés continuou sua busca de sobrevivência, apesar do primeiro contrato francês ter sido uma desilusão.
[...] eu comecei a tocar com eles, mas eu não fiquei nessa boate, eu não cumpri os 6 meses, porque era um regime muito difícil, coisa de bandido mesmo [...] os caras exploravam a gente. No contrato a gente assinou que era obrigado a fazer apresentações de divulgação da casa, que chamava “Via Brasil”. Então, ele [o proprietário] vendia pra gente tocar em grandes festas de grandes milionários, a gente chegou a tocar num castelo do Barão de Rothschild [...]. Tocamos em castelos na Suíça e a gente não ganhava nada, ele ganhava a grana, porque quando a gente [perguntava] “E aí, esse show?”, [ele respondia:] “Não, isso é divulgação.”
Outra vez Manassés se vê obrigado a buscar uma forma de sobrevivência e, como sempre, a música abre portas de saída. O maranguapense já conta com algum capital social no campo musical que permite visualizar alternativas de trabalho.
Então, eu acabei saindo, foi aí que eu comecei a tocar sozinho na noite parisiense, já conhecia os músicos de lá e tinha meu grupo que tocava choro. Aí foi que eu comecei a ter uma carreira solo [...] não era compositor ainda, [...] mas eu trabalhei 3 anos lá e foi muito legal, porque – isso foi em 1975 – até hoje eu sou lembrado lá. Quando eu chego, a nova geração, quando fala “Manassés”, todo mundo: “Você já é famoso, aqui todo mundo fala de você” e as pessoas mais velhas vão falando pros mais novos, tá entendendo. Isso foi uma coisa muito legal, porque meu nome ficou marcado lá, na música, até entre os franceses mesmo, cheguei a tocar com alguns franceses.
Manassés acumulou um capital específico em Paris que até hoje pode ser acessado e convertido em vantagem no campo musical: ―meu nome ficou marcado lá‖.
Depois dessas experiências o maranguapense se encontrou com Fagner em um dos momentos de destaque da carreira deste filho de Orós. A ironia do destino –
que foge à teoria sociológica – é que Fagner somente conhece Manassés em Paris e este encontro rende 15 anos de história musical com o violeiro e guitarrista acompanhando o descendente de libanês.
Passei 3 anos [na França], tive um filho francês e construí uma estória lá. E o Fagner foi fazer um show lá e não levou músicos. E eu conhecia o Fagner, mas, assim, do Programa de Televisão do Augusto Borges, aqui, do Show Mercantil e do Gonzaga Vasconcelos que era “Porque hoje é sábado”. O Fagner foi pra Paris e ia fazer um
show lá, mas não conhecia ninguém, então ele ligou pro Naná
Vasconcelos, que eu já tocava com o Naná Vasconcelos, lá em Paris, a gente tocava junto, só que o Naná tinha se mudado pros Estados Unidos. [...] E a gente [os músicos com o Fagner] fez uma temporada. Era pra gente tocar 3 dias, o primeiro dia tinha 15 pessoas – o teatro cabia 500 – [...] mas entre as 15 tinha um crítico de música muito famoso na França do Jornal “Libération” e o cara ficou encantado com o Fagner, aí no dia seguinte saiu uma matéria, ele falando maravilhas do show e tudo. Aí teve que fazer duas semanas, a última semana lotava e sobrava 300, 400 pessoas fora sem poder ver, fazia duas seções, foi um estrondo mesmo.
O que foge à teoria sociológica é o fato de Manassés conhecer o Fagner pessoalmente somente em Paris. Contudo, o fato deste encontro ter durado 15 anos, não foi mero acaso do destino, existe uma identificação musical, um habitus musical cearense que ganha reverberação decorrente da identidade sonora entre o violeiro e o cantor. A ligação entre os agentes ter sido feita através do Naná Vasconcelos nos fornece uma visão ampliada do campo de atuação desses músicos. O percussionista pernambucano Naná já havia participado do primeiro disco de Fagner – Manera fru fru manera, gravado em 1973 pela Philips. O contato de Manassés com Naná Vasconcelos revela como o músico nascido em Maranguape já estava se inserindo no campo musical na França, especialmente ligado a outros músicos brasileiros, e o quanto já acumulava capital específico nesse período, na Europa. Essa viagem abriu importantes possibilidades de mobilidade para Manassés. Perguntamos mais diretamente sobre a importância dessa viagem para Manassés:
[O fato de viajar, de ir pra outros lugares, o que é que isso ensina, o que é que se aprende com isso?] Eu acho que isso [viajar] foi tudo pra mim. Minha música ela é hoje uma coisa que é a coisa mais difícil do músico conseguir – que é a originalidade. Porque você pegar e tocar igual a fulano é a coisa mais simples do mundo. Agora, você criar um som que as pessoas escutem e reconheçam que é
seu, isso aí é uma coisa muito difícil e isso eu ganhei ao longo dos anos por conta das minhas viagens.
O conceito de originalidade nas artes é fundamental para valoração do capital específico. Manassés, com suas experiências musicais variadas, ampliando suas disposições, colocando seu habitus em movimento, fomentou uma sonoridade ímpar que o identifica, que é a sua marca musical. Isso equivale a uma grife de alta qualidade no mundo da moda. E quando estamos tratando da trajetória de um músico no campo mercadológico, em busca de sua sobrevivência, estamos falando de moda. Mas essa musicalidade própria foi conquistada com esforço, com coragem para aprender, essa disposição que vinha sendo adquirida desde sua primeira experiência com um instrumento musical entre o irmão mais velho e o pai, conseguindo converter um possível castigo na vantagem de um reconhecimento mais amplo.
