4. Diskusjon
4.3 Om bevaring av profesjonell autonomi
Em muitos dos textos que enfocam essa longa história da imprensa no ter- ritório brasileiro, Antonio Hohlfeldt se vale propositalmente dos seus trabalhos de memória para fornecer, ele mesmo, o testemunho indispensável a qualquer interpretação do passado. Nesse momento, o jornalista atuante em diversos ór- gãos da imprensa gaúcha ganha a dianteira do professor-pesquisador.
Algumas vezes o testemunho serve também para revelar as dificuldades en- contradas na sua trajetória como pesquisador. Os ensinamentos daí decorrentes ganham, então, relevo na sua fala, como princípios para os que se aventuram na construção de uma perspectiva histórica para o jornalismo. As dificuldades de acesso às fontes; a escassez de recursos para a reprodução dos documentos que materializam a “prova” do passado; a má qualidade de conservação desses materiais; e a necessidade de montar infraestrutura para cada pesquisa são ape- nas alguns dos desafios que ele, como pesquisador, enfrentou ao longo dos anos (HOHLFEDLT, 2012).
Se o testemunho é responsável pela recuperação dos processos de pesquisa, que descreve como um alento para os novos pesquisadores e para que eles não tenham que repetir os mesmos caminhos já percorridos, é também o motor para a descrição de alguns processos discricionários de que foi alvo a imprensa brasileira.
Num texto produzido para ser apresentado no Ciclo de Estudos do XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado, em Porto Alegre, em 2004, antes de revelar “o que a censura nos tirou mais”2, num tom de de- poimento reproduz, a partir de sua própria memória, os processos censórios a que estiveram os jornais submetidos durante o período iniciado com o Golpe de 1964. Em muitos momentos do texto, no qual a primeira pessoa assume o protagonismo da história, surgem personagens, casos (como o que lhe foi conta- do em conversa informal pelo amigo, o jornalista João Antônio), imagens, ações que remetem ao seu cotidiano como jornalista em tempos de ditadura.
Outro modo de driblar a censura era escrever mais do que se podia. Quem me contou essa foi João Antônio, ainda no tempo de Realidade: denunciando as falcatruas de negociatas imobiliárias ao longo da estra- da Rio-Santos, João Antônio sabia que não alcançaria dizer tudo o que queria. Recheou, então, a matéria com palavrões, enfocando a vida coti- diana das prostitutas que perambulavam perto das obras etc. O censor, certamente ainda novato, foi direto naquele material e acabou deixando o principal, o que provocou muita dor de cabeça, mais tarde, ao autor da matéria (HOHLFELDT, 2005, p. 45).
Apesar de especificar no texto que iria refletir sobre o tema “sob uma pers- pectiva mais teórica”, muito de seu cotidiano de jornalista aparece fixado na análise. E não poderia ser diferente já que
Eu vivi, dentro de uma redação de jornal, boa parte dos anos pós-68, até bem depois da chamada abertura. Por isso, tenho escrito e procurado discutir, sempre que posso, esse tema (HOHLFELDT, 2005, p. 40).
Ao longo do texto, a memória toma a dianteira como testemunho emocio- nado de um tempo que está sendo de forma galopante esquecido. Depois de
2. O título do texto é “Comunicação, sociedade e memória: o que a censura nos tira mais?” E foi publicado no livro organizado por BRAGANÇA, Aníbal e MOREIRA, Sonia Virgínia. Comunicação, Acontecimento e Memória. São Paulo: Intercom 2005.
discorrer sobre a censura que se abateu sobre a imprensa brasileira, revela, numa frase, a amargura de que uma ação tão cáustica, dramática e cruel (levando ao fechamento de jornais, a prisão de jornalistas, a morte de alguns deles, a perse- guição, entre diversas ações atrozes, ao lado de outras não menos violentas como a censura prévia e a autocensura) seja desconhecida, sobretudo, dos mais jovens:
Depois, veio o golpe de 1964, chegou o AI-5 de dezembro de 1968, e todos nós conhecemos o que sucedeu. Conhecemos? Olho em volta, vejo jovens mais ou menos atentos e curiosos ao que apresentamos e discuti- mos. Conhecemos? Conhecem eles, ou conhecemos nós, realmente, in- clusive os que vivemos tais experiências? (HOHLFELDT, 2005, p. 40).
Feita do jogo dialético entre lembrança, esquecimento e encobrimento, os trabalhos de memória apresentados para compor a narrativa envolvem não ape- nas a dimensão da lembrança explicitada, por exemplo, no texto que começa com o verbo viver, mas a encobridora que vai aflorando paulatinamente no momento em que o autor recorda um passado que se torna presente.
Nesse momento, o esquecimento, como restos que se apagam por ações ide- ológicas e pela dimensão que o presente vai ganhando na vida vivida, aparece como dor e lamento. A ausência da experiência produz o esquecimento dura- douro. Só resta, então, o jornalista deixar a cena e assumir novamente a fala o pesquisador, para através da descrição factual dos processos da censura, existen- tes no passado, fazer emergir o conhecimento. Se o esquecimento é dimensão encobridora, o conhecimento torna-se lugar de revelação.
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