No período em que esteve em Paris, Manassés também foi aprender em outras regiões europeias.
[...] eu chegava no Marrocos eu queria ver os caras tocar, entende. Fiz amizade com os caras; fiquei 3 meses no Marrocos. Então, conheci os músicos, a gente ia pros lugares pra tocar, o Ud que é o instrumento, que é o violão deles lá e eu tentei tocar, um instrumento muito bonito. Então, eu ouvia muito a música árabe, sempre me encantou muito a música árabe. Quando eu fui pra Espanha eu vivia dentro dos tablados, onde tinha as danças e as músicas flamencas e tudo.
O aprendizado do músico, nesse caso, se deu de forma direta, uma experiência prática que traz mudanças significativas no habitus musical. Manassés incorporou novas fontes de inspiração, novas referências, se aproximando dos músicos de outras localidades. Mesmo sem sair de Paris, essa capital que é também um centro cultural, Manassés teve contato com variadas origens musicais.
[...] Paris é uma cidade cosmopolita, você quer ver qualquer tipo de música, quer ver um show de música africana, música indiana, o que você quiser, você tem. Então, eu sempre fui uma pessoa muito curiosa. Então, em Paris mesmo, eu adorava ver música indiana, adorava a cítara, o instrumento, música indiana, música africana, a música europeia, a música que vinha da Irlanda, também, que é uma coisa muito diferente. Então, isso aí tudo foi entrando no meu universo sem eu copiar nada, ficou na minha cabeça.
Na fala de Manassés Podemos perceber algo extremamente relevante que se refere ao aprendizado, na concepção mais ampla que se pode ter desta palavra. Uma nova forma de ouvir e compreender a sonoridade a partir de uma fonte externa que entra no universo musical do violeiro sem, contudo, ser uma repetição: ―[...] isso aí tudo foi entrando no meu universo sem eu copiar nada, ficou na minha cabeça [...].‖ Uma encucação que é diferente de cover, não é ―fazendo de conta‖ que é uma coisa. É uma experiência que modifica a maneira de se relacionar com o mundo. E no caso de Manassés muda sua forma de expressão musical, amplia, enriquece, surge uma nova sonoridade. ―[...] por isso que chamam, que a minha música é universal [...] não é regional, não é brasileira, não é MPB, é uma música que não tem rótulo [...].‖
O aprendizado musical é como uma postura na trajetória de Manassés, uma atitude permanente, não é um momento estanque como quem entra na sala de aula, realiza exercícios, faz provas ou algo que se assemelhe a este processo. Sua busca de aprendizado é constante em todas as ocasiões. Esse músico se manteve aberto a novas experiências, especialmente em lugares fora do seu habitat de origem.
Eu sou uma pessoa que sempre quis aprender, então, eu sempre ficava ligado em tudo, ligado no técnico de som, fazia perguntas: “Por que que é assim?” “Como é que tira esse som aqui?” Quando vai gravar um instrumento: “Como é que...” E com os produtores também. Hoje eu tenho uma experiência muito grande nesse tipo de coisa. Eu via um cara tocando ali bem, eu falo: “Legal essa técnica aí, como é que é?” Nunca procurei imitar não, mas isso é um aprendizado, você pode usar em alguma hora, mas sem tá fazendo exatamente o que o cara fez, aquilo ali pode te dar uma coisa, uma margem pra você fazer uma outra coisa.
Esta ideia de aprendizado olhando o outro fazer, ou como já nos informou Ricardo Bezerra e Tânia Araújo: aprender brechando os acordes ou no olhômetro (ROGÉRIO, 2008), é uma forma legítima e real de aprendizagem, de mudança. A observação de algo que é diferente do comum, do que já se sabe ou se faz cotidianamente, possibilita a aprendizagem. Olhar de outro ângulo, ou ainda, olhar pelo ângulo que o outro olha, é uma mudança que é proporcionada pelo encontro com o novo. É o mesmo sentido da antropofagia modernista, da quebra de tabus tropicalista e das novas experimentações estéticas do Pessoal do Ceará, como disse Augusto Pontes no encarte do disco-marco que tem como subtítulo o nome Pessoal do Ceará: ―Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem. Enfim
comemos muito a cultura nacional e sempre querendo que a ―comida‖ fosse melhor. Continuamos nesse banquete, mas, começamos a botar os pratos na mesa para distribuir o nosso angu...‖
Manassés nutre esse mesmo espírito de aprendizagem sem fronteiras que se mistura com seu habitus de origem (maranguapense) e irá florescer, nessas experiências variadas e constantes, em um habitus modificado que tem identificações com várias partes do mundo, ainda que o habitus-musical-primário-
nordestino se mantenha presente como uma marca de origem, corroborando a ideia
do habitus primário de Pierre Bourdieu.
Podemos aqui nos permitir uma rápida digressão reflexiva, pois é necessário pensar que essa abertura ao novo é um desafio para o educador musical que precisa, mesmo sem deslocamento espacial, levar seus estudantes – em todos os níveis – a realizarem viagens de aprendizado: descobertas e redescoberta sonoro- sociais. É preciso se deslocar, se colocar em movimento – sem implicar, necessariamente, num deslocamento espacial.